Por Toni Sciarretta — De Buenos Aires
16/11/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Professor de história da economia da Universidade Cema (Centro de Estudos Macroeconômicos da Argentina), Emilio Ocampo estudou a dolarização em países como Equador, Panamá e Zimbábue. O modelo pelo qual prefere seguir na Argentina seria mais parecido com o de El Salvador, que adotou o dólar sem uma crise institucional grave como fez o Equador duas décadas atrás. O país poderia conviver com as duas moedas por um período razoável, de acordo com a preferências das pessoas.
Mas a crise atual está se agravando, com a inflação acumulada em 12 meses até outubro em 142,7% e o peso em queda livre. Talvez a oportunidade para uma mudança menos traumática tenha ficado no passado, afirmam os seguidores do economista.
No livro “Dolarização: Uma Solução para a Argentina”, escrito com o colega Nicolás Cachanosky, também da Cema, Ocampo descreve vários passos em direção à dolarização, dada as limitações financeiras e legais no país.
O ponto mais sensível diz respeito à taxa final de conversão dos depósitos e demais ativos financeiros em peso. Como os ativos em dólares são escassos, o valor do peso tende a ser muito depreciado em dólar, empobrecendo ainda mais os depositantes e poupadores. Se o país tivesse ativos para vender em privatizações, por exemplo, a taxa poderia ser menos desfavorável. No livro, Ocampo chega a avaliar ativos como ações da YPF e as licenças da telefonia pelo 5G.
Como a Argentina não tem reservas cambiais para pegar dólares e colocá-los em circulação, terá de constituir um fundo no exterior, possivelmente na Suíça, que reúna os poucos ativos em moeda forte existentes e que possa emitir dívida para ampliar o lastro da dolarização – o chamado “fideicomisso”, uma espécie de fundo destinado a herdeiros em testamento. A ideia é que o povo argentino seja o beneficiário, mas que o governo – seja quem for eleito – não possa se apropriar dos recursos para eventualmente financiar sua dívida.
A partir desse fundo seriam levados dólares físicos, contratuais ou virtuais, como as chamadas stablecoins – criptomoedas com paridade em divisas estáveis, caso de dólar e euro – para uso corrente.
Para fechar o banco central, a Argentina teria que cancelar seus passivos usando os ativos. Ocorre que muitos deles estão nas mãos dos bancos e do próprio governo, o que demanda encerrar contratos, negociar eventuais deságios e substitui-los em nome de novos beneficiários, como numa sucessão familiar ou de empresa.
As chamadas Leliqs, títulos públicos de curto prazo em pesos que hoje estão com os bancos, também teriam de ser retiradas de circulação e substituídas por outros papéis em dólares, emitidos por novos fundos constituídos em favor do país. Inicialmente, teriam forte deságio para refletir o menor risco cambial, mas depois poderiam se apreciar conforme a confiança for retomada e o país recupere o seu risco de crédito.
O plano prevê ainda uma reforma bancária de modo que “o poder político não possa mais confiscar o dinheiro dos poupadores”, como teria feito em diversos momentos da história argentina. Em 2008, por exemplo, o governo de Cristina Kirchner nacionalizou vários fundos de pensão privados, que depois acabaram comprando títulos da dívida pública em pesos. Segundo cálculos da equipe de Ocampo, se esses fundos tivessem aplicado no índice S&P 500 da bolsa de Nova York, como vinham fazendo, teriam hoje cerca de US$ 120 bilhões e não US$ 22 bilhões.
“Há muitas maneiras de se implementar uma dolarização. Desenhamos uma tendo em conta as restrições atuais da Argentina. Obviamente se pode melhorar”, escreveram os autores no livro.
Fonte: Valor Econômico


