O salto do petróleo e a consequente turbulência no mercado doméstico de juros em março escancararam a concentração dos fundos multimercado na aposta de queda das taxas futuras. Com a divulgação das cartas de grandes gestoras, o tamanho das perdas e o grau de consenso dessa posição ajudam a dimensionar o estresse do mês passado e reforçam a justificativa para a intervenção histórica do Tesouro Nacional, com recompras de títulos públicos.
Era grande a expectativa pelo início do ciclo de flexibilização da política monetária e isso estava, de fato, nas apostas dos investidores locais, que sustentavam posições aplicadas nos juros futuros, sobretudo nos trechos curtos e intermediários da curva. O choque do petróleo, contudo, deixou o cenário mais nublado e afetou em cheio o mercado doméstico, que foi um dos mais atingidos desde o início da guerra no Irã. A justificativa está, sobretudo, no posicionamento técnico do mercado, como revelam as cartas referentes a março dos fundos multimercado.
Além dos resultados negativos em março – amplamente esperados dada a volatilidade -, chama atenção o fato de que boa parte das perdas vem da aposta nos juros locais.
“Sem dúvida nenhuma, o mês de março ficou muito marcado pelo comportamento da renda fixa à luz dos acontecimentos da guerra”, disse o sócio e gestor macro Pedro Dreux, da Occam, durante “call” mensal da casa. “O movimento da renda fixa foi o grande tema e isso explica, também, a performance negativa da indústria. No histórico da indústria de multimercados do Brasil, o mês de março [de 2026] só não foi pior que março de 2020, o mês da pandemia. O mercado de renda fixa foi dominante.”
De acordo com a Anbima, o IHFA, índice de referência do desempenho dos multimercado, sofreu uma queda de 3,42% em março – a maior para um único mês desde a pandemia.
“O que nós vimos ao longo do mês foi um movimento muito intenso; um choque de VaR [risco] que nós não víamos há bastante tempo e que teve impacto muito grande nos portfólios globais. Observamos sucessões de ‘stops’ e quebras de correlação em um comportamento bastante atípico, bem disfuncional na renda fixa, inclusive no mundo desenvolvido”, observou Dreux. “Isso explica um pouco a performance negativa nas posições aplicadas em juros que nós vínhamos carregando no Brasil, principalmente, há algum tempo. A gente sofreu, ‘stopou’ [encerrou] essas posições.”
No fundo Occam Retorno Absoluto, a estratégia de juros locais sofreu uma queda de 1,96% em março, contribuindo para a perda de 2,87% do fundo no mês.
No Ibiuna Hedge, da Ibiuna Investimentos, a perda foi de 6% nas estratégias de juros no mês passado, com uma queda de 0,79% em Brasil e um tombo de 4,21% em outros mercados emergentes. “Do lado negativo, o livro de juros foi o principal destaque do mês, principalmente com as posições aplicadas em curvas de juros de países emergentes”, diz a casa, comandada pelos ex-diretores do BC Mario Torós e Rodrigo Azevedo.
Após o desempenho do mês passado, a Ibiuna reduziu a alocação a risco à espera de definição do cenário internacional e, no “book” de renda fixa, a casa mantém posições aplicadas em juros nominais no Brasil, além de “trades” de valor relativo nas curvas de juros reais e de inflação implícita.
Em uma carta intitulada “O que deu errado?”, os profissionais da Mar Asset Management revelaram ter entrado em março com posições relevantes aplicadas em juros nos EUA (na ponta curta) e no Brasil, na ponta longa, diante de sinais de desaceleração nos dois países; fluxo estrangeiro para ativos brasileiros; e o nível elevado da Selic. “Para um gestor macro brasileiro, poucos eventos são tão potentes quanto um ciclo profundo de cortes de juros. E acreditávamos estar diante de um desses momentos.”
Ao lembrarem do início do conflito, na virada de fevereiro para março, os gestores escreveram que os sinais iniciais apontavam para uma operação “extremamente precisa” no Irã e que a comunicação da Casa Branca reforçava essa leitura. “Diante disso, tomamos uma decisão que, hoje, entendemos como central para o resultado negativo do mês: optamos por atravessar a volatilidade inicial mantendo o portfólio inalterado.”
O fundo Mar Absoluto sofreu um “drawdown” (queda máxima) histórico em março, com uma queda de 16,57%. “Reduzimos risco ao longo do mês – incluindo a ativação do gatilho de ‘stop loss’ de redução após ‘drawdown’ de 15% -, mas ainda que de acordo com nossas regras, o fizemos de forma gradual demais para a velocidade do choque que enfrentávamos”, disseram os profissionais, que passaram a incorporar novas proteções, como a compra de opções de venda de EWZ.
“Erramos na condução tática deste período, especialmente na velocidade de ajuste de risco. Neste momento, operamos com exposição reduzida, aguardando maior clareza do cenário. E, à medida que essa clareza se materialize – e que as assimetrias voltem a se apresentar -, estaremos prontos para, novamente, aumentar o risco de forma gradual”, aponta a Mar Asset.
No caso do fundo K10, da Kapitalo, o retorno foi negativo em 6,13%, com uma queda de 2,62% nas estratégias de juros e de 3,68% em commodities. “Readequamos o nosso livro: zeramos a posição vendida em petróleo e abrimos posição comprada nos derivados, principalmente em diesel”, dizem os gestores do fundo, que seguem aplicados em juros, com posições concentradas no Canadá, na Suécia e no Brasil.
Fonte: Valor Econômico
