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Hussein Kalout: Trump tem agenda que antagoniza com prioridades de Lula — Foto: Jorge William/Agência O Globo
O comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos deve sofrer impacto com a provável volta de Donald Trump ao poder, que se desenhava na madrugada desta quarta-feira, embora exista expectativa de especialistas de que não haverá medidas específicas contra o país pelo governo americano a partir do ano que vem. Um dos principais receios com a eleição do ex-presidente é o aumento geral no imposto das importações. Parte da campanha do republicano, a elevação de tarifa pode reduzir o volume de comércio global ou provocar desvalorização cambial. Há quem receie que isso provoque “espiral de tarifas e retaliações”, embora ainda não se saiba o que foi “barulho” de campanha e o que seria a administração de fato de Trump.
Na visão de especialistas, a relação China e EUA continuará marcada pela intensa disputa geopolítica e o Brasil se manterá tentando se equilibrar. Ao mesmo tempo em que medidas de proteção comercial podem prejudicar exportações intrafirma que existem em razão do estoque de investimentos americanos no Brasil, o maior entre os estrangeiros, a disputa sino-americana pode continuar beneficiando a exportação agropecuária brasileira, ainda que o aumento do protecionismo não seja considerado o melhor cenário para o comércio internacional.
“Teoricamente, do ponto de vista político, seria melhor para o governo Lula a vitória de Kamala, já que o próprio presidente fez declarações apoiando a candidata”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), em referência à democrata Kamala Harris. Do ponto de vista das relações comerciais, a preocupação, aponta, é a promessa de campanha de Trump de elevar a tarifa de importações em ao menos 10% de forma geral, linear, e em 60% sobre produtos chineses. “Essa medida conteria o crescimento mundial, com impacto no consumo das commodities e queda do comércio. Haveria um processo de adaptação com redução de comércio para todos. Mas é preciso lembrar que o mundo está em transição e uma série de fatores serão ajustados.”
Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o aumento de tarifas linear prometido por Trump pode afetar o Brasil via câmbio. “Essa tarifação competitiva pode ter como reação as desvalorizações das moedas mundo afora.”
De certa forma, diz Vale, isso já está acontecendo. “Já há uma depreciação de câmbio nos últimos dias devido ao receio do governo Trump. Neste momento a depreciação é mais pela percepção de risco do que significa um governo Trump do ponto de vista geral de gestão de política econômica, especialmente na política fiscal americana.” Com a vitória de Trump, essa preocupação com a taxa de câmbio pode permanecer nos próximos anos, segundo Vale, “porque ele tem sinalizado políticas bem complicadas do ponto de vista econômico”.
“Trump faz mais barulho. Ele terá políticas que vão ser percebidas como mais agressivas na largada, como taxação geral, taxação específica contra a China, mas, no fim do dia, é muito mais barulho do que, objetivamente, uma coisa que trabalhe em uma frequência muito superior”, diz.
Na questão da taxação geral prometida por Trump, diz o economista, se a medida é homogênea para todo mundo, o efeito que ela tem no comércio global é tornar as importações americanas mais caras. “O perigo dessa história toda é entrar numa espiral de taxações e retaliações, que é um risco não desprezível, mas é preciso separar o que é o barulho do Trump do que será de fato a sua administração”, diz Ribeiro.
Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, lembra que há setores brasileiros ainda afetados pelas medidas baixadas por Trump em seu primeiro mandato, casos dos setores de aço, alumínio e cobre. Para Barral, um aumento generalizado da tarifa de importação, como promete Trump, pode afetar produtos manufaturados exportados pelo Brasil.
“Obviamente o aumento do protecionismo não é bom para ninguém. No final, todos vão sair perdendo, mas os efeitos são heterogêneos entre as diversas cadeias. A grande questão do Trump é que ele é mais imprevisível.”
Para o cientista político Hussein Kalout, a eleição de Trump tende a ter um impacto mais negativo para o governo brasileiro. O republicano tem uma agenda que antagoniza com as prioridades do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua volta à Casa Branca pode colocar fim às visões convergentes existentes hoje entre a administração federal do Brasil e a dos EUA, segundo o ex-secretário de Assuntos Estratégicos no governo Michel Temer, pesquisador em Harvard e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
“Trump já demonstrou preferência por uma agenda de política internacional que é antagônica à visão do atual governo do Brasil. É uma agenda anticlimática, anti-multilateralista e anti-reforma das organizações internacionais, em particular da OMC [Organização Mundial do Comercial]”, afirma.
A eleição de Trump para a Presidência dos EUA pode acelerar a inflação e interromper a incipiente trajetória de queda dos juros americanos, o que afetaria a destinação de capital estrangeiro para mercados emergentes, como o Brasil. É o que avalia o ex-embaixador do Brasil na China e conselheiro do Cebri Marcos Caramuru. Para o diplomata, se Trump impuser as tarifas de importação que está prometendo, “causará um rebuliço na economia internacional, possivelmente levando empresas exportadoras a investir nos EUA. O impacto de suas políticas deve ser maior do que o das políticas de Biden”.
Fonte: Valor Econômico