Por Adriana Cotias e Álvaro Campos — De São Paulo
10/03/2023 05h02 Atualizado há 6 horas
O mercado brasileiro dá sinais de agravamento das condições de crédito. O estresse com Americanas, Light e outros nomes provocou uma revisão no setor, por ocorrer na sequência de um 2022 de emissões recordes de dívida e de escalada das taxas de juros. Os bancos ainda não chamam de crise, mas do lado do mercado de capitais há quem veja sinais mais explícitos de deterioração.
Talvez a diferença de percepção ocorra porque o financiamento via mercado pelas empresas ganhou mais relevância. No ano passado, foram R$ 457 bilhões em emissões de renda fixa, segundo a Anbima. Só em debêntures foram R$ 271 bilhões, depois de um 2021 com R$ 250,5 bilhões em ofertas desses papéis. Agora, sob os holofotes estão as métricas de alavancagem e o quanto o custo financeiro vai pesar nos resultados correntes e futuros das companhias.
O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, admite que o país atravessa um cenário adverso, mas diz que era previsível um recuo no ritmo de crescimento do crédito. Segundo ele, a maioria dos motivos já era conhecida: aperto da política monetária, desaceleração da atividade econômica, a incerteza trazida naturalmente por qualquer mudança de governo, sem contar a elevada base de comparação, já que as concessões cresceram muito nos três anos de pandemia. Outros fatores, no entanto, são novos. Entre eles, os ruídos em torno da condução da política monetária, com críticas ao Banco Central, e dúvidas sobre o arcabouço fiscal. “Muito embora eu confie que o ministro [da Fazenda] Fernando Haddad apresentará uma proposta robusta e crível”, ressalva.
Para Sidney, diante desse cenário, é natural que o mercado de crédito e os bancos se tornem mais seletivos e cuidadosos. “Mas, no horizonte, não enxergo crise que leve à interrupção nos canais de crédito, ou algo que seja especialmente crítico neste momento.”
O presidente da Febraban diz que os bancos têm relatado que houve mesmo uma piora mais acentuada no risco de pessoa física, especialmente na baixa renda, e também no segmento de micro e pequenas empresas. E no caso das médias, percebe-se o aumento dos níveis de endividamento, até como efeito dos juros elevados. “E é claro que, se a instabilidade macro prosseguir, este quadro pode piorar, mas não é o cenário com o qual trabalho, pois antevejo uma melhora das perspectivas do fiscal, o que daria ao BC condições para iniciar um afrouxamento dos juros.”
A perspectiva de pagamento das empresas piorou bastante e rápido, com os juros saindo de 2% para quase 14% a fim de conter um quadro inflacionário desafiador nos últimos 18 meses”, diz Guilherme Ferreira, sócio da Jive Investments, gestora especializada em ativos estressados e situações especiais. “O dinheiro ficou mais caro, a margem foi comprimida pela inflação e há menos crescimento contratado para o futuro. Muitas empresas terão o desafio de honrar seus serviços de dívida ou refinanciar o que está vencendo. Há menos dinheiro à disposição, e o que tem, está mais caro.”
Foi essa dinâmica que levou gestores de crédito a se desfazer de ativos no secundário, a fim de honrar resgates, provocando uma remarcação geral de preços dos títulos de dívida. “De um lado, os papéis nas carteiras de fundos e bancos passaram a ter valor menor porque o risco aumentou e tiveram de vender com desconto para fazer sentido para quem está comprando. De outro, há demanda maior por liquidez, além de um efeito mídia. Todo investidor sabe que o fundo de crédito dele caiu porque tinha alguma exposição, mesmo que em outros papéis [sem ser Americanas ou Light]”, diz Ferreira. “É uma combinação que acaba criando um mini ‘credit crunch’ [crise de crédito] se esse ciclo resgate, venda se prolongar. Em algum momento esse deslocamento pode chegar num nível de estresse relevante.”
