Mesmo que a inteligência artificial (IA) traga mais produtividade para a economia dos Estados Unidos, a enorme demanda por investimentos, casada com um déficit fiscal estruturalmente alto, vão segurar os juros em patamares historicamente maiores. O mundo pós-covid e o choque de oferta dado pela guerra do Irã resultam em um ambiente que tende a ser mais inflacionário, segundo Thiago Ferreira, economista-sênior da Vanguard.
A gestora americana, que reúne mais de US$ 10 trilhões em recursos de terceiros globalmente, fez uso justamente de dados coletados via tecnologia e automação em mais de cem anos de história para estabelecer quais cenários os investidores podem enfrentar no futuro. A Vanguard avaliou no mercado americano mais de 800 profissões e atividades que podem ser afetadas, ou até eliminadas, pela automação de tarefas.
“Vai ter automação, mas leva tempo para depois que automatiza eliminar completamente aquele emprego”, disse Ferreira, ao comparar com transformações observadas em outros momentos da história.
Uma das tendências que Ferreira vislumbra é que como na cadeia de tecnologia há necessidade de capital intensivo, vai haver maior demanda de crédito das companhias para se financiar, enquanto o dinheiro disponível do outro lado permanece o mesmo. “Aumenta a demanda pelo mercado de crédito, e por consequência [aumenta] a taxa neutra de juros”, disse Ferreira ao participar de painel da Global Conference, em evento promovido pela XP, em Miami.
O quadro fiscal em expansão, com um déficit que deve voltar para os 7% nos próximos anos – só comparável à fase da pandemia de covid-19 e à crise financeira de 2008, com a quebra do americano Lehman Brothers -, também pressupõe juros relativamente maiores. No pós-covid, a dinâmica de preços na economia mudou completamente, disse. E com o choque de petróleo decorrente da guerra no Irã, é de se esperar uma “inflação mais pegajosa, que não volta para a meta”.
Para Ferreira, que já foi conselheiro do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) por mais de dez anos, esse choque piora o “trade off” dos bancos centrais para reduzir os juros. “Já tinha um cenário que não era bom, com o Fed tentando trazer a inflação para baixo, que se mostra persistente, e do outro lado o mercado de trabalho dá sinais de estar esfriando rápido. A inflação pode ser maior, o crescimento menor, é o pesadelo de qualquer BC.”
Segundo Ferreira, o desejo de qualquer banco central é levar a economia a um pouso suave, evitar uma recessão. Ele espera que o Fed faça neste ano um ou dois cortes de juros, no máximo, enquanto o mercado trabalhava com dois a três reduções, que já foram revisadas nos preços dos ativos.
O executivo da Vanguard disse ainda ver as ações sobrevalorizadas de maneira geral nos EUA, considerando-se a lucratividade atual e futura. “O que explica são expectativas muito otimistas de rentabilidade do setor corporativo que se não se concretizarem podem trazer uma grande frustração.”
Nas transformações tecnológicas mais recentes, desde a bolha das empresas pontocom, os ciclos mostram que os melhores resultados ocorrem quando as inovações estão emergindo, enquanto a parte de valor se dá melhor quando a tecnologia se espalha pela economia, com o uso mais generalizado. “Parece que o que a gente está vendo é que as ações de ‘momentum’ é que foram bem nos últimos anos, e agora o ‘value’ é que faz mais sentido.”
Nesse cenário em que a tecnologia se espalha, mas sem muita eliminação de empregos, o crescimento da lucratividade das companhias varia de 6% a 8% em dez anos, com retorno do investimento entre 5% e 7%. Num quadro mais pessimista, o incremento da lucratividade ficaria entre 3% e 5%, com o retorno entre 2% e -2%.
Ferreira vê o dólar hoje mais ou menos no preço, mas que na hipótese de a produtividade americana bombar, poderia voltar a se valorizar. Se o investidor global permanecer na toada da diversificação, sai dos Estados Unidos e a moeda americana segue caindo. Na Vanguard, a preferência hoje é por ações de valor e renda fixa fora dos Estados Unidos.
*A repórter viajou a convite da XP
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Fonte: Valor Econômico
