A resposta clássica a um choque de oferta é ignorar os efeitos primários e combater os secundários na condução da política monetária, mas no Brasil, com o mercado de trabalho resistente, as chances de se criar um impacto mais generalizado da alta dos preços do petróleo na economia é maior, segundo Rodrigo Azevedo, ex-diretor do Banco Central e sócio-fundador da Ibiuna Investimentos.
Essa é a encruzilhada onde o BC está. Um ponto a favor é que a guerra no Irã coincidiu com um momento em que o juro brasileiro ainda está perto do seu pico pós-pandemia.
Em tese, argumentou durante evento do Bradesco BBI, não importa se a inflação cheia subir muito, se o núcleo, que expurga variações de alimentos e energia, não tiver o mesmo comportamento, já que a política monetária precisa de tempo, de 12, 18 até 24 meses à frente para trabalhar. “Ela [a política monetária] vai bater na inflação quando o choque tiver passado, daí a ideia de fazer o ‘trade off’ para não correr o risco de apertar demais, daí a atividade cai e o choque era só temporário. É o dilema do BC e é preciso qualificar isso para cada país.”
No Brasil, a economia ainda opera acima do potencial e, em tese, levar o PIB ao ponto neutro não deveria provocar inflação. Ainda assim, afirmou o gestor, não há grande conforto em relação ao hiato do produto. Apesar de alguma desaceleração da economia no segundo semestre de 2025, o mercado de trabalho ainda mostra sua fortaleza.
“Na negociação salarial, ninguém pede o núcleo de inflação mais 1%, pede a inflação em 12 meses mais 1%; no seu aluguel, não está escrito lá que corrige pelo núcleo do IGP-M, sem energia, sem alimentos. O próprio orçamento fiscal do governo é pela inflação do ano”, disse Azevedo. “A gente tem mecanismos formais e informais de atrelar a inflação passada, que são muito fortes no Brasil. Então isso aumenta a chance de que esse choque tenha um impacto mais permanente.”
A boa notícia é que no câmbio não houve o estresse que se esperaria com a guerra, compensando em parte o choque com os preços do petróleo.
“Mas o que faz a diferença de verdade é a expectativa de inflação, porque é ela que vai dizer se a sociedade está achando que grande parte desse choque é permanente ou não. E se ele for mais permanente, o Banco Central vai ter que reagir.”
Mais do que a inflação futura, Azevedo disse estar preocupado com os índices de preços de curto prazo, relativos a 2026, com o IPCA já revisado para “4% alto, acima do topo da meta”.
“É inevitável que isso gere um contágio nas expectativas para 2027. E é por isso que o Banco Central, neste momento, tem que reagir e ser mais conservador. O mercado sabe disso e já reprecificou que em vez de [a Selic] cair 250, 300 [pontos-base], talvez deva cair 100.” Na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de março, a taxa foi reduzida em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.
O importante vai ser monitorar o andar das expectativas, reforçou Azevedo. “Dado que o mercado de trabalho e o hiato do produto reagem com baixa frequência, não vai ter uma grande alteração no curto prazo, mas o câmbio e a expectativa de inflação podem se alterar muito. Então, eu acho que a métrica do Banco Central é: eu posso continuar cortando até onde? A que velocidade? Será que eu tenho que parar de cortar?”
Fonte: Valor Econômico