Francisco Clemente, diretor da KPMG que atua com reestruturação de empresas e reperfilamento de dívida, aponta que o número de pedidos de recuperação judicial (RJ) tem crescido desde o fim do ano passado, com as companhias vendo seu fluxo de caixa pressionado. Segundo ele, após terem feito muitas renegociações e pausas na pandemia, chegou um momento em que os bancos não quiserem mais rolar algumas dívidas. Sem contar os juros elevados, que impulsionam os encargos financeiros, e a inflação, que eleva os custos das empresas. “Isso cria quase que um cenário perfeito de falta de liquidez para as empresas. Estamos no meio de um problema estrutural e essa puxada nas RJs tem sido maior que em outras crises.”
Alguns setores claramente têm sido mais afetados pelo caso Americanas, como o varejo, um negócio que demanda capital de giro e sofre quando a economia vai mal porque as pessoas param de consumir. “Quando cada um avalia a sua exposição, há essa corrida para ver quem vai ajustar o portfólio primeiro, descontando os papéis”, diz Ferreira, da Jive.
Ele avalia que, nas condições atuais, o mercado ainda não encontrou um ponto de equilíbrio. Ferreira afirma que, ao olhar para os dados de inadimplência, já era possível ver em 2022 um aumento relevante nos atrasos nas carteiras de pessoas físicas e de empresas menores. São os tipos de crédito que costumam ter uma mudança mais rápida de comportamento porque as pessoas perdem o emprego, têm dificuldade de quitar suas contas, com os juros altos e a inflação corroendo renda. “Os números das pessoas jurídicas de maior porte vão ainda refletir a piora, empresas médias e grandes vão começar a ter problemas e há um efeito dominó porque cada grande empresa influencia toda a cadeia de fornecedores.”
Outro pedaço do ciclo tende a aparecer quando os bancos começarem a vender suas carteiras. “É um segmento em que não se vê a marcação a mercado num primeiro momento. No mercado de capitais, a gente percebe esses sinais mais rapidamente nos preços dos ativos, ainda que seja imperfeito”, diz o executivo da Jive.
O “default” de Americanas e as renegociações de outras empresas criaram um sentimento de aversão a risco mais generalizado e nomes mais alavancados têm tido dificuldade para rolar dívidas, diz Diego Coelho, diretor de gestão da Brave Asset, que tem multimercados que compram cotas de fundos de recebíveis (FIDC). Com as obrigações rodando a juros maiores, as companhias têm gerado menos caixa para honrar compromissos.
Como investe em veículos com créditos muito pulverizados e de curto prazo, com vencimentos entre 30 e 60 dias, ele afirma que não identificou problemas a ponto de impactar as cotas, a exemplo do que se viu nos portfólios mais líquidos. “E como os bancos estão mais retraídos, a gente vê oportunidades para acessar empresas maiores, melhor estruturadas e até com mais garantias”, afirma Coelho. “Obviamente que o risco aumentou, tem que ser muito mais diligente, mas ao mesmo tempo tem boas oportunidades quando há escassez de funding.”
Na pandemia, os bancos entraram comprando ativos para a tesouraria ou para as carteiras dos próprios fundos e assim asseguraram liquidez num ponto em que poderia virar um ciclo perigoso para o setor, diz Ferreira, da Jive. Agora ele espera que evoluam as conversas dentro do governo para que tenha algum mecanismo que incentive as instituições a prover deficiências de capital temporárias via mudanças nas regras de reservas bancárias, compulsório ou linhas baratas para que os bancos possam atuar e diminuir a pressão vendedora de títulos corporativos.
Para Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch Ratings, os dados mostram que não há problemas de liquidez e muito menos de capital nos bancos. “Não diria que há nem falta de apetite. O que houve foi uma mudança de preço, prazo, garantia, em alguns nomes específicos. Os bancos vão calibrar essa questão do crédito, ao longo do tempo as linhas vão se recompondo”.
O executivo de um grande banco tem visão semelhante. Para ele, o caso Americanas acabou acelerando uma preocupação que se teria com a inadimplência entre as grandes empresas, mas ainda assim a situação deve se mostrar pontual. “Os grandes bancos estão com excesso de liquidez. Esse aperto nas concessões, já está baixando a poeira. O primeiro semestre deve ser mais difícil, mas no segundo já podemos ver algumas inflexões.”
Fonte: Valor Econômico

