O aumento das tensões comerciais e diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos é “mais ruído do que sinal” para os mercados financeiros e fica em segundo plano diante da tendência cada vez mais forte de diversificação de portfólios, que tem imperado neste ano. É o que aponta o estrategista e economista Thiago Carlos, da Pimco, gestora que administra US$ 2,11 trilhões. Em entrevista ao Valor, ele diz acreditar que os ativos domésticos devem continuar a se beneficiar desse processo.
“Os ruídos de curto prazo, obviamente, não ajudam na performance dos ativos, que teriam um desempenho muito melhor se não tivesse isso. Mas não tira a tendência. Contra o fluxo, não há argumento”, afirma o estrategista, para quem o ambiente atual é o mais favorável dos últimos 15 anos para mercados emergentes. “Não é uma história específica do Brasil, mas é um Brasil que faz parte de um mundo que está mudando.”
E esse movimento deve continuar, justamente pela questão internacional, já que, na visão de Carlos, o ciclo de redução dos juros americanos e a incerteza política contínua nos EUA são fatores que devem apoiar uma nova rodada de desvalorização do dólar em âmbito global. “[O presidente dos EUA Donald] Trump está apenas no começo de seu mandato. Ainda teremos três anos e meio dessa mesma gestão”, lembra.
Valor: Qual é a visão de vocês sobre o Brasil agora? Vocês têm alguma posição?
Thiago Carlos: Temos uma visão positiva. Estamos ‘overweight’ [com uma posição acima da média] em Brasil na maioria dos portfólios. Mas essa performance dos mercados brasileiros que vimos neste ano até agora não é algo exclusivo do Brasil. Se você olhar histórias de lugares onde há grande deterioração fiscal, como na Colômbia, você vai ver algo semelhante. O peso colombiano, por exemplo, valoriza quase 10% no ano. Então não é uma história específica do Brasil, mas um Brasil que faz parte de um mundo que está mudando, com uma rotação de capital para fora dos EUA. Todos os países de mercados emergentes se beneficiam de alguma forma, mas o Brasil, pelo seu ‘carry’ [carrego, que proporciona estratégia de tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo na moeda de outro, onde as taxas são maiores] bastante elevado e atrativo, acaba se beneficiando mais do que os outros.
Valor: Esse movimento para mercados emergentes deve se estender por mais tempo, é duradouro?
Carlos: Sem dúvidas. A grande questão é que há um excesso de intervencionismo nas políticas americanas, que gera uma volatilidade, uma necessidade de diversificação de ativos. Isso se aplica tanto para fluxo de investimentos como para a economia real, com a necessidade de se diversificar cadeias produtivas. É tudo para mitigar risco. Não é uma decisão contra a economia americana, é uma diversificação. E Trump está apenas no começo do mandato. Temos ainda três anos e meio da mesma política, e não há sinal de que ela vá mudar. Por isso, uma coisa importante a se dizer é que, se o Brasil tem problema fiscal, os países desenvolvidos também têm. Só que, no caso dos EUA, é difícil ter uma mudança da política econômica tão cedo. Nesse sentido, enquanto em emergentes como Brasil, Colômbia, Bolívia e Chile você tem mudanças potenciais de políticas derivadas das eleições, nos EUA você não tem isso. É um processo que ainda deve durar ao menos três anos e meio.
Valor: Os cortes de juros pelo Federal Reserve vêm para corroborar esse movimento?
Carlos: Tivemos essa primeira onda de desvalorização do dólar contra todas as moedas, que foi muito derivada dessa necessidade de diversificação, de risco, proteção, ‘hedge’ de câmbio para todas as moedas. O [fato de o] Fed começar a cortar juros, ao meu ver, entregaria a segunda onda de enfraquecimento do dólar, visto que você tem uma queda da taxa de juros americana e um aumento do spread de juros contra outros países. Mas não é um movimento que observamos só na renda fixa, é uma rotação de portfólio global que envolve equities, que envolve volumes gigantescos de investimentos. Nos últimos 12 anos, houve uma concentração excessiva de recursos nos EUA, em diferentes frentes, durante a história do ‘excepcionalismo americano’. Isso se intensificou principalmente no pós-covid. Nesse mesmo período os mercados emergentes sofreram muito com a saída de recursos. Agora, desde o “Liberation Day” [dia do anúncio das tarifas de Trump, em abril], houve uma entrada de US$ 35 bilhões para esses mercados.
Valor: Mas qual é o atrativo dos emergentes neste momento?
