A percepção de que ganha força a possibilidade de vitória do republicano Donald Trump na corrida eleitoral à presidência dos Estados Unidos e a avaliação de que ele deve implementar parte relevante das promessas de campanha no front econômico, sobretudo em relação a tarifas de importação, começam a assustar e trazem junto a perspectiva de que países emergentes como o Brasil vão ter de navegar por um ambiente global ainda mais adverso de juros mais altos, dólar forte e crescimento menor. Nesse contexto, um eventual choque inflacionário, ainda que temporário, poderia indicar um ambiente ainda mais complexo para o Brasil e apontar para uma Selic em níveis ainda mais altos.
Essa é a avaliação da equipe do UBS Global Wealth Management compartilhada com o Valor. De acordo com a diretora de macroeconomia para Brasil, Solange Srour, a disputa à Casa Branca dominou os debates no encontro anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington. Dependendo de quem ganhar as eleições – Trump ou a adversária democrata, Kamala Harris – e da força que o novo mandatário conquistar no Congresso, a sensação é que políticas econômicas “muito diferentes” podem ser adotadas, diz Srour.
Ainda que pesquisas de intenção de voto nos EUA indiquem uma disputa apertada, o mercado começou a contar com maior chance de Trump ganhar a eleição nas últimas semanas, aponta Srour, em um cenário consensual de que o Senado será dominado pelos republicanos, mas também de que há chance de a Câmara dos Deputados ter maioria do partido – um “red sweep”, como dizem os analistas, em inglês, algo como “varredura vermelha”, a cor do Partido Republicano dos EUA.
Nesse cenário, ou mesmo que o partido conquiste apenas o Senado, Srour e Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) para o Brasil da UBS Wealth Management, têm a avaliação de que as promessas de política econômica de Trump podem não ser apenas “retórica de campanha”. “Parece que há uma visão mais unificada, realmente do partido, sobre as políticas em que Trump destoa mais”, afirma Srour.
A economista cita como exemplo a questão tarifária, ao dizer que se trata do “maior risco hoje” no curto prazo. Trump tem dito que irá impor tarifas às importações americanas da China em mais de 60% e as do restante do mundo de 10% a 20%. “Os investidores estão aumentando a incerteza em relação a quão séria é essa proposta, porque, vendo as pessoas mais próximas dele [Trump], a sensação é de que tem apoio dos republicanos e vai vir mesmo”, diz Srour, ao lembrar que o presidente pode impor tarifas comerciais via decreto.
Mesmo que os democratas também sejam favoráveis a tarifas, a expectativa é de que um governo republicano seria mais agressivo e tempestivo na implementação dessas medidas, afetando mais rapidamente a economia e a geopolítica no curto prazo.
Para os EUA, o efeito seria “superinflacionário” e “certamente recessivo”, diz Srour. “Não dá para ter um choque de nível de preços dessa magnitude sem achar que o consumo vai sofrer, porque a renda disponível [das famílias] vai cair”, avalia a economista.
Internamente entre republicanos, nota Srour, parece haver a visão de que outras promessas de Trump, como a manutenção dos impostos baixos e a desregulamentação de setores, vão elevar a produtividade e, assim, acomodar choques. Há também, de acordo com ela, um argumento de que tarifas não são inflacionárias, já que Trump impôs barreiras na primeira gestão e não houve um choque.
A sensação é a de que [impor tarifas] é decisão tomada acima da economia, em nível de segurança nacional”
“Há consenso na literatura econômica de que tarifa é negativo. E o que o Trump está prometendo hoje é muito maior do que o que ele fez em 2017, quando o ambiente geopolítico também era menos polarizado”, afirma Srour.
Além disso, afirma Telo, a percepção é de que os republicanos estariam dispostos a aceitar mais inflação e um pouco menos de crescimento diante de questões geopolíticas que envolvem uma rivalidade mais profunda – especialmente em relação à China, que tem dependido das exportações para crescer – e, muitas vezes, encarada até como uma questão de defesa de hegemonia dos EUA. “A sensação é a de que é uma decisão tomada acima da economia, em nível de segurança nacional.”
Para países emergentes, como o Brasil, a perspectiva é “muito ruim”, diz Srour, já que as medidas vão levar a um cenário de juros mais altos nos EUA e de “guerra tarifária” pelo mundo. “É visão majoritária a de que os países vão responder”, afirma. Ela alerta, inclusive, que essa guerra comercial poderia desembocar em uma guerra cambial, caso a China use como contrapartida a depreciação de sua taxa de câmbio. “Aí, os emergentes também sofreriam.”
Telo pondera que, até hoje, a China já passou diversos momentos de pressão externa e não optou por desvalorizar a moeda como retaliação. “Um dos objetivos da China de longo prazo é tornar o renminbi [a moeda chinesa] reserva de valor. É uma barreira alta para eles desvalorizarem a moeda”, diz.
No caso do Brasil, a possibilidade de juros americanos mais altos por mais tempo e de dólar mais forte globalmente poderia dificultar ainda mais a política brasileira em “tentar segurar a situação”, avalia Telo. Ele nota que o Brasil já está em um contexto de alta da Selic, mas também de desvalorização do real. “Uma das coisas que poderia ser um canal bom para o Brasil seria proteger um pouco o câmbio, parar a desvalorização cambial, para tentar segurar a expectativa de inflação futura, o que não está acontecendo, a despeito de o Banco Central estar subindo juros.”
No caso de vitória de Kamala, atual vice-presidente dos EUA, os desafios para o Brasil continuam os mesmos, diz Srour, mas, talvez, a “aceleração da urgência” que o mercado tem colocado ao governo brasileiro em termos de entregas no âmbito fiscal pode ser menor, já que os movimentos de dólar forte e de alta dos juros lá fora também tenderiam a ser mais lentos, diz.
