Negociação prevê a transferência de dívida de R$ 3,8 bilhões, da empresa da família Bueno, para companhia combinada
PorBeth Koike — De São Paulo
As negociações entre Dasa, da família Bueno, e Amil, adquirida em dezembro pelo empresário José Seripieri Filho, para a fusão de seus hospitais estão avançadas, com expectativa de um acordo nos próximos dias. Se confirmadas, cada empresa terá uma participação de 50% da companhia combinada que, por sua vez, será formada por cerca de 20 hospitais como Nove de Julho, Santa Paula, Leforte, Samaritano e Pro-Cardíaco, além da rede de clínicas de oncologia COI.
Trata-se de um negócio com receita anual estimada na casa dos R$ 10 bilhões e presença em sete Estados. A informação foi antecipada pelo Valor Pro, serviço de informação em tempo real do Valor, e foi confirmada pela Dasa.
A transação envolve a transferência de R$ 3,85 bilhões da dívida da Dasa para o novo grupo hospitalar. Com isso, o endividamento líquido da companhia, que no primeiro trimestre estava em R$ 9 bilhões, equivalente a 4,2 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), cai para R$ 4,2 bilhões já considerando a transferência do passivo e o aporte de R$ 1,5 bilhão feito pela família Bueno, em maio.
No futuro, há a possibilidade do novo grupo ser listado. Inicialmente, essa empresa ficaria dentro da Dasa. Hoje, há quatro companhias hospitalares com ações em bolsa: Rede D’Or, Mater Dei, Dasa e Kora.
O acordo não contempla dois hospitais da Amil no Nordeste, o Monte Klinikum, em Fortaleza, e o Santa Joana, no Recife. Segundo fontes, há possibilidade desses ativos serem negociados com operadoras de convênios médicos locais. Os hospitais verticalizados que atendem aos usuários de planos de saúde da Amil também não fazem parte da negociação. A operadora de Júnior tem cerca de 3 milhões de usuários.
O braço de medicina diagnóstica da Dasa – que possui quase 1 mil unidades no país e é líder nesse segmento – também não faz parte da transação. Ainda de acordo com fontes, a empresa da família Bueno está em conversas com laboratórios internacionais para a venda de uma fatia minoritária. Um dos nomes citados no mercado é do gigante americano Quest. A companhia informou que busca, ainda neste ano, a entrada de R$ 2,5 bilhões, no mínimo, em seu caixa com a venda de um dos seus ativos.
Novo grupo seria formado por cerca de 20 hospitais, rede oncológica e receita estimada em R$ 10 bilhões
Caso a combinação de negócios entre Amil e Dasa seja efetiva, o novo competidor terá cerca 4,5 mil leitos de internação, sendo a maior parte em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Há ainda unidades em São Luiz, Salvador, Maringá (PR) e Recife. Segundo o Citi, sua participação de mercado não deve ultrapassar os 20%.
A empresa se firma como o segundo maior do setor hospitalar (a Dasa já ocupava essa posição). A líder do mercado continua sendo disparada a Rede D’Or, com 11,7 mil leitos em 13 Estados.
A operação é assessorada pelo BTG, do lado de Dasa, e BR Partners, com Amil.
As conversas para junção de negócios ocorre num momento em que ambas enfrentam alto endividamento e queima de caixa. A operadora de Júnior amargou prejuízo líquido de R$ 4 bilhões no ano passado. Já a empresa da família Bueno apurou prejuízo de R$ 1 bilhão em 2023.
Ontem, a Dasa também informou que recebeu oferta do empresário Nelson Tanure para uma potencial combinação de negócios com sua empresa de medicina diagnóstica, a Alliança, que envolveria também um aumento de capital em dinheiro, sem aquisição do controle da empresa da família Bueno. “A companhia esclarece que não há qualquer decisão da administração a respeito.”
Nos últimos dois meses, os principais “players” anunciaram transação envolvendo participações societárias ou acordos comerciais entre operadoras de planos de saúde e prestadores de serviços – essas empresas, historicamente, atuaram em lados opostos. No setor, o modelo de negócio é estruturado de forma que quando um dos elos da cadeia ganha, o outro perde. Entre as empresas que se juntaram para algum tipo de acordo estão, por exemplo: Bradesco Seguros, SulAmérica, Unimed Nacional, Rede D’Or, Mater Dei, Grupo Santa, Oncoclínicas, Albert Einstein, BP e Fleury . E agora Amil e Dasa.
A movimentação é vista também como um contra ataque à Hapvida, que tem ampla rede verticalizada e cresce mais do que seus pares.
Em maio, a Bradesco Seguros e Rede D’Or anunciaram a criação de uma empresa hospitalar que começa a operar no segundo semestre com três unidades da bandeira São Luiz, em São Paulo e Rio. A D’Or já é dona da SulAmérica.
Com Amil e Dasa há a aproximação de uma operadora com 3 milhões de usuários de convênio médico e um grupo com a maior rede de medicina diagnóstica do país, com marcas como Delboni, Alta Diagnóstica, Sergio Franco, e a segunda maior rede hospitalar.
Ainda no mês passado, a Oncoclínicas, cujo principal foco é expandir os hospitais focados em tratamento para câncer, fez um aumento de capital de R$ 1,5 bilhão, marcando a entrada do banco Master como acionista que anunciou a intenção de retomar as aquisições. O banco aportou R$ 1 bilhão e financiou outros R$ 500 milhões para o fundador, Bruno Ferrari, acompanhar a transação.
A rede Kora está em processo de saída do Novo Mercado. Seu controlador, o fundo HIG, quer migrar a companhia para o nível básico da B3, entre outras razões, para buscar sócios não listados. A Mater Dei anunciou, há duas semanas, a devolução do Hospital Porto Dias, em Belém, adquirido há três anos, para melhorar seu capital de giro e fluxo de recebimentos. Mais recente Próxima Âmbar, da J&F, compra térmicas da Eletrobras
Fonte: Valor Econômico