Por Valor, com Nikkei Asia — Taipé
02/01/2023 16h20 Atualizado há 13 horas
A cadeia de suprimentos da área de tecnologia na China entra no novo ano enfrentando um problema duplo. O primeiro é a forte queda na demanda interna e externa; o outro é a falta de disponibilidade de mão de obra provocada pela mudança da política de covid-19 do país que fez explodir o número de casos, na maior alta desde o início da pandemia.
Num forte sinal das perspectivas negativas para o setor de eletrônicos, a Apple avisou a vários fornecedores para que fabriquem menos componentes para seus AirPods, Apple Watchs e MacBooks no primeiro trimestre deste ano. A empresa apontou como motivo o enfraquecimento da demanda, de acordo com a “Nikkei Asia”.
“A Apple nos alertou para a queda nas encomendas em quase todas as linhas de produtos desde o trimestre encerrado em dezembro, em parte porque a demanda não está muito forte”, disse à “Nikkei Asia” um gerente de uma fornecedora da Apple.
“As cadeias de suprimentos na China ainda estão tentando lidar com as últimas mudanças na política, que provocaram falta de mão de obra em razão dos graves surtos de covid-19”.
Covid zero e lockdowns
A mudança aconteceu no início de dezembro, quando a China, para tentar revigorar sua economia em desaceleração, acabou com a política de “covid zero”, que incluía a obrigatoriedade de testes periódicos e lockdowns em massa.
De início, as empresas de tecnologia viram a mudança com bons olhos, após os anos de dificuldades para manter as operações funcionando sob os controles estritos contra a pandemia. Agora, contudo, elas se deparam com o desafio de adaptar-se a um “novo normal”, de aumentos nos contágios e controles mais flexíveis.
“Está muito caótico”, disse um executivo de uma fabricante de componentes eletrônicos que fornece para a Samsung, a Apple e vários fabricantes chineses de telefones celulares. “A nova onda de surtos de covid-19 se espalhou super-rápido e a maioria das empresas descobriu que não faz sentido colocar seus funcionários em quarentena”.
Volta ao presencial
Os governos locais buscam ajudar as empresas a encarar as mudanças. Províncias como Zhejiang, Chongqing e Anhui anunciaram que trabalhadores assintomáticos ou apenas com sintomas leves podem voltar ao trabalho com a “devida proteção”.
Um funcionário público, da província de Jiangsu, antes encarregado de supervisionar as medidas de prevenção contra a covid-19 em fábricas, disse que o governo local não está mais interferindo nas medidas de controle que devem ser adotadas pelas fábricas e que quase todas elas pedem a seus funcionários com sintomas leves para que voltem ao trabalho.
Alguns temem que o abandono repentino da política de tolerância zero à covid-19 tenha impactos indiretos na economia da China.
“O rápido aumento nos contágios nas grandes cidades pode ser apenas o começo de uma onda maciça de contágios da covid-19”, alertou Ting Lu, economista-chefe da corretora Nomura na China. “Prevemos que os principais indicadores de atividade continuem fracos ou até tenham caído ainda mais em dezembro”.
Ano Novo Chinês
Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para a região da Ásia-Pacífico do banco de investimento Natixis, prevê um impacto “notável” na indústria com a reabertura da economia. “No entanto, isso pode não durar muito, se a maioria das grandes cidades conseguir chegar ao pico [dos casos] por volta do fim do Ano Novo Chinês [no fim de janeiro]”, acrescentou. “Em poucas palavras, acredito que a falta de demanda externa será um fator ainda mais importante para o setor industrial da China em 2023”.
Alguns têm uma visão mais otimista, como o funcionário da Honor: é melhor enfrentar o ápice dos contágios agora, quando a demanda está baixa. “Mais da metade de nossa equipe testou positivo e, é claro, enfrentamos interrupções na produção”, disse o gerente de uma fabricante de placas de circuito impresso, na província de Jiangsu, que trabalha para a Apple e a Intel.
“Mas acontece que a demanda estava bastante fraca, então apenas pedimos aos funcionários que tirassem algumas folgas”.
Ding Yi, proprietário da Wuxi Huansheng Precision Alloy Materials, descreveu uma situação parecida. A produção em suas fábricas foi interrompida em meados de dezembro, após a maioria dos trabalhadores ter tido a covid-19, mas foi retomada aos poucos até o fim desse mês, disse Yi.
Por enquanto, as fabricantes de tecnologia se mostram relutantes em reduzir o número de funcionários, apesar das más perspectivas para a demanda, por medo de voltar a enfrentar problemas que tiveram em 2022.
Escassez de mão de obra
O complexo industrial da Foxconn em Zhengzhou, o maior fábrica de iPhones do mundo, sofreu com a escassez de mão de obra após um surto de covid-19 no fim de outubro. Agora, a empresa oferece bonificações de até 14 mil yuans (US$ 2.013) e pede aos funcionários para indicarem mais possíveis recrutas.
Outros fabricantes na cadeia de suprimentos de tecnologia, como a Jabil, em Chengdu, a Pagatron, em Xangai, e a LY iTech, em Shenzhen, também elevaram salários e bônus para os funcionários no início de dezembro, após diversos trabalhadores terem se demitido em meio a surtos de covid-19 ou saído antecipadamente para o Ano Novo Chinês, que começa no dia 20 de janeiro.
Também há otimismo de que o novo ano trará mudanças para melhor. “A maioria de nós tem a esperança de que o aumento nos casos de covid-19 atinja o pico por volta de fevereiro e de que [a situação] possa gradualmente voltar ao normal a partir de março”, disse um gerente da SMIC, principal fabricante de chips da China.
“Passamos por um período muito ruim no início de dezembro, quando quase metade de nossa equipe e de nossos fornecedores repentinamente pegou covid e, talvez, menos de 50% das pessoas ainda estivessem vindo para a fábrica […], mas agora as pessoas gradualmente estão ficando acostumadas aos contágios e as coisas estão gradualmente melhorando”.
Jonah Cheng, diretor de investimentos da firma de private equity J&J Investment, também está otimista. “A cadeia de suprimentos eletrônicos ainda está na fase de digerir o excesso de estoques, e não de começar a produzir peças em massa. A esperança é a de que o pior da crise acabe no primeiro trimestre de 2023”, disse Cheng.
“Na verdade, é um bom sinal que a China esteja se preparando para reabrir suas portas”, acrescentou. “Deve haver muita desestabilização no curto prazo, mas nos próximos trimestres [a reabertura] pode ser boa para estimular a economia e abrir caminhos para uma recuperação”.
Fonte: Valor Econômico
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