Foi com uma rodada de diversificação de capitais para fora dos Estados Unidos que a bolsa brasileira bateu sucessivos recordes em janeiro e liderava o ranking de aplicações financeiras até o dia 29. O Ibovespa subia 13,7% e flertava com os 185 mil pontos, superando o que muitos analistas esperavam só para o fim do ano. Em dólares, o principal referencial da B3Cotação de B3 acumula alta de mais de 20%.
Não foi um fenômeno exclusivo de Brasil, impulsionado pelo investidor global, mas que teve como destino também bolsas e moedas de outros mercados emergentes, além de metais preciosos como ouro, prata e outras commodities.
O ouro ganhava 14,5%, quase a Selic anual. Na renda fixa, o índice de prefixados da Anbima avançava 1,71%, tirando parte do atraso em relação aos preços das ações e do real. Com quase R$ 22 bilhões que ingressaram de capital externo na B3Cotação de B3, o dólar recuava mais de 5% em relação ao real, cotado abaixo de R$ 5,20 no fechamento de ontem.
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Em meio à controversa política comercial e externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os títulos do Tesouro americano perderam o status dominante de porto seguro dos investidores globais e o Brasil tem se beneficiado dessa mudança de percepção, diz Paula Moreno, sócia e coexecutiva-chefe de investimentos (CIO) da Armor Capital.
“Há um movimento de diversificação não só para outras regiões, mas de ativos, com os bancos centrais compondo reservas em ouro, e até as pessoas físicas carregando o metal no portfólio”, diz. “Se antes os Treasuries eram o ‘safe haven’, hoje a busca é por uma cesta de moedas mais defensivas, por ouro e commodities metálicas; é o que tem ajudado o Brasil neste início de ano.”
Para a executiva, o primeiro trimestre tende a ser marcado pelo ambiente global, com o dólar se enfraquecendo e um vento favorável para emergentes como o Brasil. Quando a disputa eleitoral de fato entrar no calendário, talvez seja necessário recalcular a rota, prossegue Moreno. Em início de ano, o real também se beneficia sazonalmente do aumento de exportações de commodities agrícolas.
Na renda variável, o volume diário de negociações na B3Cotação de B3 praticamente dobrou em janeiro pela força do capital externo, diz Eduardo Nishio, chefe de pesquisa da Genial Investimentos. “Tem sido um fluxo muito pulverizado em vários papéis, as ordens têm vindo muito mais em ‘basket’ [de ações selecionadas]. Nesse dinheiro vindo para emergentes, há um respingo para Brasil. Como o mercado é muito pequeno no [índice] MSCI, estou falando de 0,5%, qualquer mexida lá fora na alocação, impacta aqui.”
Até o dia 27, o investidor estrangeiro tinha trazido R$ 21,7 bilhões líquidos para o mercado secundário de ações no Brasil. Pessoas físicas e investidores institucionais seguiam na ponta negativa do fluxo. Considerando-se o que foi para o índice futuro, a conta do ano sobe para R$ 22,0 bilhões, segundo a área de pesquisa do BTG Pactual.
No EWZ, ETF da BlackRock de ações brasileiras, negociado em dólares, o volume também subiu, com o giro no dia 28 em US$ 62,5 milhões ante US$ 32,2 milhões da média dos últimos 30 dias nos Estados Unidos. O fundo listado tem um patrimônio de mais de US$ 9 bilhões.
Nishio observa que as bolsas nos EUA não estão indo mal, mas há um aumento para ativos em vários segmentos em detrimento dos títulos do Tesouro americano, com ouro e prata também nas máximas históricas. Lá fora há uma rotação de ações de empresas de tecnologia para outros setores, e nos emergentes como o Brasil o movimento acaba sendo mais visível porque a alocação estava muito baixa.
Se antes os Treasuries eram o ‘safe haven’, hoje a busca é por moedas defensivas, ouro e commodities”
Num ano de sucessão presidencial, o único movimento mais previsível é que os juros vão cair, diz Nishio. A nota do Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião de quarta-feira trouxe com todas as letras que em março o colegiado do BC deve iniciar o seu ciclo de cortes da taxa Selic.
“Mas para o bem e para o mal, o Brasil tem a opcionalidade das eleições. Em termos de juros, se tiver uma vitória da oposição, em tese mais pró-mercado, a gente tem as curvas de juros caindo um pouco mais fortemente.” Nesse cenário, ações que se beneficiam de juros mais baixos têm chances de se valorizar, a exemplo dos setores de construção civil e de shopping centers.
Apesar da estirada do Ibovespa, Nishio diz ver potencial para mais. O índice ficou relativamente mais caro, mas segue abaixo da média histórica. “Tem chance sim, mas vai depender do capital estrangeiro. Quanto mais o [presidente dos EUA, Donald] Trump fala lá fora, mais o Brasil se beneficia desse fluxo.”
Na carteira recomendada para 2026, a Genial incluiu ações selecionadas no Brasil, com peso de 20%, e na renda variável internacional (15%) o índice S&P 500, mais recibos de ações (BDR) da Alphabet, dona do Google, e da gestora de recursos Berkhire Hathaway, de Warren Buffett. Fundos de índice (ETF) de ouro e prata também integram o portfólio sugerido (6%). O maior peso (53%) segue na renda fixa, com papéis do Tesouro Selic e do Tesouro IPCA+ longos.
A entrada de capital estrangeiro no Brasil ainda é de caráter especulativo, é aquele recurso que entra e sai rapidamente, sem muito apego, segundo Walter Maciel, principal executivo (CEO) da AZ Quest. “Há um vento internacional favorável. A bolsa está tão rasa, ninguém tem, que qualquer dinheiro que entrar tem um efeito cavalar.”
Apesar de a diversificação global favorecer emergentes, entre eles o Brasil, na SVN Gestão de Recursos, a decisão foi reduzir a exposição em bolsa, por causa da amplitude do movimento, diz o sócio e diretor Leonardo Morales. A preferência agora é por estratégias ligadas a juros reais e nominais, na esteira do início do ciclo de afrouxamento monetário que vem por aí.
A taxa dos títulos atrelados à inflação com vencimento em até cinco anos tem muito espaço para cair pelo bom trabalho de ancoragem das expectativas de inflação, segundo Moreno, da Armor. “Carregar nos níveis de preços atuais faz sentido por mais que a inflação seja mais contida.” No Tesouro Direto, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2029 assegurava nesta quinta-feira, a correção monetária mais juros de 7,62% ao ano.
A equipe de gestão da Armor espera que a Selic caia para 13% neste ano e que em 2027, ao fim do cilo, seja levada para 10,5%. “Na hora que começar a cortar, a ‘B’ [NTN-B ou Tesouro IPCA+] pode ir bem e o juro nominal [prefixado] de quatro anos também.”
Fonte: Valor Econômico