Por Fernanda Guimarães e Rita Azevedo — De São Paulo
02/02/2024 05h22 Atualizado há 4 horas
Em janeiro, historicamente uma janela aquecida para captações no mercado externo, o Brasil emitiu US$ 6,85 bilhões em títulos de dívida nos Estados Unidos (“bonds”), trazendo de volta otimismo para os volumes no ano. A expectativa ainda é de que mais duas empresas lancem operações em meados de fevereiro. O volume até agora alcançou praticamente a metade todo o ano de 2023, quando os ‘bonds’ somaram quase US$ 15 bilhões.
O impulso, em termos de volume, veio da emissão soberana de US$ 4,5 bilhões junto a investidores estrangeiros, a maior emissão do país desde 2005. O valor foi ainda o dobro de 2023, quando o governo brasileiro acessou o mercado externo com US$ 2,25 bilhões com títulos verdes.
E esse não foi o único marco do primeiro mês de 2024. O período contou ainda com duas estreias de companhias brasileiras no mercado de dívida em dólar, com a chegada da petroleira independente 3R Petroleum, com uma emissão de US$ 500 milhões, para o refinanciamento de dívida bancária feita para bancar a aquisição do Polo Potiguar, e da Ambipar, especializada em gestão de resíduos, que levantou US$ 750 milhões. O debute de uma brasileira no mercado de bonds não ocorria há dois anos.
O gestor de renda fixa da Legacy Capital, Leonardo Ono, aponta que outra prova da boa janela foi a demanda dos investidores por todas operações. Nas duas emissões que fecharam o mês, por exemplo, FS registrou uma procura de US$ 1,3 bilhão e a Ambipar, de US$ 1,75 bilhão. “As demandas foram fortes. E as empresas conseguiram fugir de eventual volatilidade que poderia ter no mercado por conta do Fed (Fed, o banco central dos EUA)”, lembra.
Essa demanda garantiu em algumas operações a redução das taxas e até mesmo o aumento do volume. A Ambipar, por exemplo, buscava cerca de US$ 500 milhões e captou US$ 750 milhões com títulos de sete anos. A taxa inicial sinalizada era de 10% e ficou em 9,875%. “Conseguimos comprimir o preço e os papéis continuam sendo bem negociados no secundário, o que é uma ótima sinalização”, diz Caio de Luca Simões, chefe do mercado de capitais de dívida do Bank of America (BofA) no Brasil, que atuou na operação ao lado de Morgan Stanley, BTG Pactual e Itaú BBA.
Na oferta da Cosan, que puxou a fila das emissões corporativas, a remuneração foi reduzida dos 7,75% ao ano indicados inicialmente para 7,375% ao ano. A companhia que atua em áreas como energia, álcool, açúcar e lubrificante, captou US$ 600 milhões. O dinheiro deve ser usado para amortizar parte dos empréstimos feitos para a compra de uma participação na Vale em 2022.
Um dos motivos para esse início de ano agitado é a expectativa pelo início do ciclo de corte de juros dos Estados Unidos, que fez com que investidores se apressassem para garantir títulos prefixados com as taxas atuais. Além disso, também contribuiu o fato dos últimos anos terem sido mais fracos em termos de emissões, afirma Simões, do BofA.
“Por muito tempo os investidores ficaram com caixa sobrando porque o número de operações no mercado não era suficiente. No ano passado, eles receberam o pagamento de juros de papéis antigos, recompraram papéis, mas não encontraram novos títulos para desembolsar esse dinheiro que sobrava”, diz o executivo do BofA. “Agora, eles passaram a buscar novos nomes, novas histórias, e com vontade de tomar risco.”
Nos últimos dois anos, janeiro foi um mês fraco para operações de companhias brasileiras. Em 2023, por exemplo, foi realizada uma única oferta no período, de US$ 1 bilhão, da Braskem. A retomada vista agora fortalece a expectativa dos bancos de que as emissões retornem aos níveis históricos neste ano.
Para o responsável pela área de dívida no Morgan Stanley no Brasil, Gustavo Siqueira, o tom para 2024 é de otimismo, com uma expectativa de operações de emissores brasileiros que podem girar em torno de US$ 20 bilhões a US$ 25 bilhões, mesmo diante da leitura de que existe uma tendência de concentração das transações no primeiro semestre do ano, com o calendário na segunda metade ocupado pelas eleições presidenciais nos Estados Unidos. “Deveremos ver empresas querendo acessar o mercado no primeiro semestre para evitar o incerto”, explica. Outro gatilho para uma janela ainda mais robusta, segundo ele, é a sinalização mais clara sobre o corte das taxas de juros no mercado americano, o que deverá atrair um volume ainda maior de emissões.
A expectativa para o ano é de ainda outros novos estreantes, que devem buscar um novo bolso para financiar as operações. O CFO da 3R, Rodrigo Pizarro, comparou a ida ao mercado externo como “first-time issuer” ao próprio IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) da empresa dado o elevado ritmo de reuniões com investidores ao longo do processo de “roadshow” (apresentações a investidores). “O mercado local (de renda fixa), embora esteja aquecido, tem um bolso limitado”, explicou o executivo ao Valor, ao comentar sobre a emissão.
O responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA, Pedro Frade, confirma que os novos nomes no mercado de dívida externa tiveram que passar por um longo processo de preparação, com muita interação com os investidores, o que ao final culminou em demandas positivas. Para o executivo, a previsão também é de volumes no ano entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões, um montante de um “ano normalizado”, segundo ele.
Outras estreias no mercado de dívida externa são ainda esperadas para ocorrer neste ano, afirma o executivo do Morgan Stanley. “Todas as operações de janeiro foram bem recebidas no mercado e para as ‘first-time issuers’ o mercado tem que estar bastante aquecido e com apetite”, diz o executivo. Siqueira comenta que os nomes que vieram no primeiro mês do ano também demonstram uma fila represada de empresas, que já vinham tateando o mercado desde o ano passado.
A janela atual deve ficar aberta até o dia 9 fevereiro, quando parte das companhias brasileiras entram no chamado “período de silêncio” antes da divulgação dos resultados financeiros de 2023. “Com os novos números, as empresas devem voltar a se movimentar para captações entre o fim de fevereiro e março”, diz Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB. Ele estima volumes superiores a US$ 20 bilhões em emissões de dívidas por companhias do país neste ano.
Outro marco na janela de janeiro, segundo Frade, do Itaú BBA, foi o perfil dos investidores estrangeiros que participaram das emissões. “Houve uma melhor qualidade dos investidores, mesmo que ainda com um tamanho de ordens reduzidas, mas houve volta de investidores. Isso foi promissor”, comenta. Frade diz ainda que o mercado segue aberto para bons nomes e que ao longo dos próximos meses os emissores brasileiros frequentes ainda deverão lançar operações. Para ele, os recentes upgrades do rating soberano pelas agências de classificação de riscos contribuiu para o Brasil se posicionar mais uma vez com destaque entre os demais emergentes.
O mercado de dívida externa aquecido confirma a busca das empresas por um perfil de dívida mais diversificado. Mesmo com boas opções no mercado de renda fixa local, as empresas buscam acessar o mercado externo para conseguir pulverizar o passivo. E por isso aceitam pagar um prêmio adicional para poder acessar novos investidores e prazos mais alongados, diz Stefan Castro, gestor de crédito privado da Absolute. “Comparados às taxas da emissão soberana, os papéis das brasileiras estreantes vieram com prêmio de 4% a 5% em termos nominais, que é muito acima do que elas pagam no mercado local.”
Fonte: Valor Econômico