Um dos maiores economistas da atualidade não está otimista com o futuro da economia global. Muito pelo contrário. Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), espera que os Estados Unidos atravessem uma crise fiscal nos próximos anos, que deve se traduzir também em um surto inflacionário. Diante da vontade política inexistente de resolver o endividamento público por meio de cortes de despesas, o ajuste deve acontecer via inflação, repressão financeira e nem mesmo um “calote seletivo” na dívida pode ser descartado.
Rogoff, que lançou o livro “Our Dollar, Your Problem” [Nosso Dólar, Seu Problema], acredita que há amplo espaço para que a divisa americana perca valor e também prestígio no comércio internacional, especialmente para o euro, no curto prazo, e para o renminbi, em um prazo mais extenso. O economista, que falou com o Valor, estará no Brasil, na próxima semana para participar do Macro Vision, evento organizado pelo Itaú BBA.
Valor: Está otimista com a economia global nos próximos anos?
Kenneth Rogoff: Essa é uma pergunta difícil, mas eu diria que não. Estamos entrando em um período muito volátil. Existe todo o otimismo com a inteligência artificial e uma tremenda incerteza geopolítica e política. A economia tem sido muito resiliente, mas não sei por quanto tempo ela pode continuar assim. Não me descreveria como muito otimista. Não é uma palavra que eu usaria.
Valor: Por que Trump quer fechar os déficits comerciais?
Rogoff: Trump parece ter uma crença profunda de que tarifas são boas, o déficit comercial é ruim e que os economistas estão errados sobre tudo. Não acho que ele esteja errado sobre tudo em economia, mas nesse assunto ele simplesmente é maluco. Usar tarifas como uma arma é uma coisa, mas pensar seriamente que as tarifas são boas para os EUA, aumentá-las para 15%, 50%, e que isso serve a algum propósito construtivo, não concordo. Talvez ele acredite que perdemos base industrial porque estávamos permitindo que chineses e japoneses e todo mundo exportassem para nós.
Valor: E as tarifas sobre o Brasil?
Rogoff: Não me pergunte. Se você trabalha para a administração Trump, e eu conversei com muitas pessoas que trabalham, você simplesmente não tem permissão para discordar de nada. Ou está 100% apoiando cada ideia, ou está fora. Acho que eu não seria capaz de servir ao governo Trump.
Valor: Emitir a moeda de reserva global é um privilégio exorbitante?
Rogoff:É uma vantagem incrível para os EUA de maneiras óbvias e não óbvias. Isso nos permite emitir a juros mais baixos para qualquer nível de dívida. O dólar nos ajuda a controlar o sistema de pagamentos internacional e isso coloca os nossos bancos em uma posição privilegiada. Nos dá informações para espionar a todos. Permite usar sanções financeiras. E existem potencialmente outras armas a vir.
Valor: Quais?
Rogoff:Se o Trump tomar o controle do Fed, eu me preocuparia com ele usando as linhas de swap do banco central como arma. Elas foram muito importantes para o Brasil e para outros países do mundo durante a pandemia.
Valor: A situação fiscal dos EUA é insustentável?
Rogoff: Nos próximos quatro a cinco anos, os EUA terão uma crise fiscal. Os juros reais de longo prazo provavelmente vão subir, e não cair. Existem muitas razões para isso: dívida muito alta, populismo, fragmentação geopolítica, necessidade de construir centros de inteligência artificial (IA).
Valor: Há uma expectativa de que o crescimento pode reverter essa situação, especialmente IA
Rogoff: Podemos ter um crescimento maior, mas a receita tributária não deve crescer da mesma forma. Talvez exista um crescimento maior por causa da IA. Mas, se tivermos, vai ser principalmente para substituir trabalhadores. Isso vai enriquecer o capital e favorecer o mercado de ações. Mas a tributação sobre o capital é muito menor do que o imposto sobre o trabalho. Mesmo que haja um bom crescimento, podemos ter um resultado distópico onde o PIB é bom, mas os governos seguem penando para arrecadar receitas. E há muita incerteza sobre o próprio crescimento, como a questão de direitos autorais, falta de talentos qualificados, oferta de eletricidade.
Valor: E um ajuste fiscal por meio do controle de despesas?
Rogoff: Simplesmente não há vontade política para fazer um ajuste. Trump foi eleito reclamando dos déficits de Biden e, provavelmente, vai entregar um déficit ainda maior. Nenhum dos partidos quer fazê-lo. Por isso, vejo uma crise chegando.
Valor: Quem vai pagar a conta?
