O primeiro corte na taxa Selic, projetado para ocorrer na reunião de março do Banco Central, encontra o mercado de crédito privado em um momento de pressão nos balanços das companhias, spreads amassados e gestores de fundos da categoria com seletividade em alta. O efeito do começo do afrouxamento do juro básico, hoje em 15% ao ano, na visão de gestores ouvidos pela Capital Aberto, não altera imediatamente o cenário. O movimento, contudo, pode ser o primeiro sinal de melhora tanto no balanço das companhias quanto no retorno pago pelos papeis, fruto de uma menor pressão compradora dos títulos. A este contexto, se soma a perspectiva de menos emissões de dívida no ano, fruto de um movimento de antecipação, por parte das companhias, que optaram por emitir em 2025 e fugir da volatilidade do período eleitoral.
Neste começo de ano, ao menos nos ativos não incentivados, não houve mudanças relevantes no retorno dos papeis, com os spreads comprimidos, sem alterações relevantes no risco ou no preço. Do ponto de vista macro, dados econômicos reafirmam corte na Selic em março, de meio ponto percentual, na previsão de boa parte do mercado. Gestores de fundos de crédito consideram positivo. Na visão da Sparta Investimentos, trata-se de uma “boa notícia estrutural”, ainda que sem impactos imediatos nos preços. “A redução do custo financeiro tende, ao longo do tempo, a aliviar métricas de alavancagem, melhorar a geração de caixa e, portanto, reduzir o risco de crédito dos emissores”, consta de relatório da gestora. O começo da redução do juro básico da economia pode ser um sinal de início da descompressão dos spreads.
“Os spreads seguem baixos, comprimidos. Juro menor pode reduzir o fluxo de recursos para a renda fixa, com efeito de descompressão dos spreads mais à frente”, comenta Caio Palma, gestor da Sparta. Palma se refere à tendência de redução no fluxo de recursos para a renda fixa, pelo juro menor, levando à uma demanda mais fraca pelos papeis de credito e melhora dos spreads. Um das marcas do crédito privado em 2026, na visão da Sparta, pode ser a maior volatilidade dos spreads, com aberturas e fechamentos rápidos, “muitas vezes associados à dinâmica de fluxo do que a mudanças estruturais de crédito”.
“O gestor que tem uma gestão ativa, como a Sparta, consegue aproveitar essa volatilidade para aumentar e diminuir a duration, ou vendendo alguns ativos que a gente acha que não faz sentido e comprar outros. O mercado secundário é bastante líquido e tem gerado oportunidades”, comenta Palma. “Nosso posicionamento segue mais conservador, com uma carteira mais curta. Isto porque acreditamos que com o nível atual assimétrico (spread) não vale a pena correr um risco de duração maior atualmente.”
Na estimativa da SulAmérica Investimentos, a Selic deve passar por quatro cortes consecutivos de 50 basis-points, levando a taxa a 13% ao ano, movimento que deve ser interrompido pelo processo eleitoral. Na visão da head de Crédito da SulAmérica, Daniela Gamboa, o juro seguirá atrativo para a renda fixa. “A bolsa está entregando bem [retorno], mas o fluxo para a renda variável ainda não voltou. É o investidor estrangeiro que tem se beneficiado do movimento na renda variável”, comenta a head, acrescentando que na renda fixa o começo de ano tem sido de poucas emissões. As debêntures somaram captações de R$ 26,9 bilhões, 5,8% abaixo do patamar de janeiro de 2025.
“Janeiro foi mais fraco de oferta primária de debênture, fevereiro também. Por outro lado, os gestores têm caixa e o dinheiro permanece entrando. Essa liquidez de recursos chegando nos fundos acaba segurando os spreads baixos, no nível atual.”
No curto prazo, Daniela não vê um ‘trigger’ que possa promover uma abertura dos spreads, como eventos de crédito que estimulem esta mudança. “Pela dinâmica técnica, não tendo muita oferta, fluxo bom na renda fixa e gestores com caixa para alocar, a liquidez vence e o spread segue comprimido”, afirma, destacando como positiva a melhora nos balanços ao longo deste ano e do próximo fruto da trajetória de corte na Selic. “Dois pontos a menos na Selic, para uma empresa com R$ 10 bi em dividas, já é significativo e representa R$ 200 milhões de economia no balanço.”
Neste cenário, Daniela destaca que a seletividade deve seguir relevante para os gestores e que há oportunidades tanto no mercado primário quanto no secundário. Na SulAmérica, os fundos menos líquidos (D30 e D45) estão, na média, com 25% dos recursos em caixa – contra 15% em situações normais. A duration da carteira, que era de 3 anos, foi reduzida a 2,5. “Seletividade e movimentos mais táticos para aproveitar oportunidades que surjam de um spread mais interessante.”
A posição dos fundos de crédito da BNP Paribas Asset é semelhante. “Temos um ano eleitoral, começo do corte na Selic e, com o tempo, haverá menor fluxo para a renda fixa, mas, por ora, com uma dispersão grande nos spreads de crédito. Vamos entrar em um começo de reprecificação dos papeis e terá oportunidade”, comenta Henri Rysman, gestor e responsável pela área de Crédito Privado e Especialista em ESG da asset do BNP Paribas. Os fundos da casa também estão com uma duration menor das carteiras e caixa maior, de olho em oportunidades, tanto no mercado primário quanto secundário. “Temos nos movimentado, vendemos algumas posições corporativas e bancárias porque consideramos que não estão nos remunerando suficiente para continuar carregando esse risco. A nossa posição, nesse momento, é ficar curto e mais líquido”, comenta Rysman, acrescentando que os spreads seguem no piso histórico dos últimos sete anos.
A casa tem privilegiado ativos bancários, que são mais líquidos e onde é possível fazer mais operações bilaterais. “Evitamos aquelas emissões públicas, onde todo mundo vai querer entrar e aí acabar amassando ainda mais o nível de crédito”, comenta. “Tem oportunidades surgindo fruto de eventos de crédito, que são demandas meio pontuais, quando surge resgate, porque, no geral, a indústria continua captando, o mercado está bem líquido, então a demanda continua muito forte.”
Fonte: Capital Aberto