Por Victor Rezende — De São Paulo
03/08/2023 05h01 Atualizado há 4 horas
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece inclinado a adotar um ritmo mais acelerado de flexibilização e, assim, a chance de um corte ainda mais intenso na Selic “aumentou bastante já no curto prazo”, aponta, em entrevista ao Valor, o economista-chefe da Vinland Capital, Aurelio Bicalho. Para ele, o BC “tomou mais risco” ao começar o ciclo com um passo de 0,5 ponto percentual. “Não significa que não vai dar certo e que a economia vai se desorganizar, mas é algo mais arriscado.”
Valor: A Vinland esperava um corte menor dos juros. A decisão do Copom surpreendeu?
Aurelio Bicalho: Uma parte do grupo, que não foi a maioria, seguiu o que, no meu entendimento, era a decisão técnica, que seria optar por um corte de 0,25 ponto. A visão que prevaleceu foi a de uma ala do Copom que optou por tomar um pouco mais de risco nesse processo de flexibilização, ao começar com um ritmo maior, especialmente em um ambiente de expectativas de inflação desancoradas. As expectativas estão desancoradas em qualquer métrica que se observe e o início de um ciclo é crítico, já que é o ponto que decide muito o caminho e sinaliza o tamanho do compromisso com a meta de inflação. Tem muito sinal embutido em uma decisão de 0,25 ponto ou de 0,5 ponto. O BC tomou mais risco ao começar com um passo maior.
Valor: Por quê?
Bicalho: Na minha visão, o cenário não mudou significativamente. Não à toa, a ala mais técnica do comitê votou adequadamente por um corte menor. Sem uma alteração grande no cenário, o BC abandona aqueles compromissos e a comunicação de junho em sua maioria e isso faz o processo ser mais desafiador. O BC indica que esse ritmo de 0,5 ponto vai ser adequado daqui para a frente, mas existe uma perda por causa da comunicação, que é muito importante especialmente em início de ciclo. Não significa que não vai dar certo e que a economia vai se desorganizar, mas é algo mais arriscado.
Valor: O Copom indica que o juro continuará contracionista…
Bicalho: Na cabeça do BC, o juro neutro está em 4,5% em termos reais e, hoje, a taxa de juro real [ex-ante] está perto de 6,9%. O BC diz que quer ficar com ela ainda no campo restritivo, ou seja, ela só precisaria estar acima de 4,5% em termos reais. Isso limita um pouco o tamanho dos cortes de juros à frente. Se o BC cortar em passo maior, de 0,75 ponto, vai continuar com a Selic no campo restritivo e isso ainda estará compatível com a sinalização dele. É um sinal que, de certo modo, não muda o diagnóstico. Existe um espaço de manobra dentro dessa indicação do BC de conduzir a política monetária no curto prazo. Eu prefiro um compromisso maior em relação às variáveis importantes para o processo desinflacionário, mas, de certo modo, a maioria do comitê se mostrou satisfeita com as expectativas desancoradas do jeito que estão.
Valor: Há risco de desancoragem adicional das expectativas?
Bicalho: Esse risco aumenta. Não significa que vá acontecer, porque, na margem, podemos ter alguma melhora na inflação, que mitigaria essa possibilidade. Mas temos, agora, as circunstâncias. Se um choque adverso se materializar, aumenta a chance de piora das expectativas. É um sinal de alerta. Se o cenário evoluir como o esperado, parece difícil as expectativas cederem mais, mas o BC vai ter que fazer essa administração em um caminho mais desafiador. Pode dar certo.
Valor: O placar da votação surpreendeu?
Bicalho: Dentro do regime de autonomia do BC é normal ter votos diferentes. É um avanço institucional e é natural vermos divisões de votos em vários países. É reflexo de algo positivo. O que foi interessante notar é que, dentro das características dos membros do Copom, a decisão foi muito apertada, com um grupo mais técnico votando por um início de corte de juros menor, dada a desancoragem das expectativas inflacionárias e da própria comunicação do BC, já que, na reunião de junho, não havia nem mesmo um conforto generalizado entre os diretores para sinalizar um início do ciclo.
Valor: A projeção de inflação do Copom para o IPCA de 2024 continuou em 3,4%…
Bicalho: E a principal variável para o processo decisório do BC é a projeção dele. Não é correto o BC ficar mirando só as expectativas de inflação, até porque elas não são perfeitas, mas a projeção de inflação do BC não evoluiu. Mesmo que o horizonte relevante tenha andado um pouco, quanto mais distante é a projeção, menor a confiança nela. Ainda assim, a maioria do comitê optou por um corte mais intenso, mesmo com a projeção não sugerindo tanto espaço.
Valor: O cenário da Vinland, de Selic a 12% no fim deste ano, deve ser alterado?
Bicalho: Se eu repetisse todo o meu cenário anterior, de cortes de 0,5 ponto até o fim do ano, a Selic terminaria o ano em 11,75%. Vou reavaliar o meu cenário, mas minha percepção é a de que o Copom parece inclinado a fazer um processo mais rápido e, assim, a Selic pode ir abaixo de 11,75%. Aumentou bastante a chance de termos uma Selic menor do que eu esperava neste ano. Por outro lado, tenho menor confiança na minha expectativa de juro a 9,5% em 2024. Pode ser que a Selic caia mais rápido agora, mas esse processo pode deixar a inflação mais resistente.
Valor: Podemos, então, ver uma aceleração do ritmo de queda da Selic para 0,75 ponto, por exemplo?
Bicalho: Essa chance aumentou bastante já no curto prazo.
Fonte: Valor Econômico