Carlos: Nos mercados emergentes as taxas de juros reais chamam a atenção. Principalmente agora, dado o ajuste que você teve na inflação. Pense no Brasil. É difícil encontrar países com taxa de juro real de 10%. Estamos falando de um país que está com uma inflação de 5,2% e caminhando para baixo de 5%, enquanto o juro nominal está a 15%. A própria Colômbia ainda tem taxas de juros muito altas, de 9,25%. Você teve um início de ajuste nas políticas monetárias de emergentes lá atrás, quando o Fed fez seu primeiro corte, e após o Liberation Day isso cresceu. Se antes das medidas de Trump cerca de 40% dos países de mercados emergentes estavam cortando juros, depois disso, imediatamente, subiu para 60%, porque a medida acaba sendo um choque desinflacionário, se não houver impacto cambial. Então é atrativo, e ainda tem mais dessa história para desenvolver, quando avançar o processo de corte de juros. O que costumamos dizer é que esse é o melhor momento dos últimos 15 anos para mercados emergentes.
Valor: O risco fiscal pode atrapalhar esse movimento no Brasil?
Carlos: Se o fiscal estivesse arrumado, o Brasil se beneficiaria mais. O Brasil ainda vai participar desse movimento porque faz parte de todos os índices de emergentes, tem bastante liquidez e se beneficia da estrutura de mercado que tem. Mas, se as condições fiscais fossem melhores, provavelmente teríamos uma melhora de longo prazo nas dinâmicas de ativos.
Valor: As eleições podem mudar o cenário para o Brasil?
Carlos: Não só no Brasil, mas na América Latina como um todo. Há uma onda de eleições, o que obviamente influencia a dinâmica política. Mas eu ainda não acho que, no mercado brasileiro, os preços dos ativos estejam orientados diretamente pelas eleições, principalmente porque elas ocorrem só em outubro de 2026. Acho que houve uma antecipação no processo eleitoral por falta de notícias, o que não é o caso agora, com as políticas de Trump.
Valor: Mas tem quem já esteja prevendo chances de um forte rali nos mercados brasileiros. Isso faz sentido?
Carlos: Depende. Qualquer governante que entre e consiga dar credibilidade à política fiscal vai ajudar [os mercados]. É o grande fator diferenciador, no momento em que o mundo tem um apetite por diversificação de ativos. Com uma sinalização crível de melhoras e sustentabilidade das contas públicas, não precisaria de muito esforço para ter uma melhora dos ativos de forma significativa no Brasil. Ter as políticas fiscal e monetária atuando de forma conjunta é essencial. Essa melhora na popularidade [do presidente Luiz Inácio Lula da Silva], de fato, dá um novo ânimo para o governo, mas é difícil sustentar essa narrativa por muito tempo, por um período maior que um ano. Acredito que no próximo um, dois, três meses estaremos falando de outra coisa. Do ponto de vista eleitoral, acho que o importante é ter credibilidade na política fiscal. Ter uma agenda de reformas. Mais importante que a pessoa que vai estar no cargo são as reformas econômicas que serão feitas, como a administrativa e um plano mais claro de estruturação de gastos, que traga de volta a sustentabilidade da dívida pública.
Valor: E como você vê a escalada de tensões geopolíticas entre os Estados Unidos e o Brasil?
Carlos: Vejo como algo passageiro. Obviamente, isso gera preocupações, mas é mais ruído do que sinal. O sinal [no momento] vem de fora. A tendência [de fluxos para emergentes] é mais profunda e permanente. Esses ruídos de curto prazo, obviamente, não ajudam na performance dos ativos, que performariam muito melhor se não tivesse isso. Mas não tira a tendência. Contra o fluxo, não há argumento.
Valor: Você comentou sobre o impacto desinflacionário das medidas de Trump. Acha que diante disso podemos ter corte da Selic neste ano?
Carlos: Sim, acho que isso é uma grande possibilidade. Não estamos na mesma situação que tínhamos em dezembro do ano passado. Aquele questionamento que havia sobre a eficiência da política monetária hoje não há mais. A política monetária está funcionando, olhe para as expectativas de inflação caindo. A questão é: qual a velocidade em que o BC consegue fazer a convergência da inflação para a meta? Essa queda nas expectativas, que são um componente muito relevante para o Banco Central, abre a possibilidade de a autoridade monetária começar a mudar a comunicação mais para o final do ano, que, por sua vez, abre espaço para o corte de juros.
Fonte: Valor Econômico