Por Gabriel Roca, Gabriel Caldeira, Arthur Cagliari e Matheus Prado — De São Paulo
27/02/2024 05h03 Atualizado há 5 horas
À espera da divulgação de dados importantes de atividade e inflação durante a semana, investidores locais e globais exibiram apetite por risco limitado na sessão de ontem. Os juros subiram e as bolsas americanas, que renovaram recordes recentemente, recuaram. O real e o Ibovespa exibiram leve apreciação após perdas recentes, mas em ambiente de liquidez reduzida.
A taxa da T-note de dois anos subiu de 4,672% para 4,733% e a da T-note de dez anos avançou de 4,251% para 4,279%, enquanto a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2026 subiu de 9,84% para 9,92% e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 10,02% para 10,12%.
Já o Ibovespa subiu 0,15%, aos 129.609 pontos. O Dow Jones caiu 0,16%, a 39.069,23 pontos; o S&P 500 recuou 0,38%, a 5.069,53 pontos; e o Nasdaq cedeu 0,13%, a 15.976,25 pontos. O dólar cedeu 0,23% ante o real, para R$ 4,9810.
Sem catalisadores claros para a dinâmica observada no pregão, agentes apontam que as incertezas relacionadas aos juros americanos no curto prazo seguem dificultando a montagem de posições mais direcionais nos mercados, fato que tem se traduzido em um posicionamento mais leve do ponto de vista técnico e com volatilidade mais contida dentro dos pregões.
“Acredito que o mercado ainda está tentando encontrar o ponto de equilíbrio depois de movimentos muito fortes para ambos os lados. Nos últimos dois meses de 2023, o mercado esteve muito fortemente inclinado para um cenário construtivo, com taxas de juros mais baixas. Os primeiros 45 dias de 2024, no entanto, têm sido o oposto. Esse pêndulo voltou para o lado um pouco mais cético. Em meio a esse movimento pendular, o mercado ainda tenta tatear onde seria o seu novo ponto de equilíbrio”, afirma o estrategista-chefe da BGC Liquidez, Daniel Cunha.
Para Cunha, o ano tem sido marcado por um mercado mais leve. “E os volumes têm sido pouco expressivos. Vemos players ainda machucados [pelo desempenho da indústria em 2023] e com baixa visibilidade. Há pouca convicção e é possível perceber um cenário de menor propensão ao risco, com postura de maior cautela.”
A semana carregada de indicadores relevantes para os mercados no curto prazo, como os dados de inflação no Brasil e nos EUA, contribui para a postura cautelosa observada ontem, diz. “O IPCA 15 também reserva uma ansiedade elevada porque os dados mais recentes vêm indicando uma piora e apontando para uma reaceleração da inflação de serviços e subjacentes. O dado de hoje pode confirmar essa trajetória recente e culminar em uma postura um pouco mais cautelosa do BC, que poderia abandonar o uso do plural no ‘forward guidance’ na reunião de março”, aponta. No Brasil, haverá ainda a divulgação do PIB do quarto trimestre na sexta-feira (1).
Antes disso, nos EUA, o índice de inflação do PCE da próxima quinta-feira (29) pode ser crucial para as expectativas. A medida é a mais observada pelos dirigentes do Fed dentre os indicadores de inflação disponíveis no país. Após os números mais fortes do índice de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) em janeiro, o consenso é de que o PCE também acelerará a um nível preocupante para o BC.
Ian Shepherdson e Kieran Clancy, da Pantheon Macroeconomics, desafiam essa noção ao afirmarem que prever o PCE com base nos dados do CPI e PPI não é uma ciência exata. Por isso, mantêm a previsão de alta mensal de 0,3%, abaixo do avanço de 0,4% previsto pela maioria do mercado.
“A margem de erro tanto em nosso número quanto no do consenso é significativa. De qualquer forma, porém, ficaríamos surpresos se o aumento que quase todos os analistas esperam para o núcleo do PCE de janeiro marque o início de uma uma reaceleração da tendência [de inflação]”, avaliam.
Na leitura de Hideaki Iha, operador de câmbio da Fair Corretora, apesar de muitas incertezas no exterior, no curto prazo, o câmbio doméstico pode ser beneficiado pelo fluxo comercial por meio das exportações de grãos. “Agora em março o produtor de soja começa a exportar a safra, entrando fluxo via conta comercial”, diz, notando que o patamar dos R$ 5,00 tem sido um suporte importante.
O dólar comercial tem flertado com a barreira há mais de um mês, tendo chegado a fechar em R$ 4,99 por duas vezes nas últimas semanas. No entanto, não toca esse patamar no fechamento desde o fim de outubro.
Fonte: Valor Econômico