Os conselheiros de administração das empresas de capital aberto devem acompanhar, opinar ativamente e validar as diversas etapas de elaboração de relatórios sobre riscos ambientais, sociais e climáticos, que passarão a ser divulgados juntamente com as demonstrações financeiras a partir de 2026, diz o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
O instituto, juntamente com a Chapter Zero Brazil, iniciativa de governança climática do Fórum Econômico Mundial, lançará no dia 29 de agosto um guia para auxiliar os conselheiros no processo de adoção dos padrões internacionais de sustentabilidade IFRS S1 e S2, incorporadas na regulação brasileira pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na Resolução 193, tornando o Brasil pioneiro na exigência.
As empresas deverão produzir relatórios, que serão divulgados junto com as demonstrações financeiras, informando como os riscos ambientais podem impactar o fluxo de caixa, a distribuição de dividendos, o acesso a financiamento ou o custo de capital da empresa no curto, médio ou longo prazo. Até 2025, a adoção será voluntária.
“A ideia é apresentar para os conselheiros a nova realidade com a qual serão confrontados. As empresas serão provocadas a dar a mesma atenção e credibilidade que dão para as informações financeiras às informações não financeiras”, diz Luiz Martha, diretor de conhecimento e impacto do IBGC, e que participou da elaboração do guia, em entrevista ao Valor.
Segundo ele, a adoção das novas normas será uma forma de conseguir comparabilidade de informações entre as empresas e aumentar o grau de responsabilidade das companhias com relação a essas informações, para evitar o chamado “greenwashing”, ou seja, divulgações falsas por empresas sobre sustentabilidade.
Martha reconhece que o grau de subjetividade de informações não financeiras é maior do que o de informações financeiras e isso demanda ainda mais o envolvimento do conselho, para que as premissas sejam realistas e adequadas. As novas normas exigem também asseguração, a verificação das informações por parte de um auditor.
Entre as propostas do guia, estão que os conselheiros se familiarizem com os conceitos das normas IFRS S1 e S2 e criem um comitê multifuncional, para que finanças, sustentabilidade, planejamento estratégico, riscos, compliance, controles internos, tecnologia da informação, e outras relacionadas, sejam engajadas e trabalhem juntas em um único grupo de trabalho.
Além disso, a definição do que é relevante para ser divulgado deve passar pela avaliação e aprovação do conselho, assim como a análise da conectividade entre as informações e as demonstrações financeiras. Por fim, deve ser elaborado um plano de ação, que requer treinamento de todos os níveis corporativos, e mecanismos de monitoramento para acompanhar a implementação das novas regras, com uma comunicação clara.
O guia afirma que as empresas devem dar atenção aos riscos com baixa probabilidade e alto impacto. Entre os riscos que devem ser observados estão mudanças de padrão de consumo, alteração em estoque e em processos de produção. Martha diz que o risco depende de fatores como o tipo do negócio e da região, mas um risco transversal é a mudança do apetite do investidor, que busca negócios mais sustentáveis.
Além de riscos, o guia fala também de oportunidades, como maior eficiência, redução de desperdício, melhoria de logística, melhor transparência e menor custo. Martha ressalta que o conselheiro também tem esse papel de ajudar a empresa a identificar oportunidades, inovar, pensar novos produtos, entrar em novos mercados, pensar em como a organização pode capitalizar e gerar valor a partir das mudanças.
O guia cita ainda que, apesar de um tímido avanço, a governança climática ainda não tem sido priorizada por conselhos. Segundo Martha, estamos em um contexto de negócios complexo, saindo de uma pandemia, com empresas tentando se recuperar em meio a economias instáveis e à inovação tecnológica, como inteligência artificial, que tomam a prioridade de agenda de conselhos.
Por fim, o guia diz que as normas IFRS S1 e S2, muito provavelmente são as primeiras de uma série futura que poderá abranger questões relacionadas à biodiversidade ou sociais e de direitos humanos. A ampliação dos temas, porém, devem vir apenas após o processo de amadurecimentos das normas que ainda estão sendo implementadas, diz Martha.
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Fonte: Valor Econômico