Por Fabiana Holtz, Rita Azevedo e Nelson Niero — De São Paulo
06/07/2022 05h02 Atualizado há 6 horas
As empresas brasileiras perderam R$ 449 bilhões de valor de mercado na primeira metade de 2022, equivalente a Itaú Unibanco e Bradesco somados. Em 12 meses, a perda foi ainda maior, de R$ 1,558 trilhão, segundo a B3.
A queda refletiu o aumento das incertezas políticas e econômicas no país e, sobretudo, o temor da recessão que se espalhou pelo mundo recentemente.
Nos Estados Unidos, principal mercado de capitais do planeta, foram simplesmente os piores seis primeiros meses desde 1970 do índice S&P 500, o que agrupa as maiores companhias da Bolsa de Nova York, uma queda de 20,6%. O índice das empresas de menor porte, o Russell 2000, caiu 24%, o pior desempenho desde a sua criação, em 1984. E o índice Nasdaq, das ações de tecnologia, recuou quase 30%, o que nunca havia acontecido desde sua criação, em 1971.
A expectativa de uma inflação mais alta, agora que a disparada dos preços foi reconhecida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), acelerou essa fuga das bolsas. A situação delicada da economia desde o início do ano, com os gargalos de produção por causa da retomada pós-pandemia, um problema acirrado pela guerra na Ucrânia, desembocou agora na antessala de uma recessão global.
O remédio amargo dos juros mais altos para combater o avanço dos preços tem como consequência a busca de “ativos de segurança”, como títulos do governo, o que é péssimo para o mercado de ações.
“Fatores como a PEC ‘kamikaze’ afetam o mercado interno, mas o principal peso no valor dos ativos veio de fora”, disse Pedro Serra, gerente de análise da Ativa Investimentos. “Em um cenário de risco maior, o prêmio exigido para ativos de risco como bolsa aumenta, sobretudo em mercados emergentes como o Brasil.”
Os três primeiros meses do ano foram positivos para o mercado brasileiro, já que o fluxo de capital estrangeiro aumentou por causa da guerra na Ucrânica, lembrou Jennie Li, estrategista de ações da XP.
No segundo trimestre, no entanto, o mercado, que andou por um período na contramão das quedas do exterior, perdeu o impulso das commodities, o principal motor da bolsa – Petrobras e Vale se revezam nas primeiras posições do ranking das companhias com maior valor de mercado. O petróleo recuou em junho, com os receios de menor consumo, e o minério de ferro praticamente zerou os ganhos acumulados neste ano.
A avaliação das empresas reflete esse momento conturbado. Segundo as informações disponíveis no site da B3, o valor de mercado de 523 companhias em 30 de junho deste ano era de R$ 4,096 trilhões (cerca de US$ 782,1 bilhões pela taxa de câmbio daquela data). No fim de 2021, os valores para 398 empresas acompanhadas pela bolsa eram de R$ 4,545 trilhões (ou US$ 814,5 bilhões). Em 30 de junho de 2021, o valor somado de 376 companhias então acompanhadas pela B3 era de R$ 5,654 trilhões (US$ 1,13 trilhão).
No semestre, as empresas que tiveram maior peso nessa queda, segundo levantamento feito pelo Valor Data com uma base de 316 empresas, foram Magazine Luiza, com uma perda de R$ 32,9 bilhões (68%), Rede D’Or, com R$ 31,9 bilhões (35%), e Ambev, com R$ 31,7 bilhões (13%). Nos 12 meses, a Vale, que perdeu R$ 183,4 bilhões (32%), lidera, seguida por Magazine Luiza, com R$ 121,7 bilhões (89%), e Rede D’Or, com R$ 80,5 bilhões (58%).
Na outra ponta, o destaque nos dois períodos foi a Eletrobras, privatizada no mês passado, que ganhou R$ 33,7 bilhões (94%) em seis meses e R$ 49,2 bilhões (50%) em 12 meses. Foi seguida por Banco do Brasil e Itaú Unibanco no semestre e por Telefônica Brasil e Companhia de Distribuição de Gás do Rio de Janeiro (CEG) nos 12 meses.
Das 316 companhias, 70 (ou 22%) aumentaram o valor em seis meses, e apenas 41 (13%) desde junho de 2021.
Para Rafael Cota Maciel, gestor de renda variável da Inter Asset, a expectativa é que, com uma redução na velocidade do aumento dos juros pelos bancos centrais, o mercado comece a ensaiar uma recuperação. Empresas com alavancagens baixas, com balanços fortes e que entregam bons resultados devem ser as primeiras a se beneficiarem com a melhora do cenário, disse.
“Entendemos que o Ibovespa continua em níveis chamativos. Continuamos vendo inúmeras ações brasileiras sendo negociadas em níveis atrativos de preços, com quase todos os setores negociando a múltiplos próximos ou abaixo de suas médias históricas. Isso não indica que uma recuperação nos preços é iminente, e sim que as chances de um retorno atrativo no médio prazo são relevantes”, afirma.
Em um artigo em seu blog na sexta-feira, Aswath Damodaran, professor de finanças e “valuation” da Stern School of Business na Universidade de Nova York, escreveu que nesse ambiente em que a inflação assumiu o centro do palco e os mercados entraram em retração globalmente, até os crentes mais fervorosos no mercado estão se questionando qual pode ser o fundo do poço e quando chegaremos lá.
“A grande questão que todos enfrentamos, ao olharmos para a segunda metade do ano, é se a retração do capital de risco é temporária, como foi em 2020, ou se é mais de longo prazo, como foi depois do estouro da bolha pontocom em 2000 e a crise do mercado em 2008”, escreveu. “Se for o primeiro, há esperança não apenas de uma recuperação, mas de uma forte recuperação nos preços dos ativos de risco, e se for o segundo, os preços vão ficar pressionados por muito mais tempo.”
Fonte: Valor Econômico


