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A escalada do conflito no Oriente Médio, com os ataques diretos do Irã a Israel, provocou ontem um forte ambiente de aversão a ativos de risco ao redor do mundo. Os reflexos foram observados na queda das ações em Nova York, na disparada dos preços do petróleo e na valorização do ouro, que voltou a se aproximar de suas máximas históricas. No Brasil, no entanto, o comportamento do mercado local foi menos negativo e, apesar da leve alta do dólar, os ganhos das ações da PetrobrasCotação de Petrobras conseguiram sustentar o Ibovespa em terreno positivo.
A tensão nos mercados ganhou força com os relatos de que o Irã estava se preparando para lançar mísseis contra Israel, após o início da ofensiva terrestre israelense no Líbano. O movimento de aversão a risco se intensificou ainda mais após Israel ter confirmado que o Irã havia lançado cerca de 200 mísseis contra seu território, ainda que muitos tenham sido interceptados no espaço aéreo da Jordânia.
Nesse contexto, os temores de uma interrupção na oferta de petróleo do Irã, que gira em torno de 1,5 milhão de barris por dia, fizeram disparar os preços da commodity, que chegaram a subir mais de 5% nas máximas da sessão. O contrato futuro do Brent para dezembro acabou fechando o dia em alta de 2,6%, a US$ 73,56 o barril na ICE, em Londres.
Ao mesmo tempo, o aumento nos riscos geopolíticos e os receios de que a escalada do conflito possa desencadear uma guerra aberta na região, com envolvimento das maiores potências militares do mundo, acabaram gerando forte demanda por ativos de segurança.
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O ouro terminou a sessão em alta de 1,16%, a US$ 2.690,30 a onça-troy. O índice DXY – que mede a força do dólar frente a uma cesta de seis moedas de países desenvolvidos – chegou a subir 0,70% durante o dia. A taxa da T-note de dez anos, que recua quando os preços dos títulos sobem, caiu de 3,787% para 3,744%, em mais um sinal de busca por proteção nos mercados.
Os índices de Nova York, por sua vez, também caíram. O Dow Jones teve queda de 0,41%; o S&P 500 cedeu 0,93%; e o índice eletrônico Nasdaq recuou 1,53%.
Nesse contexto, o índice VIX, popularmente conhecido como “termômetro do medo” de Wall Street, exibiu alta firme no pregão e, nas máximas do dia, chegou a disparar 23,90%, alcançando a marca dos 20,73 pontos. No fim do dia, no entanto, se afastou dos maiores patamares da sessão e fechou em alta de 15,12%, aos 19,26 pontos.
Apesar da volatilidade acentuada no ambiente externo, os efeitos foram mais limitados nos mercados locais. O dólar comercial fechou em alta de 0,31%, cotado a R$ 5,4640, enquanto o Ibovespa anotou avanço de 0,51%, aos 132.495 pontos, impulsionado pelos ganhos firmes nas ações da PetrobrasCotação de Petrobras. Os papéis preferenciais da petroleira subiram 2,67%, enquanto os ordinários avançaram 2,67%.
De acordo com Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos para o Brasil no UBS Global Wealth Management, a escalada da tensão no Oriente Médio preocupa, mas, por enquanto, ainda não altera o cenário-base de inflação cadente nos Estados Unidos e economia americana em desaceleração gradual, o que deve permitir a continuidade dos cortes de juros pelo Federal Reserve, o BC americano.
“Há um risco de curto prazo, que é o que está acontecendo no mercado, que implica alta do dólar com relação a outras moedas, redução dos yields dos títulos do Tesouro americano e queda das bolsas. Isso provoca uma maior aversão a risco e uma procura pelo ativo mais seguro do mundo, que são os Treasuries, dada a incerteza do conflito. Também pode manter o ouro nessa trajetória de preços mais altos. Mas, até agora, é uma oscilação de preços relativamente pequena e que tende a se dissipar no tempo”, avalia.
