Ainda que tenha muito a ser feito no quesito fiscal em mercados emergentes, em especial no Brasil, a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, diz que uma de suas maiores convicções para o ano de 2026 são as posições em títulos de dívida desses países. “Preferimos títulos de dívida de emergentes, porque estamos vendo muitas dessas economias, que tradicionalmente têm grandes desafios fiscais, agora mais aptas para endereçar soluções a esses problemas”, afirmou o estrategista-chefe para América Latina da BlackRock, Axel Christensen.
Para o executivo, os governos e os Congressos desses países estão falando deste tema mais abertamente e com mais frequência. “Isso tem direcionado as discussões, como por exemplo sobre eleições, diferentemente do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, onde ainda não há uma grande preocupação em reduzir os gastos”, complementou. “No Brasil, até o Banco Central está falando disso. É algo que chama atenção, porque é um primeiro passo”, disse, durante apresentação a jornalistas sobre as perspectivas globais da gestora para o ano de 2026.
O estrategista também chamou atenção para o êxito dos países da América Latina em conter a inflação. “Vimos países subindo juros, em casos até em mais de um ciclo, para poder conter a pressão inflacionária, e isso deu bons resultados, beneficiando até as moedas [desses países]”, diz. “Mas agora preferimos ter posições em divisas mais estáveis [como euro, dólar, iene], em vez de moedas dessa região porque achamos difícil que no próximo ano essas divisas repitam o fortalecimento observado neste ano. Moedas como o peso colombiano, e mesmo o real, tiveram uma boa valorização, mas que é difícil de se repetir em 2026″, ressalta, acrescentando que também haverá um período eleitoral na América Latina. “E esse tipo de evento acaba por alimentar mais volatilidade.”
Para o mercado global, a gestora apontou três grandes pontos que os investidores têm de olhar no ano que vem. Um primeiro está relacionado aos movimentos de empresas de inteligência artificial que podem ter impacto global, no que a gestora chama de “o micro vai ser o macro”. A leitura é a de que o desenvolvimento dessas tecnologias é dominado por um pequeno grupo de empresas, cujos gastos são tão grandes que têm um impacto macroeconômico.
“Achamos que a inteligência artificial está entre as grandes transformações estruturais que estão acontecendo no mundo hoje, ao lado de transição energética, mudanças demográficas, fragmentação geopolítica e mudanças no mercado financeiro”, apontou Christensen. “Mas, provavelmente, a inteligência artificial é a maior e mais forte dessas transformações estruturais.”
Também falando sobre IA, a gestora aponta outro fator que deve chamar atenção, sobre ser necessário um endividamento maior das companhias agora para que os retornos sejam obtidos só no futuro. Por isso, as empresas devem continuar buscando crédito nos mercados público e privado, criando oportunidades para investidores. No relatório sobre as perspectivas para 2026, a BlackRock afirma que o aumento do endividamento público e privado tende a pressionar os juros para cima. Ainda nessa leitura, os custos de dívida elevados contribuem para uma alta do prêmio de prazo, elevando os rendimentos dos títulos longos — por isso, a recomendação da gestora é ficar subalocado em Treasuries de longo prazo. “Embora a IA possa gerar ganhos de produtividade que reduzam o peso da dívida pública, isso levará tempo.”
O terceiro ponto de atenção refere-se à diversificação. A gestora afirma que se o tema de IA frustrar os investidores, o impacto disso pode ser enorme e dificilmente compensado por tentativas de diversificação. A casa lembra que diversificadores tradicionais, como Treasuries de longo prazo, perderam a capacidade de proteger portfólios como antes. “Por isso, cresce o interesse em alternativas como o ouro neste ano”, diz parte do documento. Para a gestora, a diversificação agora significa mudar o foco de grandes classes de ativos ou visões regionais para um posicionamento mais granular, ágil e baseado em temas que funcionem em diferentes cenários.
“Portfólios precisam de um plano B claro e da prontidão para mudar rapidamente. Não vemos opções fáceis de diversificação passiva neste ambiente. Acreditamos que os investidores devem se concentrar menos em espalhar risco e mais em assumi-lo de forma deliberada — em suma, uma abordagem mais ativa.”
Fonte: Valor Econômico


