Por Paul Hannon, Dow Jones
16/12/2022 15h14 Atualizado há 2 dias
A economia da Europa provavelmente se contraiu no fim de 2022, mas mostra sinais de resiliência, sugerindo que a desaceleração pode ser mais branda do que se temia há alguns meses, segundo apontam pesquisas de atividade divulgadas nesta sexta-feira (16).
O índice de atividade composto da S&P Global para a zona do euro — que inclui serviços e manufatura — permaneceu abaixo da marca de 50 em dezembro, indicando uma contração, mas subiu um ponto em relação a novembro, para 48,8, indicando uma queda menor na atividade do que o esperado.
Os dados mais recentes da pesquisa junto aos gerentes de compras — mais conhecido como PMI — são consistentes com as crescentes expectativas dos economistas sobre como a guerra da Rússia na Ucrânia e a disparada dos preços de energia causa pelo conflito vão afetar a economia da Europa no próximo ano.
Muitos economistas elevaram suas perspectivas para a Europa, com alguns até esperando que a Alemanha — a maior economia da Europa e uma das mais atingidas pela explosão do preço da energia — registre crescimento no próximo ano.
Os fatores positivos incluem o progresso feito pelos governos europeus em garantir o fornecimento de gás natural não russo, novos subsídios do governo para ajudar empresas e famílias a absorver preços mais altos e mercado de trabalho robusto. Globalmente, os sinais de que Pequim pode dar prioridade a um maior crescimento econômico no próximo ano também apontam para o crescimento global.
As pesquisas PMI apontaram uma desaceleração significativa na economia global por vários meses, mas isso só agora está aparecendo claramente nos dados concretos coletados pelos governos. Em todo o mundo, a demanda doméstica por bens está enfraquecendo e as fábricas estão cortando a produção em resposta. Isso também está aparecendo no comércio mais fraco, com as potências industriais da Ásia relatando quedas nas exportações em novembro.
O último sinal de que as famílias estão reduzindo o consumo de bens em resposta à alta mais rápida dos preços do que os salários veio do Reino Unido, onde o volume de vendas no varejo caiu 0,4% em novembro, para um nível 0,7% menor do que antes da pandemia.
Na sequência, veio a divulgação de dado do Departamento de Comércio americano na quinta-feira (15), que mostraram que as vendas no varejo dos EUA caíram 0,6% em novembro, a maior queda deste ano. Na zona do euro, as vendas no varejo caíram em outubro, com o aumento do custo do aquecimento doméstico com a chegada das temperaturas mais baixas do inverno na Europa.
“Embora a queda adicional na atividade empresarial em dezembro indique uma forte possibilidade de recessão, a pesquisa [PMI] também sugere que qualquer desaceleração será mais branda do que se pensava há alguns meses”, disse Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global. A pesquisa PMI para o Japão sugere que a atividade econômica parou de cair em dezembro, enquanto um declínio na atividade no Reino Unido também desacelerou.
A pesquisa PMI para os EUA também apontou uma queda no índice de atividade composto — serviços e indústria — para 44,6 na leitura preliminar de dezembro, de 46,4 em novembro.
Duas grandes incertezas cercam as perspectivas para o próximo ano: quanto mais os bancos centrais vão subir suas principais taxas de juros para domar a inflação e como a economia da China se comportará à medida que os controles da covid-19 são abandonados.
O Banco Central Europeu (BCE) reconheceu na quinta-feira (15) pela primeira vez que a economia da zona do euro provavelmente vai se contrair neste trimestre e no próximo. Mas a presidente do BCE, Christine Lagarde, disse que qualquer recessão seria “relativamente curta e superficial”.
Com os temores de uma desaceleração mais acentuada recuando, os BCs agora sinalizam que pretendem apertar ainda mais a política monetária em 2023 para garantir que a inflação volte às suas metas após um aumento surpreendentemente forte neste ano.
Taxas de juros mais altas vão enfraquecer uma possível recuperação da economia global à medida que 2023 avança, garantindo que muitas famílias com rendas mais baixas continuem enfrentando dificuldades e preocupações com a perda de empregos.
“As autoridades, pelo menos nos EUA e na Europa, agora parecem resignadas com o crescimento econômico mais fraco em 2023”, disse Christian Nolting, diretor de investimentos do banco privado do Deutsche Bank. “Qualquer recessão provavelmente terá vida curta, mas não será indolor.”
Com a economia global atingida por tantos ventos contrários simultâneos — incluindo o fim da pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia — é possível que os bancos centrais aumentem as taxas além do necessário e aprofundem o crise.
A decisão da China de flexibilizar sua política de covid-zero deve impulsionar o crescimento na segunda maior economia do mundo, embora isso possa fortalecer as pressões inflacionárias em outros lugares.
Não está claro quando esse impulso chegará, com alguns economistas alertando que um aumento nas infecções por covid pode enfraquecer significativamente a produção chinesa nos primeiros meses do próximo ano, seguido por uma forte recuperação a partir do segundo trimestre.
“O medo da quarentena agora deu lugar ao medo da infecção, e o resultado econômico é ainda pior”, disse Mark Williams, economista-chefe da consultoria Capital Economics para a Ásia. “Esperamos agora quedas acentuadas na atividade neste trimestre e no próximo.”
Fonte: Valor Econômico
