Uma crise diplomática entre os países europeus sobre o teto de preço estabelecido para as exportações de petróleo da Rússia ameaçou atrapalhar os esforços para limitar os recursos do Kremlin para travar sua agressiva guerra contra a Ucrânia.
De um lado estavam Polônia, Estônia e Lituânia, que pressionavam por um preço de não mais de US$ 30 por barril. Do outro lado estão a Grécia, Creta e Malta, que preferem um preço na faixa de US$ 60-70. A Comissão Europeia supostamente propôs US$ 62 como meio termo. O acordo ficou em US$ 60 desde o dia 5 passado.
Mesmo que os preços do petróleo subam, há incerteza sobre quanto a Rússia poderia receber, devido às pressões sobre os participantes do mercado cinza que lidam com o petróleo russo, que está sendo negociado acima do preço máximo
A maior parte da argumentação é sobre o possível efeito do limite de preço nos preços globais do petróleo. Quando o limite foi anunciado pela primeira vez no verão pelo G-7, o JPMorgan previu que os preços do petróleo iriam disparar – talvez para até US$ 380 por barril. Na verdade, os preços de referência do petróleo cru declinaram constantemente desde então, caindo de cerca de US$ 100 por barril para perto de US$ 80. Atualmente, a Rússia recebe cerca de US$ 60 por barril, um desconto que reflete o estigma de apoiar a máquina de guerra do Kremlin por meio da compra de petróleo.
Esta foi uma importante discussão, mas como Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais aponta, perdeu-se o ponto principal de forçar para baixo o preço recebido pela Rússia por suas exportações de petróleo. O objetivo é causar uma crise financeira que impeça seriamente a capacidade do Kremlin de administrar uma economia em tempo de guerra.
O primeiro passo fundamental nessa direção foi dado no final de fevereiro, imediatamente depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, quando o G-7, União Europeia e outros concordaram em congelar as reservas estrangeiras da Rússia. Esse golpe sem precedentes removeu a proteção da Rússia contra choques econômicos e financeiros, e o resultado foi uma inicial depreciação do rublo.
Mas logo ficou claro que o Kremlin havia estabelecido um enorme subterfúgio: a Rússia poderia continuar a exportar petróleo e gás, encaminhando pagamentos por meio do Gazprombank e de outras instituições financeiras aprovadas. Como resultado, a Rússia continuou a registrar fortes ganhos em divisas, a maioria dos quais são gastos no esforço militar, comprando produtos “sancionados” ocidentais e estabilizando o mercado de câmbio. No final de abril, o rublo já havia se recuperado.
Os mercados de câmbio estão voltados para o futuro. Com o teto do preço do petróleo fixado em US$ 60, os participantes do mercado darão de ombros e a Ucrânia terá uma longa e dolorosa luta. Um preço do petróleo a US$ 30, em contraste, traria intensa pressão para uma maior depreciação do rublo. A capacidade do Banco Central russo de manter uma taxa de câmbio estável seria questionada. As taxas de juros aumentariam. A solvência do sistema bancário estaria comprometida. E a capacidade da Rússia de comprar armas do exterior ficaria muito enfraquecida.
É possível que movimento tão dramático eleve os preços mundiais? A reação dependerá de quanta produção a Rússia está disposta a interromper. Isso é difícil de prever – Putin faz beligerantes ruídos a respeito, como faz com tudo. Mas uma matemática simples diz que o equilíbrio de riscos não favorece o Kremlin.
A Rússia exporta atualmente cerca de oito milhões de barris por dia. O limite de preço será aplicado a cerca de seis milhões de barris de petróleo e derivados transportados diariamente por via marítima (não está sendo considerado limite para o restante, que é transportado por oleoduto). Digamos que a Rússia suspenda a produção de dois milhões de barris, exporte dois milhões no limite e encontre uma maneira de desviar dois milhões para mercados cinzentos a preços mundiais. Hoje, a Rússia recebe cerca de US$ 360 milhões por dia de suas vendas de petróleo (US$ 60 por barril para seis milhões de barris). Sob um limite baixo (US$ 30), a Rússia receberia US$ 60 milhões pelas vendas limitadas, mais o que puder obter do mercado cinza.
Quão altos serão os aumentos dos preços do mercado cinza dependerão em parte da resposta da Opep (e da Arábia Saudita em particular), bem como da recente iniciativa dos EUA de permitir que a Venezuela aumente suas exportações. Atualmente, a ameaça de recessão global paira sobre todos os mercados de commodities. E a política de “covid-zero” da China não mostra sinais de relaxamento de maneira tranquila – não enquanto a maioria dos chineses idosos não for vacinada. Se a redução líquida na oferta mundial for de um milhão de barris, um preço mundial de US$ 100 é possível, acrescentando-se US$ 200 milhões às receitas russas todos os dias.
O preço mundial precisaria subir para US$ 150 por barril para que a Rússia se nivelasse abaixo do limite (vendendo dois milhões de barris por US$ 300 milhões). Mesmo que os preços do petróleo subam, a incerteza sobre quanto dinheiro a Rússia poderia receber será enorme, com a ameaça de futuras sanções secundárias colocando uma pressão real sobre os participantes do mercado cinza que lidam com o petróleo russo que está sendo negociado acima do preço máximo. Todo o petróleo transportado por mar viaja em navios-tanque que são rastreados, por transponder e satélite, a cada centímetro do caminho. Os profissionais desse setor sabem muito bem quem está fazendo o quê.
E se a Rússia se recusar a enviar petróleo? O número em queda mais rápida no mundo seria o PIB russo: sem vendas de petróleo, sem receita tributária, sem divisas, sem economia. (Tradução de Anna Maria Dalle Luche)
Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, é professor da Sloan School of Management do MIT e copresidente da Covid-19 Policy Alliance. Project Syndicate, 2022.
Fonte: Valor Econômico