As empresas brasileiras planejam voltar ao mercado de dívida externa neste mês com o fim das férias de verão no Hemisfério Norte. A projeção é que o volume de operações de nomes nacionais, já próximo de US$ 22 bilhões, alcance ao menos US$ 30 bilhões até o fim de 2025, patamar bem acima do registrado nos últimos anos. Em 2024, o total chegou em cerca de US$ 21 bilhões.
Até meados de outubro são esperadas até dez operações de captação externa de nomes brasileiros, incluindo o de companhias como Petrobras e Suzano, apurou o Valor. Uma nova emissão do Tesouro Nacional também é aguardada. O movimento forte deve se repetir em outros países latino-americanos, como Chile, Colômbia e México.
Segundo banqueiros de investimento, o momento é de alta demanda dos investidores, que buscam papéis prefixados para compor o portfólio em um cenário em que se espera a volta dos cortes de juros nos Estados Unidos. Do lado dos emissores, a previsão é que as companhias busquem ofertas também com o intuito de se anteciparem às eleições presidenciais em 2026.
O responsável pela área de renda fixa internacional do Bradesco, Gilberto Nakayasu, diz que entre os anos de 2016 e 2021, a média do volume financeiro das emissões anual era de US$ 25 bilhões. No entanto, o mesmo patamar não foi alcançado nos últimos três anos. Para ele, as projeções para essa próxima janela são positivas, sendo esperados até seis nomes brasileiros no período. “O mercado tem absorvido bem as emissões”, afirma.
A série histórica mostra que em ano de eleição o volume cai pela metade em relação a um ano normal”
O executivo diz que muitas empresas, que são emissoras frequentes lá fora, estão há algum tempo sem captar recursos no exterior, aproveitando as condições do mercado local de dívida, e podem retomar as operações na temporada de setembro.
O responsável pela área de dívida do UBS BB, Samy Podlubny, afirma que o mercado estará aquecido até meados de outubro e que todos os indicativos são de uma “janela forte”. Nas últimas emissões, diz o executivo, “a demanda veio forte com os livros das ofertas saudáveis”. Ele aponta que a tendência, ainda, é de que alguns nomes antecipem ofertas para evitar emissões em ano eleitoral. “A série histórica mostra que em ano de eleição o volume cai pela metade em relação a um ano normal.”
O atual nível das taxas dos títulos brasileiros – que se acomodaram após a volatilidade registrada no início de agosto, quando os Estados Unidos oficializaram tarifas contra o país – é considerado favorável às captações, segundo Caio de Luca Simões, chefe do mercado de dívida do Bank of America (BofA). “Mesmo com essas questões, os bonds brasileiros continuam negociando em níveis baixos, o que ajuda a despertar o interesse das empresas”, afirma.
Para Miguel Diaz, responsável pela área de dívida externa do Santander Brasil, o mercado de bonds mostrou-se extremamente resiliente à volatilidade global neste ano. “Os investidores estrangeiros estão com uma posição bastante construtiva, esperando que as negociações geopolíticas tenham um resultado positivo”, observa.
Diaz afirma acreditar que a janela terá captações de empresas brasileiras, talvez em número menor que o de outros países da América Latina. Na região, são esperadas ofertas de Argentina, Chile, México, Colômbia e Peru. “Quando comparamos a fila de possíveis emissões com a de países latinos, o Brasil destoa um pouquinho.”
O motivo, segundo ele, é justamente o mercado local de dívida, que continua atrativo e cada vez tem mais capacidade de absorção de grandes volumes. As emissões de debêntures somaram R$ 238,9 milhões nos primeiros sete meses deste ano, acompanhando o apetite de investidores por títulos de renda fixa. O mês mais movimentado, até agora, foi julho, que registrou R$ 46,4 bilhões em operações, segundo a Anbima, associação das instituições que atuam nos mercados financeiro e de capitais.
“A janela para bonds é um pouco mais curta e terá talvez um pipeline mais enxuto, mas isso não significa aversão ao risco. As taxas no secundário estão apertadas e vemos viabilidade para praticamente quase todos os créditos irem a mercado”, afirma o executivo do Santander.
No mercado de bonds, houve 21 ofertas brasileiras desde o início do ano, incluindo duas do Tesouro. Também figuram na lista bancos como Bradesco, Caixa, BV e Itaú, além de emissores frequentes como Vale, Raízen, Usiminas, Gerdau e JBS. A operação mais recente foi da Sabesp, em julho.
Procuradas, Suzano e Petrobras não comentaram.
Fonte: Valor Econômico

