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O mercado de trabalho pujante e a demanda aquecida parecem ter acelerando o ritmo com que a desvalorização do real chega aos preços de bens industriais. É o que sugerem dois estudos que analisam o comportamento recente dos preços no país.
Entre o fim de 2023 até agosto, a moeda americana subiu cerca de 16% no Brasil, escalando de R$ 4,85 a R$ 5,63. Foi um período, marcado por grande volatilidade, com o dólar chegando a bater R$ 5,86 na máxima intradiária, em meio a tensões fiscais e questionamento sobre o rumo da política monetária no Brasil e nos Estados Unidos. Ontem, a moeda americana fechou cotada a R$ 5,4883.
A Warren estima que a primeira “pernada” da desvalorização, de R$ 4,90 em dezembro a R$ 5,13 em maio, já acrescentou entre 0,05 ponto porcentual (p.p.) e 0,07 p.p ao IPCA de 2024. “Esses números consideram que o repasse foi entre 50% e 70%. Ainda resta outro 0,05 p.p. que ainda chegará aos preços”, diz Andréa Angelo, estrategista de inflação da corretora.
A partir da lista de bens industriais que compõem o IPCA, a economista encontrou núcleos daqueles mais suscetíveis a variações do dólar – cerca de 24% da cesta de industriais e 6% do IPCA cheio – e também testou a correlação de cada item com até quatro defasagens trimestrais do câmbio. Na ponta, ela encontrou que a defasagem que melhor captura os efeitos da depreciação é a 1, de três meses. Além disso, em dois trimestres, o repasse está praticamente concluído.
“É como se o IPCA de agosto olhasse a variação de câmbio que ocorresse entre março e maio, na comparação com o período imediatamente anterior”, diz Andréa. “Na janela em que a gente rodou o estudo, de 10 anos, esse é o repasse de câmbio mais rápido encontrado.”
É uma diferença de defasagem significativa quando comparada a outro período de depreciação rápida. Em 2018, ano em que o dólar iniciou negociado a R$ 3,18 e terminou em R$ 3,87 – alta de quase 22%, Andréa Angelo encontrou que a defasagem que melhor capturou os efeitos da corrida do dólar naquele momento foi a de 4 trimestres. Ou seja, os efeitos só foram sentidos em 2019.
A diferença na velocidade em que as variações do câmbio chega aos preços dos produtos pode ser explicada pelo ritmo de atividade, avalia Andréa. Enquanto a avaliação predominante é que, em 2024, a economia cresce acima de seu potencial, 2018 e 2019 foram anos de PIB baixo – alta de 1,8% e 1,2%, respectivamente. “Outra justificativa pode ser as expectativas de inflação, que estavam ancoradas naquele período”, sugere.
Em outro trabalho, que também construiu um núcleo de bens industriais com sensibilidade maior que à média às variações tanto do dólar quanto das commodities metálicas em reais, o Itaú Unibanco também nota que o repasse vem ocorrendo de forma acelerada.
Analisando a escalada do dólar de R$ 5,00 para R$ 5,50 entre março e julho, as economistas Luciana Rabelo e Julia Gottlieb notaram que esse núcleo mais sensível – cerca de 40% do total – acelerou de 4,2% para 8,4% entre o IPCA-15 de julho e o de agosto, na média móvel de 3 meses dessazonalizada e anualizada. Já o restante dos bens industriais, menos sensíveis, variaram de 3,1% para 3,4%.
“Olhando a série histórica, a gente vê que o câmbio demora, em média, cerca de seis meses para ser repassado aos preços. O que encontramos, desta vez, é que este grupo vem sendo pressionado mais rapidamente na margem”, diz Luciana.
Mais especificamente, o trabalho mostrou que a correlação do núcleo sensível ao câmbio com as commodities defasadas em seis meses caiu para perto de zero a partir de agosto de 2022, ao passo que a correlação contemporânea permaneceu acima de 50%. Para a série histórica completa, iniciada em 2006, a correlação entre este núcleo e as commodities defasadas e contemporâneas é de 65%, e 58%, respectivamente.
