Escassez de IPOs e amadurecimento do mercado estimulam negociações entre gestoras
Por Fernanda Guimarães e Mônica Scaramuzzo — De São Paulo
As negociações de ativos entre fundos de private equity (especializados em compra de empresas) estão em alta neste ano, em um cenário fraco para o mercado de capitais, que enfrenta uma seca de ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês). Ainda incipiente no Brasil, esse tipo de operação representa cerca de um terço dos negócios nos Estados Unidos e é frequente na Europa, segundo gestores ouvidos pelo Valor.
Números da Associação Brasileira de Private Equity (Abvcap), entidade que reúne as gestoras que fazem parte desse mercado, comprovam a procura por esse tipo de transação. As chamadas compras secundárias alcançaram 11,1% das transações no segundo trimestre, dado mais recente disponível. Nos primeiros três meses do ano foi de 8,7%, ante uma média histórica de 4,2%.
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Mesmo que ainda em desenvolvimento, operações entre fundos têm sido cada vez mais vistas no mercado local. Há duas semanas, a gestora IG4 vendeu a empresa de hospitais Opy Health para um fundo do BTG Pactual. Em julho, a gestora Starboard comprou 38% da fatia do fundo americano EIG na Gás TransBoliviano (GTB). Outro negócio de peso foi a venda da administradora de consórcios Ademicon, da Treecorp, para a 23S Capital.
Foram oito transações realizadas neste ano até agosto, alcançando todo o volume de 2022, de acordo com dados de mercado compilados pelo Pátria. As operações realizadas do ano passado para cá somam cerca de US$ 3 bilhões, num período mais fraco para fusões e aquisições, quando muitos fundos decidiram postergar compras de empresas e até desinvestimentos.
Tradicionalmente, um fundo de private equity busca saída de um investimento em estágio de maturação do negócio entre cinco e sete anos. No Brasil, as estratégias de saída mais utilizadas são por meio de uma oferta de ações ou venda privada, diz Piero Minardi, diretor da Warburg Pincus, uma das principais gestoras com atuação no Brasil, e vice-presidente da Abvcap.
“Uma empresa que já tem um fundo como investidor em teoria está com a casa arrumada. Outro fundo de private equity pode adquirir o negócio por entender que essa empresa investida ainda tem maior potencial de crescimento porque acredita no projeto”, diz Minardi. “Nem sempre um fundo de private oferece o melhor preço pelo ativo, uma vez que as gestoras são mais conservadoras em fazer a precificação se comparado a um comprador estratégico.”
No entanto, no mercado de private equity o número de operações do tipo cresce. O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America no Brasil, Hans Lin, explica que a venda de ativos entre fundos ocorre cada vez mais à medida que essa indústria se desenvolve em um determinado mercado.
“Com o mercado se desenvolvendo, esse tipo de transação vai ficando mais frequente”, comenta. Isso porque, explica, vão surgindo mais fundos, com diferentes tamanhos de empresas, e, por isso, com “cheques” de valores distintos. Isso torna lógica a mudança de mãos entre fundos após o crescimento das empresas investidas. Mas o maior crescimento, de acordo com Lin, também é em parte explicado pela falta do desinvestimento via IPOS, uma das saída preferidas dos private equities localmente.
Carlos Eduardo Martins, sócio da Vinci, vê o Brasil começando a ficar maduro para esse tipo de operação. Kadu, como é conhecido no setor, ressalta que, no país, o mercado de capitais fraco e a alta taxa de juros no país favorecem as negociações de ativos entre fundos de private equity. “Esse volume só não é maior porque há poucas gestoras com atuação no Brasil.”
Nos últimos anos, o número de casas caiu, afirma o executivo, citando dados da Abvcap. “Lá fora, esse tipo de transação de ‘sponsor to sponsor’ [fundo para fundo] chega a ser quase 30% dos negócios. Aqui no Brasil, os gestores saem via bolsa ou venda para estratégico.”
Levantamento feito pela plataforma Pitchbook mostra que no segundo trimestre deste ano as vendas entre fundos somaram US$ 26,2 bilhões, ou 30% do volume movimentado pela indústria no período. Uma das transações que entrarão para a estatística americana do terceiro trimestre envolve a rede de churrascarias Fogo de Chão, da Rhône Capital para a Bain, em um negócio muito bem-sucedido para o fundo norte-americano.
Em 2016, a própria Vinci vendeu uma fatia da Burger King para a gestora americana Capital Group. A gestora avalia outros negócios nesse sentido para uma de suas investidas. “Essa forma de saída vai ter um maior protagonismo à medida em que o mercado de private equity amadurecer e ganhar ainda mais profundidade”, afirma Martins.
Outra modalidade de venda com esse racional de negócio é quando uma determinada gestora vende um ativo para um outro fundo de seu portfólio, como forma de dar liquidez ao fundo mais antigo e transferir a empresa para um com prazo mais longo. Foi o caso da venda da empresa de (alimentação fora do lar) Delly’s para a gigante CVC. Nessa operação, o Pátria migrou seu investimento do fundo V para o fundo VII, levantado no ano passado.
Ricardo Scavazza, gestor de private equity do Pátria, diz que a gestora aposta no ativo e vê crescimento desse negócio, que ainda não está em estágio maduro para fazer um IPO no curto prazo. A gestora Lumina também fez aporte na Elfa Medicamentos. “É comum ter esse processo para renovar a base de acionistas. É um movimento tão natural como vender (para um estratégico), por exemplo. Aqui no Brasil no volume de transações não é tão grande como nos EUA.”
A especialista em private equity e professora do Insper Andrea Minardi afirma que na indústria de venture capital, que investe em startups, a venda para um outro fundo já se trata do desinvestimento mais rentável. “Há muitos fundos que atuam em mercados diferentes e em estágios diferentes”, comenta. De acordo com ela, as vendas entre fundos costuma ser feitas a valores atrativos, já que o comprador é um novo gestor que enxerga na empresa-alvo novos potenciais de ganhos.
Fonte: Valor Econômico