Srour pondera que todos esses alertas não são, necessariamente, os cenários mais prováveis caso Trump seja eleito, “mas vai aumentar a incerteza”, afirma.
O cenário base da equipe, diz Telo, continua sendo o de que o Federal Reserve (Fed) vá cortar os juros até 3%, 3,5%. “A dúvida que temos é se vai ter um barulho no meio do caminho que possa atrasar um pouco esse movimento.”
Não é uma discussão de solvência da dívida americana. É uma discussão sobre o prêmio ser maior”
Também ficaria um pouco postergada, de acordo com Telo, a discussão de que o Brasil, ao subir os juros agora, poderia segurar o câmbio, contribuir para a convergência da inflação e, no segundo semestre de 2025, eventualmente, com as condições financeiras mais favoráveis no exterior, voltar a reduzir a Selic, como aponta o Focus.
Se a conclusão for de que, qualquer que seja o presidente dos EUA, ele vai implementar tarifas de maneira rápida e relevante, provavelmente, a perspectiva para os juros americanos no médio e longo prazo será recalibrada, enfatiza Telo. “Trabalhando com dólar mais forte e juros mais altos lá, traz para o Brasil uma pressão para juros mais altos também. A gente pode recalibrar um pouco a visão de, por exemplo, quanto tempo os juros podem ficar mais altos [no Brasil] ou o prêmio embutido para ter papéis mais longos”, diz Telo, ao reforçar que mudanças de alocação devem aguardar os desdobramentos das eleições americanas.
O viés é, porém, ter uma visão de que a renda fixa vai trabalhar com juros mais altos por mais tempo, inclusive no Brasil, diz. “Não fizemos nenhuma mudança de alocação até agora. Estamos com posição até de baixo risco, neutros em bolsa, com um pouquinho mais de ativos ligados à inflação do que costumamos ter. Vamos calibrar um pouco se esse cenário lá fora se confirmar e, se o Brasil receber de fora uma curva de juros americana mais inclinada [taxas longas mais altas], podemos avaliar se realmente o prazo mais longo dos papéis é onde deveríamos continuar – estamos na parte intermediária – ou, talvez, se deveríamos encurtar”, já que, para ele, o ambiente global exige posições mais curtas.
Nos últimos dias, na medida em que Trump ganhou mais espaço sobre Kamala nas bolsas de apostas junto com a possibilidade de os republicanos levarem as duas casas do Congresso, as taxas dos Treasuries de longo prazo subiram de maneira relevante diante, entre outras coisas, da leitura de que Trump poderia comprometer ainda mais a situação fiscal americana. “Os dois [candidatos] podem ser irresponsáveis [fiscalmente]. E, inclusive, a Kamala não está propondo subir todos os impostos de uma vez nem voltar ao que era antes [dos cortes tributários de Trump]. A questão é que Trump pode trazer mais preocupação para o fiscal no curto prazo porque ele pode ter mais apoio político no Congresso”, diz Srour.
Para Telo, no entanto, “seria esticar demais a corda” dizer que, dado o nível de déficit americano, seria necessário um prêmio maior para a rolagem da dívida do país. “Não estamos nesse tipo de discussão.”
Se o déficit fiscal americano não é o problema principal na cabeça dos investidores no momento, por outro lado, caso Trump ou Kamala sejam mais expansionistas nos gastos, “significa que vai ter de pagar um prêmio maior”, diz Srour. “Não é uma discussão de solvência da dívida americana, de crise fiscal. É uma discussão sobre o prêmio ser maior; o juro neutro [ que não retrai nem acelera a inflação] vai ser maior. E quem mais vai sofrer, de novo, são os emergentes. No fundo, vamos sofrer o problema fiscal americano, mas porque também temos problema fiscal no Brasil”, diz Srour.
Para ela, a maior incerteza externa pode catalisar uma piora adicional nos ativos brasileiros se o governo Lula não entregar “algo que satisfaça” em termos de ajuste de despesas. “Tem de ser estrutural, porque o mercado não está olhando 2024; está olhando a sustentabilidade do arcabouço fiscal e vendo que, em 2026, ele não se sustenta com os gastos crescendo como estão”, afirma. Essa mudança estrutural depende, na visão de Srour, de mudanças no desenho e nas regras de diversos programas de governo.
O “fiscal frouxo”, diz Telo, está trazendo crescimento econômico e pressionando a inflação, e o BC reagiu subindo juros, mas nem as expectativas futuras de inflação nem o câmbio cederam. “Existe uma desconfiança fiscal tamanha que faz o mercado pensar que o BC é ‘carona’, que tudo o que ele fizer não será suficiente para trazer a inflação para a meta”, afirma Srour.
E, diante de tal incerteza, Srour considera justo o nível de Selic a 13,5% em meados de 2025 precificado na curva. “O juro está muito alto? Está, mas temos de ver uma ação de desaceleração de inflação. Se o fiscal ficar totalmente desordenado, como está hoje, a expectativa de inflação tem de subir e o BC não tem outra coisa a fazer a não ser subir [a Selic]”, diz. Por isso, para ela, é difícil enxergar uma discussão sobre queda de juros em 2025. “Se o fiscal não for arrumado, se nada for apresentado, vai ser o BC que vai ser colocado em teste já já”, alerta.
“Seria muito importante o instrumento fiscal ser usado para corrigir essa inflação, porque ele é o mais eficiente neste momento, dado o ponto em que ele está, em relação aos juros”, diz Telo.
Fonte: Valor Econômico


