Embora o índice DXY já tenha depreciado mais de 10% desde o início do ano, a perspectiva é que o dólar continue caindo frente aos seus principais pares. Se, em um primeiro momento, a política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi a principal culpada pela queda, o iminente ciclo de afrouxamento monetário pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) é o novo responsável pela perspectiva de desvalorização.
Somado ao cenário de queda no diferencial de juros — que é amplamente negativo ao dólar —, o mercado começa a ventilar a possibilidade de dominância fiscal, o que também pode pesar sobre o desempenho da moeda.
Em relatório enviado aos clientes, o chefe global de pesquisa em moedas do Deutsche Bank, George Saravelos, disse que o mercado está “complacente demais” com essa possibilidade. Para ele, os riscos de dominância fiscal deveriam ser mais evidentes tanto na inflação implícita (diferença entre os juros nominais e reais) de longo prazo quanto em um maior desconto no dólar, nenhum dos quais se materializou ainda. “Não encontramos argumentos convincentes para justificar que o mercado não deva precificar mais esse risco”.
Ao justificar sua visão, Saravelos destaca os riscos à independência do Fed. O profissional do Deutsche Bank cita o recente fluxo de notícias sobre as diretoras Adriana Kugler, que se retirou do cargo antes da última decisão de política monetária, na qual ela sequer votou, e Lisa Cook, que enfrenta uma batalha judicial contra a tentativa de demissão de Trump.
“Não há dúvida, em nossa opinião, de que o Fed está agora sujeito a riscos crescentes de dominância fiscal”, diz Saravelos. “Vemos o fluxo de notícias macroeconômicas das últimas semanas pessimistas em relação ao dólar. Os EUA estão sofrendo um choque negativo combinado de demanda (tarifas) e oferta (imigração), com a independência do Fed potencialmente comprometida”, acrescenta.
A estrategista-sênior de câmbio do Rabobank, Jane Foley, explica por que o dólar não tem sentido os receios com a independência do Fed e a perspectiva de dominância fiscal. Segundo ela, a percepção é que os eventuais indicados por Trump não seguirão as ordens do republicano “cegamente”, o que manteria um certo grau de confiabilidade na instituição, a despeito da erosão da independência.
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“Mesmo que a perda da independência do banco central seja algo realmente ruim, acho mais provável que vejamos uma diluição moderada dela, na medida em que teremos pacifistas no conselho. Isso não significa que todos fariam cegamente o que Trump mandar em caso de choques inflacionários”, disse Foley, em entrevista ao Valor.
“E acho que é por isso que o dólar não está caindo significativamente, porque estes são economistas confiáveis”, acrescenta Foley, ao fazer referência aos candidatos à sucessão de Jerome Powell, como o ex-diretor Kevin Warsh, o conselheiro econômico Kevin Hassett e o atual membro da autarquia Christopher Waller.
Ainda assim, Foley reconhece a existência de um cenário de dominância fiscal mais amplo, no qual o mercado precisará prestar mais atenção aos gastos. Essa preocupação já pode ser vista em economias desenvolvidas, como Reino Unido e França, onde os juros longos atingiram máximas que não eram vistas há décadas. Porém, os Estados Unidos devem sofrer menos que seus pares caso esse cenário se concretize, na avaliação da estrategista-sênior do Rabobank, devido ao excepcionalismo da economia americana.
“Investidores ao redor do mundo não conseguem realmente evitar a compra de ativos americanos. Talvez as coisas tenham mudado um pouco com a rotação de mercados no início do ano, que tornou os títulos do Tesouro americano em dólar mais vulneráveis??do que no ano passado, por exemplo”, afirma Foley.
No caso americano, o avanço mais acentuado nos juros longos, diante das preocupações fiscais e incertezas comerciais, podem trazer um comportamento incomum para o dólar no curto prazo, avalia Foley. “Se o Fed estiver cortando os juros, geralmente é negativo para o dólar. Mas há momentos, e este é um ótimo exemplo disso, quando o que está acontecendo nos juros longos pode ter um impacto mais dramático na taxa de câmbio”, ela explica, ao mencionar o avanço do DXY durante a turbulência nos juros longos americanos.
A perspectiva para Foley é de que o dólar opere lateralmente até o final do ano, devido ao fato de que os cortes de juros para este ano já estão precificados e à quantidade de posicionamentos vendidos (apostando na queda) por operadores. Porém, para o ano que vem, a projeção é de enfraquecimento caso o Fed adote uma perspectiva mais dovish.
O cenário-base do Rabobank é de um corte nos juros em setembro e quatro cortes em 2026, com o euro podendo chegar a US$ 1,20 no período, mas com um avanço gradual frente ao dólar.
O Lombard Odier também espera uma depreciação do dólar em 12 meses, com o índice DXY próximo dos 91 pontos. O cenário-base do banco suíço é de três cortes nos juros pelo Fed neste ano e mais três no ano que vem, levando a taxa à faixa de 2,75% a 3%. Embora o diferencial de juros seja um dos catalisadores para queda do dólar, o estrategista de câmbio global do Lombard, Kiran Kowshik, explica que o ambiente macroeconômico no qual o Fed está cortando as taxas também é negativo para a moeda americana.
“O Fed vai baixar os juros enquanto os demais bancos centrais já terminaram seus ciclos de afrouxamento monetário. Mas o ambiente é diferente. Se você olhar para os períodos em que o Fed cortou as taxas, mas os juros longos estavam subindo, o dólar não teve um bom desempenho”, diz Kowshik.
A combinação entre o diferencial de juros, as preocupações fiscais e a inclinação na curva a termo americana podem ser benéficas tanto ao câmbio de países emergentes quanto de economias desenvolvidas frente ao dólar, segundo Kowshik. A projeção do estrategista é de que a divisa americana perca terreno frente ao iene em 12 meses e fique entre 1,30 a 1,40 ienes.
Por outro lado, Kowshik enxerga um desempenho lateral da libra esterlina frente ao dólar, diante do espaço fiscal limitado do Reino Unido e da percepção de que o câmbio britânico está sobrevalorizado. A projeção da Lombard é de que a moeda americana ficará próxima de 1,37 libras.
Fonte: Valor Econômico