Rogoff: Acredito que será uma mistura de inflação mais alta, repressão financeira, com tentativas maiores de obrigar os investidores a manterem a dívida do governo. Isso envolverá muitos controles de capital. Também não descarto alguma espécie de ‘default seletivo’, ou parcial, particularmente sobre credores estrangeiros. Talvez algum ajuste em impostos e gastos, mas não acho que isso vá acontecer até tudo mais dar errado.
Valor: Como funcionaria esse ‘calote seletivo’?
Rogoff: Esse era o plano do Conselho de Assessores Econômicos. Hipoteticamente, o BC do Brasil receberia títulos de 100 anos recebendo um cupom zero. Na cabeça dos idealizadores desta proposta, os EUA vão escolher uma taxa de juros para pagar pelos títulos e as pessoas deveriam ser gratas. Scott Bessent elogiou a ideia por muito tempo e Trump adora essa ideia. Meu ponto é que ninguém deve realmente pensar que os EUA não fariam o que quisessem quando se depararem com uma crise fiscal.
Valor: Uma crise desta natureza faria investidores buscarem dólares, como ocorreu no passado?
Rogoff: Se você olhar para a correlação de taxas de juros e crises, acho que a dívida de curtíssimo prazo é considerada um ativo seguro. Mas não acho que a dívida longa dos EUA seja mais negociada como um “safe haven”. Claro, que a demanda por ativos americanos vai depender se o choque vier dos EUA ou não.
Valor: Os EUA perderam seu status de economia ‘livre de risco’?
Rogoff: Os dias em que os EUA são sempre tratados como porto seguro [‘safe haven’] estão contados. Impor muitas barreiras comerciais acaba prejudicando o seu papel como porto seguro. Se as tarifas ficarem grandes o suficiente, os EUA simplesmente perderão essa condição. Não dá para separar os mercados financeiros dos mercados de bens. Se os mercados de bens estão fechados, é muito difícil fazer os recursos entrarem e saírem do país. Se as tarifas subirem mais do que Trump estabeleceu, ele terá uma surpresa desagradável se estiver almejando que os EUA ainda sejam um porto seguro. É uma propriedade de equilíbrio geral.
Valor: Como o dólar se situa frente às alternativas mais óbvias do momento – o euro e o renminbi?
Rogoff: Não há alternativa imediata. O euro seria o que mais teria a ganhar no curto prazo. E não importa que problemas eles estão tendo neste momento. Meu time de basquete favorito, o Boston Celtics, perdeu para um time muito inferior de Nova York porque seus melhores jogadores estavam lesionados. O time de Nova York não melhorou, mas o Boston perdeu. Os EUA ficaram mais fracos e o euro tende a ganhar espaço. O grande efeito é que os países passarão a manter menos reservas e buscariam outros ativos como ouro, cripto, ações, imóveis.
Valor: É uma tendência?
Rogoff: A longo prazo, o renminbi ganhará participação, pensando em uns 10 anos. No curto prazo, o euro ganhará. E cripto também. Cripto é usado no subterrâneo para evitar impostos e isso já é uma parte grande da economia global. Então o dólar vai perder participação e vai perder tamanho das reservas, mesmo que não haja um substituto pleno.
Valor: Você também vê um surto inflacionário nos EUA. Por quê?
Rogoff: Penso que há pressão fundamental de alta sobre as taxas de juros. Não necessariamente quando tivermos uma recessão, que pode estar a caminho. Mas, em algum momento, quem quer que seja o presidente, não vai aguentar e haverá incentivos para deixar a inflação correr. A independência do Federal Reserve (Fed) entra nesta discussão. Se o Fed mantiver sua independência, talvez a inflação não aumente tanto. Mas, tipicamente nessas situações, o BC precisará ceder, assim como fez sob Biden, e isso nos deu inflação. Os problemas fiscais são a raiz de tudo, mas a independência do Fed está intimamente ligada à questão.
Valor: Vê ameaça real à independência do Fed neste momento?
Rogoff: Haveria uma ameaça à independência do Fed mesmo se [Kamala] Harris tivesse vencido. À medida que a instituição passou a ter que se debruçar sobre meio ambiente, justiça racial, desigualdade. Isso afetou a política até certo ponto. E faz parte da razão pela qual os bancos centrais tiveram problemas. Agora, sob Trump, ele parece querer fazer isso mais rápido. Vimos o exemplo com o Brasil. Trump não poupa esforços. Ele continua forçando até conseguir o que quer.
Valor: E o caso Lisa Cook?
