Estrutura obtida sem espermatozoide ou óvulo permite que fase desconhecida do desenvolvimento seja estudada Jitesh Neupane, pesquisador que apresentou o trabalho em encontro de cientistas, diz que ficou “apavorado” ao ver células cardíacas pulsantes em e
- O Estado de S. Paulo.
- 17 Jul 2023
- ROBERTA JANSEN
Oanúncio no mês passado de que cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido conseguiram criar modelos de embrião humano em laboratório – um deles, inclusive, com batimento cardíaco e traços de sangue – abre uma janela extraordinária para as primeiras semanas embrionárias e levanta questões éticas e legais inéditas a respeito da criação da vida.
Produzidas a partir de células-tronco pluripotentes humanas (capazes de se desenvolverem em qualquer tecido do organismo), sem o uso de óvulos, espermatozoides ou mesmo de fertilização, as estruturas sintéticas replicam algumas das células e estruturas que tipicamente aparecem entre a terceira e a quarta semana de gravidez.
Elas foram especialmente planejadas para não se desenvolver além desse estágio, o que significa dizer que elas não têm o potencial de se transformar em um feto humano. Essa característica, argumentam os cientistas responsáveis, faz com que os experimentos não sejam considerados eticamente controversos.
“Eu gostaria de enfatizar que essas estruturas não são embriões de verdade e que nós não estamos tentando criar embriões”, afirmou Jitesh Neupane, do Instituto Gurdon, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, ao apresentar o seu trabalho, em maio, no encontro anual da Sociedade Internacional de Pesquisa com Células-Tronco. “Elas são apenas modelos que podem ser usados para estudarmos aspectos específicos do desenvolvimento humano.”
BATIMENTOS CARDÍACOS. Ainda assim, afirma o pesquisador, poder ver as células cardíacas pulsantes sob o microscópio foi uma experiência impactante.
“Quando eu vi (o batimento cardíaco) pela primeira vez, fiquei apavorado”, contou Neupane, em entrevista ao jornal britânico The Guardian. “Tive de olhar outra vez e mais uma vez. Foi muito impressionante. As pessoas realmente ficam emotivas quando vêm um batimento cardíaco.”
Dias antes, na mesma conferência, a professora Magdalena Zernicka-Goetz, da Universidade de Cambridge e do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês), já havia revelado um modelo de embrião humano sintético de pouco mais de 14 dias.
“Conseguimos criar modelos similares a embriões humanos reprogramando célulastronco embrionárias”, anunciou Magdalena em plenária, segundo a BBC britânica.
“Essas estruturas não são embriões de verdade e nós não estamos tentando criar embriões” Jitesh Neupane
Pesquisador do Instituto Gurdon
“Até hoje não temos como estudar o embrião depois da segunda semana após a fecundação” Salmo Raskin
Geneticista da Sociedade Brasileira de Pediatria
Os trabalhos ainda não foram publicados em revistas científicas, embora os cientistas os tenham apresentado em versões pré-print e durante o seminário internacional.
CAIXA-PRETA. Segundo diretrizes da Sociedade Internacional de Pesquisas com CélulasTronco, aceitas na maioria dos países, incluindo o Brasil, só é possível cultivar embriões humanos em laboratório por até 14 dias, período que marca o início de uma fase chamada de gastrulação, em que há a formação do sistema nervoso central e de outras estruturas importantes.
Depois desse período, os cientistas só conseguem voltar a acompanhar o desenvolvimento embrionário bem mais à frente, por meio de exames de ultrassonografia de grávidas. Por isso, essa fase é chamada pelos cientistas de “caixa-preta”, porque ninguém sabe exatamente o que acontece nela. As estruturas desenvolvidas nos experimentos podem ajudar a entender o impacto de problemas genéticos e as causas biológicas de abortos recorrentes.
“A ideia é que, se você tem um modelo de embrião humano feito a partir de célulastronco, você consegue obter muita informação sobre o que acontece nos estágios iniciais do desenvolvimento embrionário, inclusive o que pode dar errado, sem ter de usar embriões humanos”, afirmou em entrevista ao The Guardian o especialista em biologia de células-tronco e desenvolvimento genético Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick, de Londres, que não está envolvido nas pesquisas.