Segundo Telo, um risco maior a ser monitorado no conflito é o de os preços do petróleo se estabilizarem em níveis bem mais altos, como, por exemplo, US$ 100 o barril, o que mudaria as perspectivas para juros e inflação globais. “Mas, para isso acontecer, a guerra teria que escalar muito mais”, diz.
Para André Duarte, sócio e economista sênior da Occam, o mercado deve monitorar nos próximos dias a dinâmica nos preços da commodity. “Os dois grandes riscos, nesse sentido, estão nos conflitos afetarem a produção de petróleo do Irã e de o próprio Irã fechar o estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 15% da produção de petróleo do mundo”, afirma.
Por enquanto, Duarte diz não ver uma grande pressão para os preços do petróleo porque estes se encontravam em níveis relativamente baixos, se comparado o patamar atual à média dos últimos 24 meses. “Tem muita oferta entrando no mercado, enquanto a demanda parece mais fraca, com a demanda chinesa não crescendo como no passado”, explica. “Se o preço do petróleo subir um pouco, não vejo um impacto disso para os mercados emergentes como um todo, a questão é se houver uma alta substancial nos preços a ponto de gerar algum estresse nas economias globais.”
Já para o diretor de investimentos da BNP Asset Management no Brasil, Gilberto Kfouri, os movimentos exibidos pelo mercado ontem foram de maior conservadorismo dos investidores, devido ao aumento nos riscos geopolíticos. “A grande questão é se o conflito vai escalar ainda mais. Acreditamos que o risco aumentou, sem dúvidas, mas é preciso ver se o Irã confirma mesmo as ameaças que vem fazendo ou se a reação vista hoje [ontem] foi um ‘one-off”, afirma.
Em sua avaliação, contudo, os efeitos nos mercados locais de juros não são claros. No entanto, diante de um Banco Central que vem subindo as taxas, o apetite por títulos prefixados ainda é contido neste momento. “Em juros reais, permanecemos bem mais confortáveis e acreditamos que essa taxa de 6,5% em alguns vértices da curva de NTN-Bs é um juro muito elevado e insustentável”, afirma Kfouri.
Nesse ambiente de aperto monetário local, o Opportunity trabalha com uma visão positiva para o real neste momento, com a perspectiva de aumento no diferencial de juros do Brasil em relação a outras geografias.
“Se olharmos para o fim deste ano, provavelmente o Brasil vai ser um dos emergentes, fora aqueles que estão em situações mais extremas, como Argentina e Turquia, que terá o maior carrego. Isso dá muita atratividade para a moeda. Nosso cenário base é de desaceleração gradual do crescimento global, não aguda, o que gera um ambiente bom para emergentes”, afirma Guilherme Preciado, sócio e membro da equipe de gestão do fundo Opportunity Total.
Ele afirma que as recentes notícias de estímulo na China também conferem algum otimismo ao real. “O mercado tolera algum grau de deslize, imperfeição, mas é essencial transmitir uma mensagem de responsabilidade fiscal. No Brasil, essa preocupação é constante, mas, a priori, teríamos que fazer muita besteira no doméstico para atrapalhar esse ambiente que o global nos proporciona. Temos um viés positivo na moeda, mas operado de forma tática e com bastante cautela”, afirma.
No mercado de juros futuros, as taxas acompanharam a dinâmica apontada pelos rendimentos dos Treasuries e encerraram a sessão em queda firme.
No fim da sessão, o movimento ganhou ainda mais força com a elevação do rating do Brasil pela Moody’s, de “Ba2” para “Ba1”, o que colocou o país apenas um nível abaixo do grau de investimento. A agência de classificação de risco ainda manteve a perspectiva positiva para a avaliação.
Ao fim do pregão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2026 caiu de 12,325% a 12,225%; a do DI de janeiro de 2027 teve queda de 12,38% a 12,255%; e a do DI de janeiro de 2029 cedeu de 12,455% a 12,34%.
Fonte: Valor Econômico

