Por Marcelo Osakabe e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio
10/11/2022 05h01 Atualizado
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A queda dos preços de alimentos para a residência e de combustíveis e lubrificantes impulsionou as vendas no varejo em setembro, ajudando o setor a interromper uma sequência de quatro quedas consecutivas. Ainda assim, economistas ponderam que o segmento mantém a trajetória de desaceleração observada nos meses anteriores, com diferenciação marcada entre o desempenho de bens sensíveis à renda e dos sensíveis ao crédito.
Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume de vendas no varejo restrito teve alta de 1,1% em setembro, ante agosto, na série com ajuste sazonal, e 3,2% em relação ao mesmo mês de 2021. O resultado veio acima das medianas estimadas pelo Valor Data, que eram de, respectivamente, 0,2% e 1,2%.
No varejo ampliado, que inclui as vendas de veículos e motos, partes e peças, e material de construção, o volume de vendas subiu 1,5% em setembro e 1% na comparação interanual. Os analistas esperavam aumento de 0,9% e 0,4%, respectivamente.
Houve ainda uma revisão dos dados de agosto. O varejo restrito passou -0,1% para 0,1%, ao passo que o segmento ampliado saiu de 0,6% para estabilidade. Em setembro, a receita nominal do varejo restrito subiu 0,2% em setembro na comparação mensal e 13,7% na base interanual. Já a receita nominal do varejo ampliado avançou 1% e 11,9%, respectivamente.
Seis das oito atividades do varejo restrito tiveram alta no mês: livros, jornais, revistas e papelaria (2,5%), equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (1,7%), combustíveis e lubrificantes (1,3%), hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (1,2%), tecidos, vestuário e calçados (0,7%) e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, e de perfumaria (0,6%).
Na outra ponta, móveis e eletrodomésticos (-0,1%) e outros artigos de uso pessoal e doméstico (-1%) apresentaram contração. Houve recuo de 0,1% em veículos, motos, partes e peças e estabilidade (zero) em material de construção.
“Apesar de ter sido mais espalhado, com alta na maioria das atividades, o crescimento de 1,1% está ancorado muito nessas duas atividades”, disse o gerente responsável pela PMC no IBGE, Cristiano Santos, em referência aos segmentos de hiper e supermercados e de combustíveis e lubrificantes. “Tem a ver com deflação. É o terceiro mês seguido de queda de preços de combustíveis. E também tem alguma variação negativa de alimentos, mas em menor medida. Segundo ele, o aumento do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 também teve seu papel ao injetar R$ 12 bilhões na economia.
O desempenho em setembro não impediu o varejo de terminar o terceiro trimestre no vermelho, notam economistas. “Na comparação trimestral, o varejo ampliado contraiu 1,2% ante o trimestre anterior, na série com ajuste sazonal”, diz o Santander, em comentário do economista Lucas Maynard.
Outra leitura que surgiu com o dado foi a divergência entre a performance dos bens sensíveis à renda e aqueles ligados ao crédito. O primeiro grupo continuou se sobressaindo, o que também pode ser efeito de um mercado de trabalho mais aquecido, nota a economista-chefe da Reag Investimentos, Simone Pasianotto. Ela enxerga um leve viés de alta para a projeção do PIB de 2022 após o dado, atualmente em 2,56%.
Olhando adiante e com base em indicadores antecedentes e nos dados da plataforma IGet, que aponta queda real de 1,4% e 2,1% para o varejo restrito e ampliado em outubro, o Santander espera nova desaceleração do varejo, após uma interrupção do crescimento dos salários reais, desaceleração do crédito e normalização da taxa de poupança, diz Maynard.
“Essa dinâmica diferente entre bens ligados à renda e os ligados à crédito só deve começar a caminhar mais igual a partir do segundo semestre de 2023”, avalia a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria. Naquele momento, projeta, haverá uma combinação de reajuste real do salários mínimo com início da queda da Selic e arrefecimento dos preços de bens sensíveis a crédito.
Fonte: Valor Econômico