O governo chinês está voltando a priorizar o crescimento após a rápida deterioração nas condições econômicas ter alarmado as autoridades, levando-as a dar mais atenção ao desenvolvimento e a deixar de lado anos de críticas à abordagem mais favoráveis à expansão econômica à custa da estabilidade social e prudência fiscal.
He Lifeng, nomeado em outubro para integrar o Politburo, principal órgão de tomada de decisões do Partido Comunista, está elaborando um plano que prevê expansão superior a 5% em 2023, segundo fontes a par do assunto.
Em recente reunião interna, He, que também é chefe da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, principal órgão de planejamento econômico do país, defendeu políticas para abrandar as restrições contra a covid-19, incentivar o setor imobiliário e restabelecer a confiança entre os empreendedores, segundo as fontes.
Desde então, algumas dessas medidas sobre a covid-19 e o setor imobiliário já entraram em vigor, o que levou à atual onda de novos casos da doença e à desaceleração na queda dos preços residenciais.
Separadamente, nas últimas semanas, autoridades começaram a reexaminar as políticas para os setores de tecnologia e educação – dois dos alvos mais afetados pelas recentes campanhas fiscalizadoras do governo – e se preparam para concluir as longas investigações contras as empresas do setor on-line. Uma das medidas permitiria que os aplicativos da empresa de serviços de transporte Didi Global voltem a estar disponíveis nas lojas virtuais na China, segundo fontes.
Porta-vozes do gabinete ministerial da China, da Agência de Comunicações do Conselho Estatal (SCIO, na sigla em inglês), não quiseram comentar o assunto.
Traçar uma meta de crescimento superior a 5% para o Produto Interno Bruto (PIB) é algo ambicioso, em vista das inúmeras incertezas geradas pelo abandono da política de covid-zero e abalo na confiança do mercado imobiliário residencial. A meta ousada sinaliza a preocupação da alta liderança de que uma desaceleração muito forte e longa possa corroer um dos pilares centrais da legitimidade do PC.
Alguns economistas já projetam que a segunda maior economia do mundo crescerá 5% ou mais em 2023, dada a baixa base de comparação deste ano e o otimismo gerado pelo fim das medidas contra a covid-19, que têm segurado o país há três anos. O Standard Chartered Bank prevê expansão de 5,8%, enquanto economistas do Citibank projetam que o PIB crescerá 5,3% em 2023. Na terça-feira, o Morgan Stanley elevou sua projeção de crescimento para 5,4%.
Mas nem todos compartilham desse otimismo. Outros economistas reduziram suas projeções para a China, receosos com o risco de uma saída complicada política de covid zero e com o aumento das tensões geopolíticas, assim como com uma continuidade dos impactos negativos decorrentes dos problemas do setor imobiliário.
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, alertou na terça-feira que era “muito provável” uma previsão de crescimento mais baixo para a China neste ano e no próximo, citando a expectativa de aumento nas infecções e dificuldades temporárias trazidas pelo fim súbito da covid-zero.
É quase certo que a China não alcançará sua meta oficial de crescimento do PIB, de cerca de 5,5% em 2022, por uma margem substancial. A maioria dos economistas calcula um crescimento em torno de 3% em 2022. Ontem, a China divulgou dados mostrando desacelerações piores do que as previstas nas vendas varejistas, na produção industrial e nos investimentos em bens de capital, embora a desaceleração dos preços imobiliários, que já dura há um ano, tenha exibido sinais de melhoras, após anúncio de medidas de apoio ao setor em meados de novembro.
Líderes chineses de alto escalão estão se reunindo em Pequim agora para a Conferência Central de Trabalho Econômico anual, que ajuda a definir prioridades econômicas para o ano seguinte.
Os ajustes na política imobiliária e na de combate à covid-19, somados à meta de crescimento superior a 5% em 2023, têm por objetivo enviar um sinal claro aos quadros governamentais de que o desenvolvimento econômico ganhou mais importância em relação aos propósitos ideológicos, como o controle do endividamento das incorporadoras imobiliárias, a redução da desigualdade e a tarefa de tornar economia mais resistente a choques geopolíticos – pelo menos por enquanto.
As autoridades também estão reformulando o relacionamento do Partido Comunista com o setor privado, que foi prejudicado pela campanha do líder Xi Jinping em prol da “prosperidade comum”, um lema político com o amplo objetivo de abordar as preocupações com o aumento da desigualdade.
Para isso, as autoridades passaram a fazer gestos mais amigáveis à comunidade empresarial. Na semana passada, funcionários do governo da rica província costeira de Zhejiang, sede do Alibaba Group e de outros gigantes empresariais, encabeçaram uma delegação de empresários locais em uma viagem de seis dias para conquistar negócios na França e na Alemanha. Funcionários de Jiangsu e Sichuan também organizaram viagens semelhantes ao exterior para assinar acordos comerciais.
Em Guangdong, Anhui e outras grandes províncias, as autoridades iniciaram contatos com empresários para fomentar sua confiança no futuro do país. Na Província de Guizhou, que fica no sudoeste do país e é mais pobre, o governador disse a líderes empresariais locais em dezembro que o governo está disposto a “fazer tudo o possível para ajudar as empresas a resolver problemas práticos”, segundo informes da mídia local.
Na semana passada, autoridades chinesas realizaram sua primeira reunião presencial desde o início da pandemia com líderes de grandes instituições econômicas internacionais, como o Banco Mundial e o FMI, para discutir o desenvolvimento da China e as questões de dívidas globais.
“A economia está se recuperando e mostrando um ímpeto de estabilização”, disse o premiê chinês, Li Keqiang, após se reunir na semana passada com dirigentes das duas instituições. “A China continuará avançando na abertura de alto nível e expandirá constantemente a abertura institucional. Queremos receber mais investidores estrangeiros para investir e fazer negócios na China.”
As iniciativas fazem parte de uma campanha mais ampla da nova liderança do PC para tranquilizar a comunidade empresarial local, e o mundo, de que a gestão da economia da China continua bem encaminhada e que Pequim conta com as ferramentas necessárias para evitar uma desaceleração ainda pior do crescimento, de acordo fontes a par da situação.
A liderança chinesa teme que as desestabilizações causadas pelas políticas contra a pandemia, somadas à escalada das tensões políticas entre Washington e Pequim, possam levar a um maior descolamento entre a China e o mundo. O alerta do fundador do Foxconn, Terry Gou, a Pequim, de que os rígidos controles anticovid ameaçariam sua posição central nas cadeias de suprimentos mundiais, teve um papel crucial no convencimento dos líderes para que acelerassem os planos para abandonar as políticas de covid zero no país.
Fonte: Valor Econômico