O diretor de Política Econômica do Banco Central, Diogo Guillen, afirmou recentemente que a eleição presidencial de 2026 não entra nas preocupações da autoridade monetária nesse momento. O que está em jogo é o cenário macroeconômico. E a visão é compartilhada por parte do mercado. A falta de clareza sobre o cenário eleitoral impede que os agentes financeiros façam alocações já pensando na disputa. No entanto, existem outros temas que estão no radar de gestores e analistas. E, estes sim, exigem que o investidor faça adaptações na carteira desde já para não perder o trem.
De fato, uma eleição é sempre imprevisível. Mas a do ano que vem ganha um caráter ainda mais nebuloso pelo fato de os candidatos ainda estarem longe de ser conhecidos.
“Na eleição passada para presidente conhecíamos bem os candidatos e a agenda, porque eles já tinham sido presidentes antes. Agora, a gente não sabe quem é o candidato da direita, se será um só. E esse é um componente novo. E se a direita se divide em vários candidatos, tem a possibilidade do Lula ganhar no primeiro turno“, afirma Marcelo Nantes, chede de renda variável do ASA. “Já o Lula disse que disputa se tiver condições físicas”, complementa.
Apesar de a aprovação do governo ter mostrado um aumento nas últimas pesquisas, Marco Freire, sócio e gestor da Kinea, avalia que ela ainda está em um nível “em que o presidente não se reelege”, diz.
“Alguns pontos ajudam o governo, como inflação cedendo e a reforma do Imposto de Renda, que deve ser aprovada. Mas, o tempo está correndo contra. Estatisticamente falando, com esse nível de popularidade, o Lula não se reelege”, afirma Freire.
Com essa falta de previsibilidade, muitos gestores não têm feito grandes movimentações nas carteiras a fim de se posicionar para surfar as melhores oportunidades durante a eleição. No entanto, eles já começaram a adaptar os portfólios em relação a três temas que impactam não só a economia, como podem mexer com o próprio cenário eleitoral. São eles:
- O início do ciclo de corte de juros no Brasil, que deve começar a partir do ano que vem
- A briga tarifária com os Estados Unidos, ainda longe de chegar a um desfecho
- A questão fiscal do país, que pode ganhar novos contornos no ano que vem, em meio a eleição
Para Nantes, “muito mais importante do que a eleição, é o ciclo de cortes da Selic“. Os especialistas explicam que a economia brasileira tem dado sinais de desaceleração (vide as últimas leituras de setores como varejo, serviços e indústria, que ficaram aquém do esperado).
Além disso, a inflação também tem vindo comportada. Em julho, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), subiu 0,26%, bem abaixo da projeção dos economistas. E em agosto, o IPCA-15, conhecido como “prévia da inflação” mostrou uma deflação.
Esse cenário, portanto, abre espaço para que o Banco Central corte os juros. E as apostas do mercado são que isso aconteça no começo do ano que vem. Portanto, a hora de ajustar a carteira pode ser agora.
Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital, concorda que esses outros “macrotemas” podem se sobressair agora. No entanto, em sua visão, a eleição já começou a pipocar entre os pontos de atenção dos gestores. E não só pelo embate eleitoral em si, mas pelo que o resultado que ela pode trazer.
No que investir, então?
Segundo os gestores, um setor que tende a surfar bem tanto a queda de juros quanto a nebulosidade trazida pelas eleições é o de prestadoras de serviços, também chamadas de utilities. E existem algumas razões para isso, como:
- Essas empresas prestam serviços essenciais e, portanto, têm uma demanda perene. Com isso, elas não ficam tão expostas a ciclos econômicos, nem a diferentes agendas de governo, além de não serem tão impactadas com o tarifaço
- Juros menores significam redução do custo de dívida das companhias. Tendo em vista que essas empresas costumam ter uma grande base de ativos que requer bastante capital, elas tendem a ter um nível de endividamento maior do que companhias de outros setores. Com isso, elas tendem a se beneficiar mais em um primeiro momento de um ciclo de queda de juros
- Com juros menores, a rentabilidade da renda fixa fica menor e muitos investidores buscam oportunidades setores defensivos e previsíveis, especialmente em períodos de incerteza trazidos pelos desentendimentos entre Brasil e EUA
“Elétricas e saneamento se beneficiam quando juros caem e são ativos de uma carteira que navega bem independentemente do eleito“, afirma Freire.
Assim, companhias como Eletrobras (ELET3), Energisa (ENGI11), Eneva (ENEV3), Engie Brasil (EGIE3), Sabesp (SBSP3), Copasa (CSMG3) e Sanepar (SAPR3, SAPR4, SAPR11) e Ambipar (AMBP3) ficam no radar.