A economista observa que o novo regime coincide com o momento em que a taxa de desemprego quando rompeu barreira dos 9% e passou a operar abaixo do que o banco considera como o nível do desocupação que não acelera a inflação. “Ou seja: esse mercado de trabalho apertado contribui para que com que os preços possam ser repassados mais rapidamente”, explica.
Os bens industriais não são o único canal através do qual o câmbio impacta os preços domésticos. Além dele, combustíveis e alimentos também são sensíveis à variação do dólar. No entanto, o primeiro é bastante dependente da política de preços da Petrobras.
Em relação ao segundo, Rabelo chegou a rodar o mesmo exercício, mas encontrou que a categoria mais sensível é a de proteínas, que vem em um ciclo bastante positivo desde 2023, devido a condições específicas do mercado.
“Houve um período de bastante oferta que não tem ligação com o preço da ração [por onde o câmbio contamina os custos]. Agora, já estamos vendo alguma virada dessa tendência, com dados de abate de fêmeas caindo e indicando que os preços devem acelerar daqui para frente”, diz.
Dada a tendência recente de repasse cambial mais rápido e a perspectiva de que o real não sofra outras pernadas de desvalorização – a mediana da Focus prevê que o dólar deve cair a R$ 5,40 no fim de 2024 e R$ 5,35 no fim de 2025 -, o Itaú entende que o grosso do efeito da depreciação deve ficar restrito a este ano, afetando o IPCA de 2025 principalmente através de uma inércia maior.
Há também alguma incerteza sobre em que medida essa reversão pode ajudar no sentido contrário, de alívio nos preços – em geral, trabalhos que se debruçam sobre o tema notam que a intensidade do sobre repasse cambial é menor em momentos de valorização da moeda do que naqueles em que há desvalorização.
Um estudo de 2019 da MCM Consultores mostrou que uma depreciação do câmbio de 10% resulta em um repasse de 0,66 ponto porcentual. Já uma valorização no mesmo sentido traria um alívio de apenas 0,16 ponto.
De forma semelhante, o trabalho chega à conclusão de que a intensidade do repasse depende do hiato do produto – em momentos em que ele está positivo (não há hiato), o contágio é maior do que em momentos em que ele é negativo.
“Acredito que, qualitativamente, as conclusões sobre intensidade do repasse em relação ao sinal do câmbio e o hiato também valem em relação à velocidade com que ele ocorre”, diz Alexandre Teixeira, autor do estudo da MCM.
Ele pondera, também que variações pequenas do câmbio como as que se espera que ocorram até o fim do ano tendem a ser repassadas de maneira demorada ou até absorvidas, independentemente de o hiato estar positivo ou negativo.
Rabelo, do Itaú, também avalia que não é possível saber se haverá ter repasse da volta. “Historicamente, a defasagem em que ele também ocorre é um pouco diferente, mas costuma conversar também com um período na casa de seis meses”, diz o economista da MCM.
Ela nota, no entanto, que o banco reviu para baixo a projeção para o câmbio nos próximos dois anos – passou a esperar um dólar em R$ 5,40 no fim de 2024 e R$ 5,20 no fim de 2025. E isso ajudou a baixar a projeção do IPCA neste último caso de 4,20% para 4,10%, principalmente via impacto sobre bens industriais.
Já a Warren entende que os efeitos da segunda rodada de depreciação, de março a agosto, começarão ser sentidas apenas a partir de novembro. “Estimo que um repasse integral seria de 0,47 ponto porcentual, mas observando que apenas entre 50% e 70% são repassados em um primeiro momento, o que chegaria é algo entre 0,23 ponto e 0,33 ponto”, diz Andréa.
Dessa forma, o repasse da depreciação registrada até agosto devem perdurar até o primeiro trimestre de 2025. “Isso significa que a nossa projeção de 4,20% de IPCA para o ano que vem tem viés de alta”, afirma a economista.
Fonte: Valor Econômico
