Caso o extrato do seu fundo multimercado tenha fechado março no negativo, saiba que você não está sozinho. O Índice de Hedge Funds Anbima (IHFA), principal referência de desempenho desses fundos no país, registrou a segunda maior queda da sua história em um mês. O indicador caiu 3,42% em março, em meio às turbulências causadas pela guerra no Oriente Médio. Já o CDI, o parâmetro tradicional desses investimentos que caminha próximo da Selic, avançou 1,21% no mesmo período.
Esses fundos conseguem comprar ações, commodities, juros e moedas no Brasil e no mundo e são mais arriscados do que os investimentos de renda fixa, como março mostrou. A série histórica do IHFA iniciou em outubro de 2007. Desde então, o índice tombou mais apenas em março de 2020, quando a pandemia de covid-19 começou.
Muitos gestores perderam tanto dinheiro porque compraram papéis de renda fixa que acompanham a inflação e papéis prefixados. Eles esperavam que os juros no país recuariam mais do que os investidores previam, ou seja, estavam otimistas com o ciclo de cortes da Selic. Contudo, o mercado passou a prever um ciclo de cortes de juros menor com o aumento da percepção de risco em meio à guerra, e essa aposta deu errado.
Agora, com a escalada da guerra no Oriente Médio e o salto do preço do petróleo, que impacta a inflação, investidores passaram a apostar em um ciclo de cortes de juros menor no país. Os juros futuros apontam que a expectativa para os juros no país em janeiro de 2027 aumentou de 12% para 14%. E isso pegou de surpresa muitos gestores, que apostavam em um corte de juros maior do que o mercado previa.
“Os gestores estavam majoritariamente posicionados no kit Brasil [apostando na alta das ações brasileiras, na queda do dólar e no recuo dos juros futuros], atrelado aos ativos de maior risco no país, especialmente os papéis prefixados e atrelados à inflação, que sofreram muito em março com o aumento da cotação do petróleo e do risco para a inflação”, afirma Christopher Galvão, sócio e analista de fundos da Nord Investimentos.
“Como as bolsas do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa sofreram com a maior aversão os investimentos de risco, os fundos com ações de diferentes geografias registraram perdas. Além disso, muitos apostavam na queda do preço do petróleo, com a tese de que haveria um forte aumento da oferta de petróleo, o que não aconteceu”, diz.
Na análise Galvão, é difícil dizer o que acontecerá com o conflito e, consequentemente, com os fundos multimercados daqui em diante, mas ele indica que os investidores mantenham a alocação nessas aplicações, se elas fizerem sentido na carteira.
“A classe continua oferecendo a possibilidade de ter uma diversificação boa em bolsas, commodities, juros e moedas em geografias diferentes”, afirma. “Isso significa que pode alocar em qualquer produto? Não. Avalie a capacidade da casa de diversificar os investimentos, olhe como os gestores desempenharam em diferentes ciclos econômicos, quem é a equipe, há quanto tempo trabalha junto e como é o processo de investimento”, diz.
Alexandre Costa, analista de fundos de investimentos da casa de análises Empiricus, acha que os conflitos no Oriente Médio pegaram todos de surpresa e alguns gestores superestimaram a capacidade dos Estados Unidos de resolver rapidamente a guerra, após o exemplo da Venezuela. Além disso, na análise dele, os gestores subestimaram o poder e a capacidade estratégica do Irã.
“Muitos fundos continuaram alocados em investimentos de maior risco após o aumento da volatilidade dos mercados, o que acabou intensificando as perdas no mês”, afirma. “Apesar disso, os controles de riscos foram respeitados e ninguém operou além dos mandatos. Apenas houve um erro de leitura naquele momento”, diz.
Conforme Costa, a maioria dos gestores diminuiu a alocação em investimentos de risco nesse momento, diante das dúvidas sobre o encerramento parcial ou total do conflito e a normalização da oferta e dos preços de petróleo. “Acho prudente esperar e ver neste momento, especialmente após as quedas recentes”, afirma.
Na avaliação do analista, o investidor já fez a análise do histórico de performance e da qualidade da equipe, estrutura e processo da gestora deve continuar na sua decisão de investir no produto. “Momentos como esse acontecem e estão dentro da probabilidade estatística de queda dos fundos”, diz. “Mas o investidor não deve concentrar exposição desproporcional do portfólio em um único fundo.”
Fonte: Valor Investe