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O acordo entre Estados Unidos e Irã por um cessar-fogo de duas semanas melhorou a percepção global de risco e beneficiou moedas ao redor do globo, em especial entre os mercados emergentes, ainda que alguma cautela siga no ar entre os investidores. No câmbio doméstico, o dólar apagou toda a apreciação acumulada ao longo de março frente ao real, o que levou a divisa americana ao menor nível em quase dois anos, apesar de o fluxo cambial ter indicado uma saída relevante de capital do Brasil no mês passado.
No fim da sessão de ontem, o dólar era negociado a R$ 5,1028 no mercado à vista, após cair 1,01%. Foi o menor nível de fechamento da moeda americana frente ao real desde 17 de maio de 2024.
Com o desempenho da sessão, o dólar passou a acumular queda de 7,03% frente ao real no ano, o que leva a moeda brasileira a sustentar o melhor desempenho entre as 33 divisas mais líquidas acompanhadas pelo Valor.
A explicação para a boa performance do real, segundo o gestor Filipo Venditti, da Parcitas Investimentos, está em três pontos: os juros elevados no país; a exportação brasileira de petróleo; e o cenário eleitoral. “Apesar da volatilidade, o diferencial de juros entre Brasil e as outras economias – o que chamamos de ‘carrego’ – ainda é o maior, se avaliado pela volatilidade da moeda”, observa, acrescentando que, mesmo com o aumento da oscilação do real desde o início do conflito, a instabilidade também foi observada em outros mercados emergentes.
“E, na comparação com os pares, o real teve um bom desempenho. Havia moedas com posicionamento muito esticado [muitas apostas favoráveis a elas], então foram mais impactadas”, afirma. Um exemplo é o real contra o peso mexicano, em que a moeda brasileira anotou valorização de 1,82% desde o início da guerra no Irã.
Venditti lembra que a importância das exportações de petróleo na balança comercial brasileira cresceu muito nos últimos anos. “É o produto que mais exportamos hoje. Quando você vê o preço do principal produto da pauta exportadora subindo 40%, temos uma melhora correspondente nos termos de troca”, diz. “Além disso, isso melhora a área fiscal também, por mais que o governo tenha dado subsídios para o diesel. O resultado vai ser bom para as contas públicas”, enfatiza.
Em visão similar à de Venditti, estrategistas do BBVA apontam, em relatório especial sobre mercados de câmbio, que, apesar da guerra, o real continua entre as divisas com melhor desempenho global. Isso se deve, segundo eles, à diversificação de exportações do Brasil, da produção de energia e alimentos, e ao sólido carregamento da moeda. “Após a correção inicial de risco, o real demonstrou resiliência significativa. A persistência de preços elevados de energia e as taxas de juros mais altas devem apoiar o desempenho do real e adiar os riscos eleitorais no curto prazo.”
Tanto o BBVA quanto a Parcitas veem a volatilidade da moeda brasileira em alta e sendo um ponto de atenção por conta das eleições e da preocupação com as contas públicas. Por ora, Venditti diz ver uma disputa eleitoral bem acirrada, com “o pêndulo jogando mais para o lado liberal”, o que também pode estar por trás do desempenho positivo do real no relativo. “O mercado interpreta isso como positivo para uma agenda fiscalista do ponto de vista estrutural”, observa o gestor.
Apesar de o ambiente atual ser positivo para a moeda brasileira, com o real se destacando entre as divisas mais líquidas, o fluxo real de capital piorou de forma expressiva no mês de março, quando houve saída de US$ 6,335 bilhões, segundo o Banco Central.
Economistas e tesoureiros entendem que a aversão a risco e o fim do trimestre pode explicar esse fluxo ruim no mês, e que isso pode ser revertido, caso a percepção de risco geopolítico arrefeça.
O fluxo cambial negativo do Brasil em março foi fruto de uma entrada líquida de US$ 7,733 bilhões pela conta comercial (relacionada a importação e exportação de bens) e da forte saída de US$ 14,069 bilhões pela conta financeira (pagamento de dividendos, envio de capitais para o exterior e retirada de investimentos). Foi o segundo pior desempenho do fluxo financeiro em um mês de março desde o início da série histórica, atrás somente de 2020.
Fonte: Valor Econômico