As montadoras chinesas se concentrarão em mercados internacionais fora dos EUA, agora que o governo Biden declarou que o país está fora dos limites dos veículos elétricos (VEs) feitos na China.
As tarifas de 100% sobre os VEs chineses, anunciadas na terça-feira (14) em Washington, representam um golpe mais simbólico do que prático para as montadoras chinesas. Elas quase não têm operações nos EUA e já reconheceram que os obstáculos políticos para entrar no mercado são intransponíveis.
O tratamento protecionista de Washington não mudará as ambições de domínio mundial das fabricantes chinesas de VEs, segundo analistas, mas desencadeará ajustes. As empresas darão ênfase aos mercados emergentes e, onde for possível, à transferência da produção para o país onde os carros serão vendidos, com a ideia de atrair governos mais abertos aos VEs chineses.
Algumas empresas poderiam se dedicar a vender a tecnologia dos VEs, uma abordagem que talvez reduza a reação política contrária e ofereça uma via indireta para ganhar negócios nos EUA.
“As empresas chinesas são muito pragmáticas quanto a suas rotas para o mercado”, disse Denis Depoux, diretor-gerente global da firma de consultoria Roland Berger, que trabalha em Xangai.
As tarifas são um reflexo do temor nos EUA de que as fabricantes chinesas de VEs, muitas vezes beneficiadas por subsídios governamentais, tentem vender seus veículos a baixos preços nos EUA para ganhar participação de mercado.
A Europa, por sua vez, abriu uma investigação em 2023 sobre os subsídios chineses para VEs, que deverá resultar em tarifas nos próximos meses.
Graças às tarifas americanas, as fabricantes de automóveis dos EUA gozarão de proteção contra a concorrência chinesa de baixo custo. O lado negativo: “Os consumidores americanos não terão acesso aos veículos elétricos mais baratos e de maior qualidade do mundo”, disse Cory Combs, diretor-associado da firma de consultoria Trivium China.
Na China, a BYD, principal fabricante de VEs, oferece um modelo compacto com autonomia de cerca de 320 km com uma única carga, por menos de US$ 10 mil. Uma versão de seu sedã Seal, para o segmento de alto padrão, com autonomia de cerca de 550 km, tem preços a partir de cerca de US$ 25 mil na China. Nos EUA, uma versão do sedã Model 3, da Tesla, com autonomia semelhante custa cerca de US$ 43 mil, de acordo com o site da fabricante de automóveis.
Um porta-voz do Ministério do Comércio da China disse que o aumento das tarifas dos EUA é motivado por considerações políticas internas.
Apesar dos ventos contrários geopolíticos, as fabricantes de automóveis chinesas ainda têm grande interesse em se expandir no exterior, aspirando a ser a próxima Tesla ou Toyota Motor. Após décadas correndo atrás de fabricantes de automóveis americanas, europeias, japonesas e sul-coreanas, elas encontraram em seus VEs um produto competitivo mundialmente.
Na China, mais de 100 marcas de VEs disputam uma fatia do mercado, o que empurra os preços e a margem de lucro para baixo. A capacidade produtiva da China supera a demanda interna, o que levou as fabricantes a voltarem os olhos ao exterior, onde acreditam que as margens serão maiores e a concorrência, menos acirrada.
Nos últimos três anos, as exportações de automóveis da China quase quintuplicaram, chegando a cerca de 5 milhões de veículos, em 2023. Embora grande parte disso seja de carros a gasolina enviados à Rússia, muitos são VEs enviados ao Sudeste Asiático, Europa e outros mercados.
Outra tática é abrir fábricas fora da China em mercados receptivos a VEs de marcas chinesas. A BYD está abrindo novas fábricas no Brasil, Hungria, Tailândia e Uzbequistão, e estuda uma no México. A fabricante chinesa Chery Automobile planeja produzir carros na Espanha com um parceiro local, a Ebro-EV Motors.
A medida do governo Biden não menciona nada sobre a hipótese de que alguma fabricante chinesa de VEs abra uma fábrica no México e tente enviar carros para consumidores nos EUA. Na teoria, as tarifas que incidiriam sobre esses carros poderiam ser baixas.
Ainda assim, analistas dizem que Washington provavelmente impediria qualquer VE de marca chinesa de entrar nos salões de venda das concessionárias nos EUA. O anúncio de terça-feira (14) mostrou o tipo de táticas agressivas que os EUA agora consideram legítimas para combater o que a Casa Branca chama de “exportações artificialmente baratas” da China.
Tanto Biden quanto seu provável rival republicano nas eleições em novembro, o ex-presidente Donald Trump, indicaram que qualquer fábrica mexicana de propriedade de fabricantes chinesas de automóveis poderia ser alvo de altas tarifas.
Já as autoridades europeias, embora estudem aplicar tarifas sobre os VEs fabricados na China, veem a questão de maneira diferente dos EUA. Elas pretendem induzir as empresas chinesas a construir fábricas na Europa, em vez de vetar inteiramente os veículos de marcas chinesas, segundo analistas.
Durante a visita do líder chinês Xi Jinping à Europa em maio, o ministro das Finanças francês, Bruno Le Maire, disse que a indústria automotiva chinesa, inclusive a BYD, é bem-vinda para planejar projetos industriais na França.
Em abril, no salão do automóvel de Pequim, algumas fabricantes chinesas de automóveis expressaram interesse de longo prazo em produzir no exterior. Entre elas estavam a marca de veículos elétricos Zeekr, quem tem capital da chinesa Geely Automobile, e a startup de EV Xpeng.
No que se refere a produzir carros nos EUA, os obstáculos são grandes para as empresas chinesas. Mesmo se Washington permitisse a instalação de fábricas no país — o que já seria uma grande incógnita no atual cenário — elas precisariam lidar com questões como o recrutamento de trabalhadores, a pressão para aceitar a sindicalização, as diferenças culturais e possíveis reações contrárias locais.
Em março, Trump disse em comício de campanha, em Ohio, que receberia bem fábricas de carros de empresas chinesas nos EUA, se elas usassem trabalhadores americanos.
Outra possível abordagem para as empresas chinesas no mercado exterior, inclusive os EUA, é a venda de tecnologias relacionadas aos VEs, como os sistemas operacionais ou baterias.
A chinesa CATL está em negociações com a Tesla e outras montadoras para licenciar sua tecnologia de baterias nos EUA, em vez de construir a própria fábrica de baterias no país.
Outro caminho é formar parcerias com montadoras não chinesas. A Leapmotor, uma startup chinesa de VEs, e a Stellantis, controladora da marca Jeep, anunciaram na terça-feira (14) que em setembro começariam a vender na Europa VEs da Leapmotor voltados ao mercado de massa. Em breve, serão anunciados outros países —, mas não os EUA.
Esses VEs seriam exportados da China ou produzidos nas fábricas da Stellantis pelo mundo. Em 2023, a Stellantis anunciou investimento de 1,5 bilhão de euros (US$ 1,6 bilhão) na Leapmotor.
O executivo-chefe da Stellantis, Carlos Tavares, descreveu a estratégia como uma forma de acomodar os diferentes cenários de tarifas.
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Fonte: Valor Econômico
