Por Lu Wang — Bloomberg
25/03/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
A discussão sobre a política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) voltou a ganhar força em Wall Street – e também sobre como Jerome Powell deveria lidar com a disparada dos preços dos ativos. No entanto, para os investidores não há discussão sobre o que fazer no momento, à medida que eles investem dinheiro em todos os mercados.
Mais dinheiro fluiu para os fundos negociados em bolsas de valores (ETFs) que acompanham os bônus corporativos em cinco meses, do que em qualquer momento desde que o Fed sustentou o mercado durante a pandemia de covid-19 – US$ 46 bilhões ao todo. No total, os ETFs que acompanham ações, renda fixa e commodities atraíram US$ 374 bilhões no período, o maior valor em dois anos.
No período que antecede três possíveis cortes nas taxas de juros este ano, o rali recente das ações não tem um precedente real. O índice Standard & Poor’s 500 (S&P 500) subiu 27% desde outubro – caminhando para o maior avanço desde pelo menos 1970, antes de um provável ciclo de flexibilização monetária, segundo dados compilados pela Ned Davis Research e a Bloomberg.
Na semana passada, as ações tiveram a melhor performance do ano, com a reunião do Fed e a entrevista que a acompanhou jogando lenha na fogueira que arde nos mercados desde outubro.
Os operadores sentiram uma mudança de tom: um maior conforto das autoridades monetárias com um caminho mais lento em direção à meta de inflação de 2%, uma vez que Powell já disse várias vezes que o caminho será “acidentado”. Questionado sobre as condições financeiras, o presidente do Fed disse que elas são restritivas – uma proposta que muitos consideram duvidosa, na melhor das hipóteses, uma vez que US$ 13 trilhões foram acrescentados aos valores das ações e dos bônus apenas de outubro para cá.
“O que importa nesses momentos é o que é dito, e não o que deveria ser dito”, diz Michael Shaoul, presidente-executivo da Marketfield Asset Management. “Do nosso ponto de vista, o FOMC [o Comitê de Mercado Aberto do Fed] superestimou o progresso obtido contra a inflação e está subestimando o risco de os preços dos ativos subirem descontroladamente.”
E eles subiram numa semana em que a recusa de Powell em mencionar os mercados ou preocupar-se demais com dados dos preços ao consumidor mais aquecidos do que o previsto, poliu sua reputação crescente de principal aliado dos investidores – pouco inclinado a morder a isca para que os mercados caíssem. As estimativas recém-divulgadas pelo Fed mostram que continuam comprometidos com três reduções nos juros em 2024, mesmo com o aumento de previsões para inflação e crescimento. Os operadores atribuíram uma probabilidade de 69% de o 1º corte acontecer em junho.
É certo que tanto os traders como o Fed já superestimaram antes as possibilidades de conciliação, e com as ações de tecnologia do S&P 500 sendo negociadas a quase 30 vezes os lucros estimados, até mesmo uma amplamente antecipada flexibilização do ciclo poderá não ser suficiente para aumentar ainda mais os retornos. Por enquanto, pelo menos, a comemoração dá poucos sinais de perder força.
A volatilidade dos ativos vem diminuindo, especialmente dos Treasuries, onde turbulências anteriores impediram ganhos nas ações, criptomoedas e crédito. O índice ICE BofA MOVE, que monitora as turbulências esperadas nos bônus dos EUA via opções sobre swaps de taxas de juros, agora se encontra perto dos níveis vistos pela última vez antes de o Fed iniciar sua campanha de aperto da política monetária em 2022.
Pela primeira semana neste ano, ações, renda fixa e commodities registram ganhos harmonizados, passando pelos ETFs que acompanham seus retornos. Embora o bitcoin tenha recuado após ultrapassar a marca de US$ 73 mil pela primeira vez, a maior criptomoeda ainda acumula alta de 50% desde janeiro.
A reiteração da perspectiva conciliadora do Fed atraiu críticas de figuras como o ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers, que duvidou da urgência da redução dos juros. No entanto, com Powell sinalizando disposição em permitir o aquecimento da economia, os “comprados” interpretaram isso como um sinal de compra. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos caíram, enquanto as ações atingiram máximas históricas.