Rogoff: Trump pode ou não ter sucesso no caso de Lisa Cook. Mas parece apenas que a alegação é muito fraca. Novas evidências sugerem que ela cometeu um erro, mas corrigiu. De qualquer jeito, ele continuará perseguindo os governadores até encontrar algo. Há muito poucas pessoas que podem suportar esse tipo de escrutínio. Ele joga sem regras, só quer vencer.
Valor: Como avalia isso?
Rogoff: Trump está pensando em juros mais baixos para ajudar no problema da dívida. Mas sejamos sinceros, ele deseja poder absoluto. Ele não gosta da ideia de haver alguém em Washington que seja respeitado e ouvido. Se Powell está fazendo um discurso, não é fácil para Trump competir naquele dia.
Valor: Os juros já deveriam ter caído mais?
Rogoff: Talvez Trump esteja certo e os juros possam ser um pouco mais baixos. Mas é uma aposta muito arriscada. Não é óbvio que o Fed devesse reduzir os juros nesta reunião. Os riscos inflacionários estão inclinados para cima. E a maior parte do crescimento lento do emprego é porque não há imigração, em vez de qualquer outra coisa.
Valor: Onde vê as maiores vulnerabilidades na economia global?
Rogoff: Com altas taxas de juros, volatilidade, divisões políticas, há muita vulnerabilidade a choques. É difícil acreditar que não teremos uma crise financeira em algum lugar. Pode ser no Japão, que é considerado um ‘porto seguro’. O Japão promoveu aperto por muito tempo e a dívida está acumulada em todo lugar a taxas zero. Mas agora eles estão experimentando inflação e precisam subir juros. E o iene está muito fraco. Se eles aumentarem juros rapidamente, teríamos falência atuarial por tudo. Não sei quanto tempo eles serão capazes de resistir a isso.
Valor: Os mercados emergentes são uma fonte de preocupação?
Rogoff: Surpreende como grandes emergentes têm sido resilientes, como o Brasil tem sido resiliente. É notável. Certamente, Turquia, Brasil e outros países estão vulneráveis. Vivemos um mundo volátil.
Valor: Há complacência dos mercados com todos esses riscos?
Rogoff: Os mercados estão incrivelmente complacentes com a inflação. Isso parece um risco unilateral. Cinco anos atrás, a inflação esperada para 10 anos estava apenas um pouco acima de 2%. Banqueiros centrais apontavam que isso era porque os investidores ponderavam que havia uma chance de a inflação ser zero, contra a chance de ser 4%. Hoje, a chance da inflação ser zero é muito baixa. E as expectativas de inflação subiram apenas um pouco, mesmo após a pandemia. Olhando os problemas da dívida e volatilidade ao redor mundo, é difícil para mim ver como isso é possível.
Valor: E o dólar?
Rogoff: O dólar ainda está muito alto. Francamente, o iene e o real brasileiro ainda parecem muito baixos para mim. Entendo que, no caso do Brasil, há preocupação com a posição fiscal. Mas os mercados ainda não incorporaram a regressão à média nas taxas de câmbio. A última vez que tivemos um dólar tão alto foi em 2002 e, antes disso, em 1980. Tivemos um ajuste modesto em 2025, dependendo do índice que você usa, de 7% ou 10%. O dólar está bem sobrevalorizado.
Valor: Não é contraditório que Trump repita que quer reduzir o valor do dólar, mas, ao mesmo tempo, se irrite com iniciativas para reduzir a dependência global da divisa?
Rogoff: Eles querem que o dólar caia e que o Brasil e o mundo todo perca dinheiro quando isso acontecer [risos]. Mas são duas coisas separadas. É um desejo razoável querer que o dólar caia. Não só razoável, como vai acontecer, com ou sem pressão. Por outro lado, o governo quer que todos usem o dólar como seu back office. Quer que as transações sejam liquidadas através de bancos dos EUA, através do Swift, o sistema de compensação dos EUA, porque querem saber tudo o que você faz.
Valor: Como o mundo deveria reagir a isso?
Rogoff: O resto do mundo não deve querer a mesma coisa. A China não quer, imagino que o Brasil não queira e sei que os europeus não querem. Uma das ideias do meu livro é que pode ser eficiente usar apenas o dólar. Mas se você não confia nos EUA – e ninguém deveria – então eficiência não é tudo. É necessário privacidade, independência. Espero que a China, o Brasil e outros países continuem fortemente movendo-se para desenvolver seu próprio back office, seu próprio sistema de compensações. E sim, Trump impôs tarifas de 50%. Pode chegar a 100%, mas seria tolice ceder a essa chantagem.
Fonte: Valor Econômico