Após uma comunicação vista por economistas de mercado como “ruidosa e menos orientadora” dos membros do Banco Central desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a autarquia deve embarcar amanhã em um novo ciclo de aperto da Selic. Há dúvidas, porém, sobre quais fatores levariam o colegiado a interromper esse processo de alta de juros, à medida que as expectativas de inflação podem não ceder, especialmente diante de uma política fiscal mais expansionista.
Essa é uma das incertezas que permanecem nas discussões do grupo consultivo macroeconômico da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que fizeram uma apresentação ao Valor ontem. A mediana das projeções de 26 economistas que compõem o grupo é de uma Selic de 11,75% ao fim de 2024 — o que contemplaria uma alta de 0,25 ponto percentual nesta semana e uma aceleração do ritmo de aperto a partir de novembro, até a taxa chegar a 12% em janeiro. Há, no grupo, quem espere a Selic em 12,75%.
Já a mediana das estimativas para a taxa de juros no fim do ano que vem é de 10,75% — que contempla, portanto, um afrouxamento de 1,25 ponto percentual na Selic no próximo ano.
“Muitas perguntas permanecem sobre qual vai ser o gatilho para o BC parar de subir os juros. É possível que as expectativas não caiam tanto e parece que há uma certa rigidez associada às incertezas sobre as contas públicas. Há uma percepção no comitê de que a inflação vai estacionar nos 4%. Pode ser que, mesmo com o BC subindo, as expectativas não recuem tanto”, afirma o economista-chefe do BradescoCotação de Bradesco e coordenador do grupo consultivo macroeconômico da Anbima, Fernando Honorato Barbosa.
Alguns canais de transmissão da política monetária parecem “entupidos” no momento, aponta o economista, ao citar o câmbio, que pode ser prejudicado pela desaceleração da economia chinesa e pela queda nos preços das commodities; e os prêmios de risco relacionados à condução da política fiscal, além das próprias expectativas de inflação. “Não é que o Banco Central não vai parar de subir os juros nunca. Mas quais serão os sinais? Há um desafio neste início do ciclo que são os indícios de que alguns canais estão bloqueados. De onde, então, virá esse alívio?”, indaga o economista do BradescoCotação de Bradesco.
Nas projeções do grupo, inclusive, as expectativas de inflação seguem em níveis bem acima do centro da meta, de 3%. O ponto-médio das projeções dos economistas do grupo para o IPCA no fim deste ano subiu de 4% no fim de julho para 4,33% agora, enquanto a mediana das estimativas para a inflação de 2025 passou de 4% para 3,8%.
Assim, no contexto de incertezas elevadas, será bastante importante acompanhar qual será a mensagem adotada pelo Copom para guiar as expectativas em relação à condução da política monetária, após os recentes ruídos de comunicação desde o último Copom.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/u/t/udPhBdSxqNZI4jVDmpYg/210623marcela009.jpg)
De acordo com a economista-chefe da Principal Claritas, Marcela Rocha, um dos sinais importantes será monitorar se o uso do termo “gradualismo” continuará presente na comunicação do comitê.
Vale lembrar que, em declaração recente, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que o Copom avaliava que, caso existisse um ciclo, ele seria gradual e que “havia uma precificação excessiva pelo mercado na parte curta da curva de juros, incompatível com a comunicação recente do BC”.
“Vai ser importante monitorar se o gradualismo vai continuar presente na comunicação como uma orientação para o ciclo ou se ele se referia apenas ao início do processo”, diz Rocha. “Tivemos nove ciclos de alta desde a adoção do sistema de metas de inflação. E, sempre que o BC tentou ter um orçamento definido, traçar uma trajetória, ele foi surpreendido. Acho perigoso ele se comprometer, buscar limitar, ou se mostrar muito cauteloso com o aperto monetário, dadas as incertezas. É um ciclo muito difícil, as expectativas estão desancoradas e o BC tentar indicar um orçamento limitado pode ser contraproducente”, afirma.
Para ela, é preciso lembrar, também, que os cortes de juros do Federal Reserve (Fed) não irão resolver os problemas da inflação no Brasil. “E o BC não pode tentar se antecipar a isso e se colocar em uma posição passiva”, afirma.
Dentro das discussões no grupo da Anbima, de acordo com Honorato, alguns economistas avaliam que o hiato do produto (medida da ociosidade da economia) está excessivamente pressionado e que o BC errou ao ter cortado os juros com as expectativas de inflação desancoradas. Há membros, inclusive, que esperam um ciclo de aperto de 2 a 2,5 pontos. “Há um outro grupo, em que eu me incluo, que avalia que a política monetária atual é restritiva e que o juro real está bastante alto. Haverá convergência para o centro da meta de inflação, mas ela pode levar um pouco mais de tempo”, defende.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2022/Z/w/jcxsAzT5ytIaCQDDaZng/03esp-100-anbima-a16-img03.jpg)
O chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America, David Beker, aponta que, apesar dos recentes esforços dos dirigentes do BC para não oferecer nenhum tipo de orientação (“guidance”) para a política monetária, é possível que o Copom acabe oferecendo algum tipo de sinalização. “Se você olhar a comunicação deste BC, acho que eles, desnecessariamente, acabam se colocando em certos ‘corners’. Eu esperaria algum tipo de guidance para a sequência do ciclo”, avalia.
Honorato ressalta que há diferentes formas de emitir a mensagem para a sequência do ciclo. “Pode ser diretamente, ao citar que a alta vai ser de mesma magnitude ou maior; ou pode dizer também que prefere um ciclo gradual. Mas o que eu, particularmente, acredito mais é que essa sinalização seja via modelo de inflação, ao mesmo tempo em que deixa a escrita mais aberta. E isso passa, também, por uma atualização da projeção de hiato do produto do Copom, que deve impactar as projeções”, diz.
Na avaliação dos profissionais, a alta de juros se tornou “inevitável”, diante da comunicação recente do BC e do reforço de credibilidade que o movimento geraria, além da perspectiva de poder fazer com que as expectativas de inflação voltem a cair. “Há também o tema do hiato do produto mais fechado, resultado das surpresas com a atividade. Acho que o número do PIB do segundo trimestre foi a ‘pá de cal’ que sacramentou a alta”, diz Honorato.
Beker diz não ver relação direta entre a iminência do ciclo de alta e o argumento de que o atual diretor de política monetária, Gabriel Galípolo, estaria antecipando um aperto no juro para a gestão de Campos Neto, com a intenção de não se indispor com o governo quando assumir o comando do BC, caso seu nome seja aprovado pelo Senado.
“Se o BC avalia que precisa subir os juros, que suba logo. O Galípolo vai fazer o que precisa ser feito e essa é a minha opinião. Eu trabalho com a premissa de que o BC é uma instituição de credibilidade e que vai fazer o que é tecnicamente correto. É muita responsabilidade sentar na cadeira e, caso a pessoa seja leniente com a inflação, a conta chega lá na frente”, afirma Beker.
Fonte: Valor Econômico

