Toledo, da Bradesco Asset: preocupação com recessão nos EUA é exagerada — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Os temores de recessão nos Estados Unidos vieram à tona na sessão de ontem e assombraram os mercados globais. Após o Federal Reserve (Fed, banco central americano) ter sido vocal ao abrir a porta para os juros americanos caírem em setembro, uma rodada de dados bem mais fracos que o esperado nos Estados Unidos levantaram preocupações sobre a saúde da economia americana e afetaram o humor dos investidores, com reflexos sobre o câmbio: o dólar subiu ao maior nível desde dezembro de 2021 e o Ibovespa caiu, em linha com o tombo sofrido pelas bolsas de Nova York.
Já havia uma desconfiança de parte do mercado após a indicação do presidente do Fed, Jerome Powell, de que uma redução nos juros já foi discutida na reunião desta semana. E, com o aumento no número de pedidos de seguro-desemprego na semana passada e a fraqueza da indústria americana em julho, de acordo com dados do ISM, o mercado passou a ficar desconfiado em torno de uma possível recessão nos EUA.
O modo de aversão a risco, assim, foi acionado nos mercados globais e, no Brasil, se refletiu sobretudo no comportamento do câmbio. O real se isolou como o pior desempenho do dia entre as 33 moedas mais líquidas acompanhadas pelo Valor, na medida em que a postura menos conservadora do que o esperado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) abriu a porta para uma nova rodada de depreciação da taxa de câmbio. O dólar, assim, fechou em alta de 1,43%, negociado a R$ 5,7349, após ter ido a R$ 5,7434 na máxima do dia.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/Z/V/DKcVOdT42D4YUi6owMIw/foto02fin-102-mercado-c1.jpg)
Ferman, da Parcitas: dólar depende de fatores além da política monetária — Foto: Carol Carquejeiro/Valor
O índice de atividade industrial do ISM, que caiu de 48,5 pontos em junho para 46,8 em julho, foi o que mais assustou os participantes do mercado. A economista Gisela Hoxha, do Citi, nota que o subíndice de emprego caiu a níveis vistos antes apenas durante a pandemia e a crise financeira de 2008. Ela observa, adicionalmente, que “informações não oficiais no relatório do ISM mencionam que empresas estão demitindo e congelando contratações”.
Esses dados ligaram o sinal amarelo antes da divulgação do relatório de empregos (“payroll”) de julho nos EUA, que será divulgado na manhã de hoje, às 9h30. Há uma expectativa de criação de 185 mil empregos, mas uma frustração pode intensificar os temores relacionados a um desaquecimento mais intenso da economia americana e provocar perdas adicionais dos ativos de risco globais.
O economista-chefe da BradescoCotação de Bradesco Asset Management, Marcelo Toledo, acredita que a preocupação com uma possível recessão nos EUA neste momento se mostra exagerada. Ele avalia que o cenário de pouso forçado (“hard landing”) como improvável, uma vez que não vê desequilíbrios estruturais na economia dos EUA, mas sim uma desaceleração gradual.
Na visão de Toledo, o cenário econômico da China e a queda dos preços de commodities das quais o Brasil é exportador, como o minério de ferro e a soja, são dois riscos mais relevantes para a taxa de câmbio no momento. Para ele, parte da depreciação recente do real não deve se sustentar diante do início dos cortes de juros nos EUA e um cenário fiscal estável, que não traga estresse adicional ao mercado.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/0/3/20CmyOTBC9ZGuUlANDPw/arte02fin-103-mercado-c1.jpg)
Além do exterior, o mercado doméstico ainda reagiu à decisão do Copom, que foi lida por muitos agentes como menos “hawkish” (dura) que o precificado anteriormente nos mercados. Na avaliação da estrategista Andrea Kiguel, do Barclays, o mercado deve continuar a pressionar por elevações nos juros no ambiente atual. Nesse sentido, o real “deve continuar a ter um desempenho inferior nesse ambiente, já que as autoridades precisam entregar resultados na frente fiscal e monetária para que a confiança seja restaurada”.
Na avaliação de Marcelo Ferman, sócio e gestor da Parcitas Investimentos, o dólar depende de outros fatores além da condução da política monetária doméstica. “Acho que, certamente, se [o Copom] fosse mais duro, teria sido bom para a moeda. Mas, em um dia como hoje [ontem], provavelmente estaria depreciando, talvez menos”, diz o profissional.
“Eu vejo o real hoje como excessivamente depreciado, mas o meio do caminho, se eu estiver certo, não significa que ele não possa depreciar mais amanhã. O caminho é tortuoso. Se estiver muito desancorada a situação dentro do Brasil, o BC vai ter de subir os juros. De um jeito ou de outro, isso se resolve”, afirma Ferman. No momento, ele diz ter posições vendidas em dólar contra real (aposta na queda da moeda americana) e compradas no Ibovespa (aposta na alta).
Vale notar que, ainda que a um ritmo bem menos intenso, o Ibovespa também foi afetado pelo mau humor global e fechou em queda de 0,20%, aos 127.395 pontos, revertendo o movimento positivo do começo do pregão.
Na visão do chefe comercial da corretora do C6 Bank, Adriano Yamamoto, a bolsa brasileira também sofreu com um movimento de realização de lucros, após a alta de 3,02% acumulada em julho. “Tudo está atrelado ao cenário macroeconômico global, principalmente à taxa de juros dos EUA. Boa parte da alta [do Ibovespa] de ontem [quarta-feira] foi muito em função da expectativa do mercado de cortes nos juros em setembro, que após a fala do [presidente do Fed, Jerome] Powell, atribuiu uma probabilidade maior de isso acontecer”, diz o profissional.
Para Yamamoto, os mercados emergentes podem ser influenciados positivamente com o início de flexibilização das taxas de juros americanas em setembro, justamente por estarem bem conectados com a curva de juros dos EUA. “Se a curva de juros de lá começar a precificar um corte, a curva aqui responde da mesma forma”, explica. No entanto, ele não espera um efeito positivo tão grande nos emergentes quanto nas bolsas de Nova York.
O mau desempenho do Ibovespa vem na esteira ainda da forte desvalorização das bolsas em Wall Street. O índice Dow Jones caiu 1,21%; o S&P 500 recuou 1,37%; e o Nasdaq perdeu 2,30%. A fuga das bolsas foi tão forte que derrubou os rendimentos dos Treasuries de dez anos às mínimas desde fevereiro – a taxa caiu de 4,035% para 3,982%.
Para Seema Shah, estrategista-chefe da Principal Asset Management, o comunicado mais atenuado e equilibrado do Fed na quarta-feira não deve “enganar” ninguém. “O Fed analisa sua escolha de palavras por muito tempo, e a nova ênfase nos riscos de ambos os lados do mandato, controle de inflação e pleno emprego, acrescenta um leve toque ‘dovish’ [suave], que abre a porta para o corte nos juros em setembro, que todos estão esperando”, diz a profissional, ao observar a mudança no foco do Fed da inflação para o mercado de trabalho. (Colaborou Igor Sodré)
Fonte: Valor Econômico
