Por Victor Rezende e Igor Sodré — De São Paulo
26/04/2022 05h03 Atualizado 26/04/2022
O salto do dólar em relação ao real no fim da semana passada ganhou fôlego no pregão de ontem e a moeda americana voltou a exibir forte valorização. Na esteira de um menor conforto dos agentes com o processo de aperto monetário nos Estados Unidos, o dólar chegou a se aproximar de R$ 4,95 nas máximas do dia, mas perdeu um pouco de força e chegou ao fim da sessão negociado a R$ 4,8755, em alta de 1,44% no mercado à vista.
Ao se levar em conta apenas os dois últimos pregões, o dólar apresenta alta de 5,54% ante o real, em um movimento bastante atrelado a fatores externos. Ao mesmo tempo em que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se prepara para retirar de forma mais célere os estímulos monetários implementados durante a pandemia, a desconfiança em relação à economia da China tem aumentado, conforme novas medidas de isolamento social são impostas no país.
“Até quarta-feira, o real já tinha se valorizado 20% no ano. Não esperávamos que fosse continuar nesse ritmo, mas também não esperamos uma desvalorização. Esperávamos alguma correção. Agora estamos com esse estresse [no câmbio] e pode ser que dure um pouco mais por conta da situação na China”, diz o gestor de moedas da ACE Capital, Daniel Tatsumi.
O profissional não vê o movimento recente no mercado de câmbio como o fim da valorização do real. Apesar da alta forte do dólar nos últimos dois pregões, a moeda americana acumula queda de 12,54% contra o real neste ano. Tatsumi acredita que indicadores a serem divulgados nesta semana ao redor do globo podem puxar o dólar ainda mais para cima e, assim, a moeda americana poderia voltar para a casa dos R$ 5.
Boa parte da piora no comportamento do câmbio doméstico veio após o feriado de Tiradentes, quando o presidente do Fed, Jerome Powell, deu indicações claras de que o ritmo de elevação dos juros nos EUA deve ser acelerado. Para a reunião de política monetária de maio do Fed, o mercado vê chances majoritárias de um aumento de 0,50 ponto percentual nos juros americanos.
“Apesar da combinação de altos preços de commodities e taxa de juros doméstica elevada sustentarem a valorização do real no curto prazo, ainda avaliamos que o ciclo de aperto monetário do Fed vai reduzir o dinamismo do rali das matérias primas e gerar um estreitamento do diferencial de juros”, apontam, em relatório semanal enviado a clientes, os economistas do Santander. Para eles, esse ambiente irá contribuir para um enfraquecimento do real, especialmente no segundo semestre. O banco projeta o dólar a R$ 5 no fim do ano.
Com recomendação neutra em relação ao real, os estrategistas do J.P. Morgan dizem acreditar que, embora as commodities e a política monetária mais rígida ainda sejam favoráveis à moeda brasileira, “as ‘valuations’ e o posicionamento técnico parecem mais desafiadores e, portanto, achamos que o melhor momento do desempenho superior [do real] já terminou”.
Em relatório sobre as perspectivas para os mercados de câmbio globais, o J.P. Morgan revela uma projeção de câmbio a R$ 5,30 por dólar no fim do ano. De acordo com os estrategistas, “os modelos de curto prazo sugerem que [o real] está no lado caro nos níveis atuais, mostrando um desvio de 7%, enquanto métricas de posicionamento parecem pesadas”.
O pregão de sexta-feira, porém, com a alta de mais de 4% do dólar, marcou um forte desmonte de posições no mercado de câmbio futuro. De acordo com a Renascença, os estrangeiros lideraram o movimento e aumentaram posições compradas [aposta na alta] em dólar futuro em 27.675 contratos, enquanto os fundos locais reduziram posições vendidas [aposta na queda] em dólar futuro em 21.815 contratos.
Além do aperto monetário dos EUA, da desaceleração chinesa e das incertezas que se avizinham com as eleições presidenciais, Michelle Hwang, estrategista de câmbio e de juros do BNP Paribas, nota que modelos de prêmio de risco do banco apontam que o real e os ativos brasileiros em geral já exibiram um bom desempenho neste ano “e, portanto, não haveria mais tanto espaço” para valorização adicional.
Hwang observa que o posicionamento do mercado favorável ao real já está “bastante esticado”. “Quando os nossos indicadores começam a apontar que o ativo já teve um rali muito forte, uma alta demanda por risco, a compensação para ter essa posição começa a cair”, observa a estrategista.
Ela comenta, ainda, que o fluxo de capital estrangeiro, que sustentou o rali do real neste ano, não deve continuar tão alto quanto antes. “Teve um fluxo muito forte neste ano e isso está começando a acabar. Não é algo que vai durar para sempre”, diz. Dados da B3 divulgados ontem apontam que em abril, até o dia 20, os investidores estrangeiros sacaram R$ 578,8 milhões em ações. Vale lembrar que, no ano, os estrangeiros fizeram um aporte de R$ 64,74 bilhões.
Ontem, o Ibovespa também refletiu o mau humor com a política de contenção da covid na China, o que levou o principal índice da bolsa local a fechar o dia em queda de 0,35%, aos 110.684,95 pontos. O nível de fechamento, porém, ficou bem longe das mínimas do dia, na medida em que o Ibovespa ganhou fôlego com a recuperação das bolsas em Nova York durante a tarde. E, nesse ambiente de alívio externo, os juros futuros também encontraram espaço para cair – a taxa do DI para janeiro de 2025 recuou de 12,145% para 11,99%. (Colaborou Gabriel Roca)
Fonte: Valor Econômico
![Dólar-628×353[1]](https://clipping.ventura.adm.br/wp-content/uploads/2022/04/Dolar-628x3531-1-628x314.png)