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A perda de tração no mercado de trabalho americano reforçou a sinalização dada anteriormente pelo presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), Jerome Powell, de que a autoridade monetária poderá iniciar o ciclo de corte de juros na próxima semana. O movimento elevou o otimismo com a bolsa local, que renovou a máxima histórica intradiária, ao ultrapassar os 143 mil pontos.
Ainda que, na média, os últimos ciclos de cortes do Fed não tenham sido um gatilho importante para atrair capital estrangeiro para as ações brasileiras, a estrategista de ações para a América Latina e Brasil do J.P. Morgan, Emy Shayo Cherman, acredita que desta vez será diferente: a desvalorização global do dólar poderá alterar a dinâmica de fluxos para cá durante a flexibilização monetária dos EUA, que deve começar neste mês e contar com quatro reduções de 0,25 ponto.
“Agora, a gente acha que é diferente. O dólar está depreciando versus as outras moedas e não estamos propriamente num momento de crise”, destacou Cherman. A executiva também cita que o período atual é distinto porque boa parte dos emergentes passarão por um ciclo de flexibilização monetária, o que é positivo para atrair fluxos para a bolsa local.
Dos países emergentes que a casa possui projeção de política monetária, a estrategista afirma que 16 já iniciaram ou vão começar os cortes de juros neste ano, enquanto 15 devem dar início no ano que vem. Hoje, o J.P. Morgan estima uma queda de 4,25 ponto percentual da Selic, o que levaria a taxa básica de juros para 10,75% no quarto trimestre de 2026.
“Quando o Fed está cortando num momento de crise e, principalmente, num contexto de dólar mais forte, você tem o que a gente chama de ‘flight to quality’ [busca por segurança]. O capital do mundo vai para onde está mais seguro, que são os EUA. Foi isso o que ocorreu na maior parte dos ciclos anteriores”, destaca.
Números levantados pelo J.P. Morgan mostram que, nos últimos quatro ciclos de corte do Fed realizados entre 2001 e 2024, o dólar chegou a apreciar entre 23,3% e 48,5% contra o real, com destaque para o período entre 2001 e 2003, quando a valorização chegou ao valor máximo registrado.
No mesmo período, dados compilados pelo banco mostram que, na média, o fluxo para o mercado secundário de ações da B3 foi negativo em R$ 1,5 bilhão cerca de dois meses antes do afrouxamento monetário, com as retiradas caindo para R$ 1,0 bilhão um mês antes do começo dos cortes. Já durante o mês em que a queda de juros começou, as entradas somaram R$ 1,8 bilhão, em média.
O quadro não é muito diferente ao analisar prazos posteriores ao corte. Cerca de dois meses após o início da flexibilização monetária do Fed, as retiradas de investidores estrangeiros do mercado secundário de ações da B3 somaram R$ 3,0 bilhões, em média. Três meses depois, os saques chegaram, em média, a R$ 1,3 bilhão.
O estudo feito J.P. Morgan buscou analisar os efeitos três meses antes, durante e três meses após o início do ciclo de cortes. De acordo com o levantamento, o único momento em que houve um fluxo positivo mais relevante para o mercado secundário de ações da B3 ocorreu em setembro de 2024, quando os cortes do Fed não envolveram um período de crise e o dólar depreciou 1,5% dias após a queda dos juros e continuou a recuar por mais algumas sessões. Nesse caso, houve entradas de R$ 10 bilhões na bolsa local, explica Cherman.
Embora a queda de juros do Fed possa ser um indutor de capital neste ano, o estudo do J.P. Morgan mostra que tanto o fluxo como o desempenho do MSCI Brazil tendem a ser melhores um mês antes e durante o corte das taxas.
Nos últimos cinco ciclos de afrouxamento monetário nos EUA, a melhor rentabilidade em dólar do MSCI Brazil foi registrada um mês antes do início dos ciclos de cortes, chegando a 9,3%, em média. Durante o mês do corte, o retorno médio em dólar chegou a 7,8%. Já o pior desempenho foi visto três meses após o começo da queda de juros, com as perdas do índice em dólar chegando a 11,0%.
O estudo feito pelo J.P. Morgan também trouxe que o Brasil foi o país emergente com a melhor performance agregada ao redor dos cortes de juros do Fed, considerando o efeito visto um mês antes, durante e um mês depois. A título de comparação, o MSCI México obteve um retorno médio, em dólar, de 2,8%, cerca de um mês antes de a autoridade monetária americana iniciar o ciclo de queda. Percentual esse que chegou a 2,4%, em média, durante o mês de corte. Já um mês depois, os ganhos do índice chegaram a 4,9%, em média.
“É natural porque o Brasil é o maior beta de América Latina”, destaca Cherman. A executiva afirma que o beta (volatilidade relativa de um ativo em relação à do mercado) da bolsa local já foi maior antigamente, quando o Ibovespa era formado, em sua maioria, por empresas ligadas a commodities. Ela cita que as companhias eram beneficiadas em cenários de corte de juros americanos, em virtude de a perspectiva de crescimento global aumentar, o que poderia favorecer o consumo de matérias-primas.
Embora a composição do Ibovespa tenha mudado ao longo dos anos, a profissional cita que o “beta” do Brasil permanece bastante elevado na comparação com os demais países da América Latina, ainda que tenha diminuído.
Nesse sentido, ela avalia que o fluxo estrangeiro para o Brasil pode ser positivo, ainda que tenha perdido força nos últimos meses. A executiva, no entanto, afirma que é preciso ponderar que os recursos aportados no mercado secundário da B3, após o chamado “Dia da Libertação”, foram “extraordinários”, tanto em número quanto em dias consecutivos de entradas.
Dados compilados pelo J.P. Morgan mostram que, em maio, houve entrada de R$ 10,6 bilhões de capital estrangeiro no mercado secundário da B3, número que caiu para R$ 1,2 bilhão em agosto deste ano.
Ainda assim, a executiva destaca que a queda da Selic, combinada à chance de mudança política em 2026 e à desvalorização global do dólar, poderia impulsionar uma migração de capital de fundos internacionais para emergentes como um todo, o que também poderia beneficiar as ações brasileiras.
Fonte: Valor Econômico