As estruturas também podem ser usadas para testar o efeito de determinadas drogas em embriões e estudar a relação entre a diabete gestacional e problemas cardíacos que podem ocorrer em bebês. Eventualmente, as estruturas poderiam ser usadas até mesmo na medicina regenerativa, criando tecidos para pacientes que se encontram à espera de uma doação de órgãos.
‘MIL OPORTUNIDADES’. “É um avanço realmente muito importante, porque até hoje não temos como estudar o embrião depois da segunda semana após a fecundação e, a partir de agora, poderemos estudar essa fase, o que abre mil oportunidades de estudos”, afirmou o geneticista Salmo Raskin, diretor-científico do Departamento de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria. “Vale lembrar que um terço dos embriões fecundados não vai adiante por causa de alterações cromossômicas; se pudermos estudar o momento em que essas alterações ocorrem, conseguiremos entender melhor o fenômeno e reduzir a taxa de aborto espontâneo.”
Especialista em reprodução humana do Hospital Sírio-Libanês, Silvana Chadid concorda com o colega. “Nos laboratórios de reprodução humana, cultivamos embriões em laboratório por, no máximo, sete dias, para então ser recolocado dentro do útero”, afirmou a médica. “Então existe realmente esse período sobre o qual pouco se sabe sobre o desenvolvimento dos embriões. Esses modelos podem nos ajudar a entender, por exemplo, os mecanismos de formação da placenta, e explicar os abortos de repetição, além de criar tratamentos para infertilidade.”
Salmo Raskin enxerga também uma importante oportunidade de estudo de questões genéticas relacionadas ao desenvolvimento embrionário.
“Poderemos entender situações que ocorrem no início do desenvolvimento embrionário que atualmente não conseguimos estudar”, afirmou o geneticista. “Porque, depois das duas semanas, só conseguimos voltar a estudar quando a gestação já está por volta da 10.ª semana, via ecografia, e o embrião nem é mais embrião, já é um feto.”
O modelo descrito pelo grupo de Neupane é similar a um embrião de 18 a 21 dias e replica estruturas um pouco mais avançadas, como células cardíacas responsáveis pelo batimento e células sanguíneas, que só aparecem na quarta semana do desenvolvimento do embrião.
CÉLULAS TRONCO E ÚTERO ARTIFICIAL. As estruturas foram cultivadas em laboratório a partir de uma cultura de células tronco embrionárias e, depois, transferidas para uma espécie de garrafa rotatória, que funciona como um útero artificial.
Propositalmente, as estruturas não apresentam as primeiras células responsáveis pela formação do sistema nervoso central nem aquelas necessárias para a formação da placenta e do saco gestacional, que são cruciais ao desenvolvimento embrionário para além dessa fase.
“No fim das contas, o modelo não tem todas as estruturas presentes em um embrião de quatro semanas”, explicou Neupane ao jornal britânico. “Por isso, seria complicado compará-lo diretamente a embriões in vivo.”
Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick, de Londres, disse ao The Guardian que os embriões sintéticos não poderiam jamais formar uma criança.
“O coração é apenas uma bomba. Eu sei que a gente pensa que ele bate em resposta a nossas emoções. Mas é no cérebro que nossas emoções se formam, não no coração.”
De acordo com as diretrizes internacionais, o modelo de embrião humano estaria na mesma categoria dos minicérebros e de tecidos cardíacos desenvolvidos em laboratório especialmente para pesquisa.
Não há nenhuma perspectiva a curto ou médio prazo de que embriões sintéticos possam ser usados clinicamente. Seria ilegal implantá-los no útero de uma mulher, por exemplo, e ainda não está totalmente claro se esse tipo de estrutura continuaria se desenvolvendo para além do estágio embrionário.
EXPERIÊNCIA CHINESA. Em um trabalho anterior, assinado por cientistas chineses, no entanto, embriões sintéticos de macacos foram implantados no útero de uma fêmea da espécie e levaram a uma gestação, ainda que curta.
“A gravidez foi logo abortada espontaneamente, não foi em frente”, afirmou o geneticista Salmo Raskin. “Mas ocorreu uma gestação; ou seja, em algum momento o organismo da macaca interpretou que o modelo não era exatamente um modelo… Precisamos ter cuidados éticos e morais, sem restringir a pesquisa, claro.”l
Fonte: O Estado de S. Paulo.