Por Dow Jones — Nova Déli
06/03/2023 15h48 Atualizado há 17 horas
Como anfitrião do G20 na reunião entre ministros das Relações Exteriores do grupo na semana passada, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, desempenhou o papel tradicionalmente neutro do premiê indiano, recusando-se a tomar partido entre a Rússia e os EUA.
Por trás da declarada neutralidade, porém, a Índia começou a olhar para o oeste. Isso tem menos a ver com a Rússia, com quem a Índia tem laços de longa data, e diz mais sobre a China, que tanto a Índia quanto o ocidente veem cada vez mais como o principal adversário.
É por conta de Pequim que foi formado um grupo de segurança entre Índia, Austrália, Japão e os EUA, o chamado Quad.
As barreiras comerciais da Índia estão há muito tempo entre as maiores das economias importantes do mundo. O imposto médio aplicado em 2021 foi de 18,3%, um dos mais altos entre as principais economias, e superior à taxa cobrada em 2014, resultado dos esforços de Modi para incentivar empresas nacionais e estrangeiras a fabricar mais na Índia.
No entanto, mantendo impostos altos, a Índia desde 2021 embarcou em uma série de negociações para reduzir tarifas, cotas e outras barreiras comerciais com parceiros selecionados. No ano passado, acordos de livre comércio com os Emirados Árabes Unidos e com a Austrália entraram em vigor, os primeiros em cerca de uma década.
As negociações de acordos comerciais com o Reino Unido, Canadá e União Europeia (UE) estão avançadas. Nesses acordos, a Índia normalmente busca mais acesso para serviços profissionais locais, enquanto os parceiros buscam mais acesso para produtos agrícolas e manufaturados.
Em outras palavras, a Índia quer mais proteção da China e um comércio mais livre com todos os outros. Isso é muito parecido com os EUA, exceto que a Índia começa com barreiras altas e as reduz para amigos, enquanto os EUA começam com barreiras baixas e as aumentam para a China. É um modelo de livre comércio mais seletivo do que o modelo universal idealizado desde o início dos anos 1990.
Os defensores do livre comércio, muitas vezes desapontados com a Índia no passado, estão cautelosos com a mais recente abertura. “É definitivamente um passo positivo da Índia”, disse Chad Bown, do Peterson Institute for International Economics. “A questão é, até onde eles estão dispostos a ir?”
Os acordos até agora ainda poupam muitos setores considerados sensíveis pela Índia. O acordo com a Austrália concede acesso isento de impostos a 70% das linhas tarifárias indianas após 10 anos. Os acordos de livre comércio normalmente cobrem de 95% a 98% das linhas tarifárias, disse Bown.
Mas, como aconteceu com as reformas internas de Modi, a liberalização externa precisa ser julgada em relação às tradições da Índia, nas quais o não-alinhamento e o protecionismo andam lado a lado. Durante o movimento pela independência do Reino Unido no início de 1900, os indianos boicotavam as importações britânicas em favor de produtos caseiros, ou Swadeshi. Jawaharlal Nehru, o primeiro premiê da Índia, adotou uma política de substituição de importações segundo a qual as importações rotineiramente exigiam licenças.
A liberalização do comércio estagnou em meados dos anos 2000. As negociações globais da Rodada de Doha fracassaram em grande parte devido à recusa dos mercados emergentes, liderados pela Índia, em reduzir as barreiras às importações agrícolas.
O interesse renovado da Índia no comércio reflete o crescente sucesso internacional das empresas indianas e da diáspora indiana. Os executivos-chefes da Microsoft, da Alphabet, controladora do Google, e da International Business Machines nasceram e foram educados na Índia.
A Índia também quer menos dependência da China. Em 2019, o país desistiu das negociações com outras 15 nações da Ásia-Pacífico que levaram à Parceria Econômica Regional Abrangente, ou RCEP, devido a preocupações de que as importações chinesas afetariam os fabricantes indianos em casa.
A Índia está usando a presidência rotativa do G20 para se promover e promover o mercado potencial gigantesco do país, se vendendo como um parceiro confiável que, ao contrário da China, é uma democracia e não obriga empresas estrangeiras a compartilhar tecnologia ou propriedade com empresas locais.
Os líderes ocidentais também estão ansiosos para expandir os laços econômicos com a Índia, apesar da recusa do país em aderir à condenação ocidental contra a Rússia pela invasão da Ucrânia ou de aderir ao teto de US$ 60 nas importações de petróleo russo. Para os EUA, o uso do teto de preço pela Índia como alavanca para reduzir o preço e a receita do petróleo da Rússia é mais importante do que aderir formalmente ao teto.
Os líderes da Índia por muito tempo mantiveram o não-alinhamento porque desconfiavam da hegemonia americana, gratos pelo apoio da Rússia desde a década de 1970 na rivalidade da Índia com o Paquistão e temerosos de jogar a Rússia nos braços da China, disse Harsh Pant, vice-presidente da Observer Research Foundation. “Modi mudou completamente esse discurso. Ele não carrega a bandeira do não-alinhamento”.
Pant disse que a Índia reconhece que a Rússia é “uma potência em declínio e diz que “você não quer afastá-los completamente, mas também percebe que não há nada realmente lá”.
Enquanto isso, as tensões históricas da Índia com a China se intensificaram desde 2020, quando 20 soldados indianos e quatro chineses morreram em um confronto ao longo da disputada fronteira dos países no Himalaia. Os dois lados voltaram a se enfrentar, sem vítimas, em dezembro. Desde o confronto inicial, a Índia proibiu centenas de aplicativos de smartphones chineses, como o TikTok, e restringiu o investimento chinês em empresas indianas.
A guinada econômica da Índia para longe da China e em direção ao ocidente enfrenta obstáculos. A China agora é central para as cadeias de suprimentos asiáticas. Ao aumentar as restrições às importações chinesas e ficar fora do RCEP, a Índia tornou-se menos atraente para as cadeias de valor globais.
O maior prêmio na busca da Índia por um comércio mais livre com o ocidente, os EUA, continua indefinido. Em 2019, o presidente Donald Trump, apesar das relações calorosas com Modi, retirou a Índia do Sistema Generalizado de Preferências, ou SGP, sob o qual muitos produtos de países pobres entravam isentos de tarifas, porque a Índia não garantiria acesso ao seu próprio mercado. A autorização do Congresso americano para a adoção do GSP já expirou. Para o presidente Biden, expandir o acesso ao mercado dos EUA, mesmo para parceiros geopolíticos, é contrário à política comercial do governo, “centrada no trabalhador”.
Fonte: Valor Econômico