Para Freire, alguns dos papéis favoritos nesse segmento são os da Sabesp, Copel e Equatorial. A Sabesp também está entre as preferidas de Nantes, junto com a Eneva.
Além desse setor, outro segmento que vale a pena ter no radar é o de empresas de infraestrutura, em especial aquelas que participam da cadeia do agronegócio. “Gostamos de infraestrutura, de transporte. Porque independe do PIB, se está forte ou não, a produção de grãos vai continuar. Ela até tem alguns problemas como preço da commodity no mercado internacional e o clima, mas a produção continua”, diz Nantes.
Deste segmento, alguns papéis listados na bolsa são Rumo (RAIL3), Hidrovias do Brasil (HBSA3), Kepler Weber (KEPL3) e Raízen (RAIZ4). As favoritas de Nantes são a Rumo, além da locadora de veículos Movida.
Questionado sobre o efeito do tarifaço no mercado, Nantes afirma que o impacto é “muito mais institucional do que financeiro“. “O meu medo nunca foi a tarifa, mas o que pode vir além das tarifas. Se os EUA vão ter alguma medida de restringir exportações para cá, por exemplo. Alguma medida não tarifária. Eu estou mais preocupado com isso”, afirma.
Ele explica que, ainda que os efeitos do tarifaço na economia sejam limitados, eles podem eventualmente trazer consigo consequências que, aí sim, serão sentidas pelo mercado. Um deles é uma possível saída do investidor estrangeiro, que pode levar a bolsa a cair e o dólar a subir.
Além do tarifaço, outro assunto que pede atenção é a questão fiscal. Segundo Nantes, a situação parece mais encaminhada após as mudanças do governo em relação ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que tendem a aumentar a arrecadação. No entanto, em ano eleitoral, é natural que se espere mais gastos.
Independentemente do governo eleito, no entanto, um gasto é certo: em medidas que favorecem a construção civil, especialmente os programas voltados para moradias populares. E é aí que entra mais um setor que o investidor deve ficar de olho.
“Hoje, a visão é muito positiva para construção civil, tanto de baixa quanto alta renda. Sobre os programas do governo, ninguém tem coragem de falar mal, e os riscos em relação a eles não têm a ver com o governo, porque ele é uma unanimidade apartidária”, afirma Utsch, da Nero Capital. É importante lembrar que, mesmo no governo Bolsonaro, os programas de moradia popular foram mantidos, ainda que com outro nome (na ocasião, o Minha Casa, Minha Vida deu espaço ao Casa Verde e Amarela).
Para Utsch, as ações favoritas no setor, considerando o segmento de baixa renda, são Cury (CURY3), Plano&Plano (PLPL3), Direcional (DIRR3) e Tenda (TEND3). Já na alta renda, os papéis da Cyrela (CYRE3) e Lavvi (LAVV3) se destacam. Na visão de Freire, da Kinea, os favoritos são Tenda e Cury.
Se antecipando ao que vem por aí…
Os especialistas também consideram que é importante o investidor tentar se antecipar ao que vem por aí. Em um cenário de juros menores, não só no Brasil como nos Estados Unidos, ações ligadas à economia doméstica podem se sair bem.
“Estamos olhando para Educação, especialmente Yduqs (YDUQ3), Ânima (ANIM3), Ser Educacional (SEER3) e Cruzeiro do Sul (CSED3); saúde, com Rede D’Or (RDOR3) e Hapvida (HAPV3) e transporte, com Localiza (RENT3) e um pouco de Movida (MOVI3). Estamos mais voltadas para isso do que para commodities e etc. E isso mais razão em cenário macroeconômico, com tarifaço, dólar para baixo e etc”, afirma Utsch. Para ele, “uma possível troca de governo justifica a compra de ativos ligados à economia doméstica”.
Nantes afirma que quando juros começarem a cair, já é preciso que o investidor esteja exposto à economia doméstica, inclusive ao varejo. “Principalmente vestuário, jóias e até mesmo o varejo alimentar, mas menos um pouco do que os demais”, diz.
Por fim, Freire afirma que caso um candidato mais ligado à direita vença, setores cíclicos como bancos, vestuário e empresas de baixa capitalização (também chamadas de “small caps”) podem ir bem. Já com a manutenção do governo ou eleição de um candidato mais ligado à esquerda, o que tende a ir bem são as elétricas e a construção civil. “Mas vai ser um cenário mais difícil para bolsa”, diz. Entre os papéis favoritos para surfar essa troca de governo, o gestor aponta Lojas Renner (LREN3), Azzas (AZZA3) e BTG Pactual (BPAC11).
Ainda que a eleição presidencial esteja distante e cercada de incertezas, o consenso entre analistas e gestores é que o investidor não pode esperar para se mover.
Fonte: Valor Investe