Depois de uma corrida às emissões de debêntures incentivadas provocada pelo temor de tributação dos papéis em 5% a partir de 2026, os sinais cada vez mais claros de que a mudança não passará no Congresso começam a segurar o apetite das empresas por antecipar captações.
Segundo Ulisses Nehmi, CEO da gestora Sparta, muitas empresas estavam com ofertas engatilhadas para aproveitar um possível rali no último trimestre. Agora, com a retirada das debêntures do projeto que prevê a tributação, anunciada pelo relator da medida provisória no Congresso, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), grande parte deve ser cancelada.
Alberto Faro, sócio do escritório Machado Meyer Advogados, diz que o movimento normalizou. “Nos últimos meses, trabalhei em três operações que sairiam só em 2026. Mas não vemos mais antecipações e o volume de setembro está condizente com o que haveria se não houvesse a MP”, afirma.
De acordo com Nehmi, o ano começou com expectativa de queda de 30% no volume de emissões, já que 2024 havia sido de recordes, mas o total nos primeiros meses foi mais forte que o esperado e a partir de junho houve o empurrão do envio da MP ao Congresso.
“No segundo semestre, não acabando a isenção mesmo, o volume deve cair em relação ao ano passado, mas não nos preocupa porque a base é muito alta”, diz Nehmi. Já Faro espera que o ano termine bem próximo ao de 2024.
Em agosto, o volume de ofertas no mercado primário de incentivadas caiu 40%, de R$ 14,2 bilhões para R$ 8,5 bilhões, o menor desde novembro de 2024, de acordo com a Anbima, associação das instituições que atuam no mercado de capitais. Em debêntures corporativas (não isentas), para efeito de comparação, a queda foi de 20%, de R$ 32,1 bilhões para R$ 25,8 bilhões, segundo maior nível do ano.
Como o relator afirmou somente em setembro que a tributação das incentivadas não entraria no texto da Comissão Mista do Congresso, a queda nas emissões pode estar ligada a um sobreaquecimento do mercado e a uma insatisfação com os preços das ofertas, na opinião de Roberto Dumke, chefe da área de pesquisa do ABC Brasil.
O resultado é que os investidores se abasteceram no secundário, que atingiu o recorde de R$ 106,4 bilhões (alta de 9,5% no mês). “Os fundos de infraestrutura captaram muito nos últimos meses e estão cheios de caixa. Então, a pressão por adquirir títulos incentivados pode continuar por um tempo”, lembra Dumke.
Apenas em agosto, conforme o ABC, houve ingresso líquido de R$ 14,1 bilhões nos fundos de infraestrutura, o segundo maior da série histórica, e de R$ 16,5 bilhões nos de crédito privado. No ano, são R$ 73,6 bilhões e R$ 57 bilhões, respectivamente.
Na Sparta, após julho ter sido forte em alocação no mercado primário, em agosto o volume foi fraco, com R$ 55 milhões em papéis de infraestrutura isentos. Com isso, os títulos se valorizaram no secundário.
Daniel Palaia, diretor de investimentos da área de crédito da Asset1, diz que a gestora tem se abastecido mais no secundário. Segundo ele, no primário, os títulos têm prazo mais longo e spreads (em relação ao título público de referência) mais baixos, com casos de taxas até 0,3 ponto percentual abaixo da NTN-B (nota do Tesouro atrelada à inflação). “Tomamos cuidado com emissões mais longas.”
Dados da Asset1 mostram que papéis com nota de crédito triplo A (pouco risco) atingiram patamares historicamente baixos no mês passado, com recuo de 0,13 ponto no spread. A conta da gestora é que esses títulos oferecem hoje pouco prêmio, mas, ao considerar que não se paga IR, o retorno se mostra semelhante. Em agosto, o spread dos AAA foi de 1,09%, contra 1,06% dos AAA não isentos.
A previsão da Asset1 é que, diante do fluxo alto para fundos isentos, no curto prazo, os spreads dos triplo A continuem pressionados, mesmo com a perspectiva de balanços mais fracos no segundo semestre.
Fonte: Valor Econômico