Exatamente quatro anos depois de o Fed anunciar planos para adquirir ETFs de bônus corporativos para ajudar a aliviar a tensão no mercado durante a crise da pandemia, o sentimento é indiscutivelmente mais otimista. O rendimento extra que os investidores exigem para manter títulos de dívida corporativa diminuiu para níveis não vistos desde 2021.
Com uma alta de quase 1%, o S&P 500 teve na quarta-feira o oitavo melhor desempenho pós-anúncio em um dia de reunião do Fed durante o mandato de Powell, segundo dados do Bespoke Investment Group. A reação contrastou com janeiro, quando Powell jogou um balde de água fria nas esperanças dos investidores de que a redução dos juros começaria e março. O entusiasmo também contrariou uma tendência desde que ele assumiu o comando em 2018, em que o S&P 500 tendia a cair desde o comunicado à imprensa à tarde, até o fechamento do mercado.
“Como vivemos em um mundo definido pelo ritmo acelerado das mudanças tecnológicas, a maneira como o mercado reage às reuniões do Fed também pode estar começando a mudar”, diz Paul Hickey, cofundador da Bespoke. “Se a alta dos juros estiver fora da equação, os investidores estarão dispostos a ser pacientes com o cronograma dos cortes das taxas.”
Fed superestimou o progresso obtido contra a inflação e está subestimando o risco de os ativos subirem descontroladamente” — Michael Shaoul
De ações de pequena capitalização papéis industriais, todos os grandes índices de ações subiram em uma semana repleta de decisões de banco central e de um evento amplamente observado e promovido pela Nvidia Corp., a “queridinha” da febre da Inteligência Artificial (IA). As ações da fabricante de chips subiram pela 11ª semana consecutiva depois que seu presidente-executivo, Jensen Huang, anunciou um novo processador chamado Blackwell.
A resiliência do mercado pegou Andrew Tyler de surpresa. “Entramos na semana cautelosos de que os acontecimentos envolvendo as ações de tecnologia, mídia e telecomunicações poderiam ser eventos ‘sell-the news’ [ações sobem antes de uma grande notícia, para depois caírem com a divulgação], e com o risco de o Fed adotar uma posição radical após o tom de voz recente mais alto em relação aos dados da inflação”, escreveu Tyler, o chefe de inteligência de mercado do J.P. Morgan Chase para os EUA, em uma nota a clientes.
Ele não é o único a subestimar a paciência de Powell na campanha de combate à inflação. Os investidores sacaram US$ 24 bilhões dos ETFs de ações dos EUA na semana até o dia da reunião do Fed, apenas para retornarem e injetar quase US$ 2 bilhões na sessão seguinte, segundo dados da Bloomberg.
Embora cada ciclo seja diferente, a história mostra que seria melhor os investidores ficarem firmes, caso o cenário dos juros do Fed se concretize. Em todos os 12 ciclos anteriores de cortes nas taxas, exceto um, as ações subiram, com o S&P 500 avançando uma média de 15%. O padrão favorável também vale para os Treasuries e os bônus corporativos, muito embora seus desempenhos monitorados pelos índices da Bloomberg não sejam tão antigos.
Christian Hoffman, um gerente de portfólio da Thornburg Investment Management, diz que ficou desapontado por Powell não ter assumido um compromisso forte com a meta de inflação. O presidente do Fed precisa ser muito cuidadoso em um ano de eleições presidenciais, em que qualquer grande mudança de política atrai a ira dos republicanos ou dos democratas, afirma.
“Para mim, o Fed está sinalizando que poderá abandonar silenciosamente sua meta de inflação de 2%, com uma disposição de tolerar uma inflação mais alta. Em tese, o Fed é uma organização apolítica, sensível ao escrutínio e a críticas. Fazer grandes mudanças na política monetária em uma eleição contenciosa pode apresentar uma ótica preocupante”, disse Hoffman.
Fonte: Valor Econômico


