CEO diz que projeto segue ciclo de testes, patentes e enfrenta gargalos globais de matéria-prima
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A Cimed pretende entrar no mercado de medicamentos à base de análogos de GLP-1 — popularizados pelas chamadas canetas emagrecedoras — a partir de 2027, em um movimento condicionado ao ciclo de testes clínicos, ao vencimento de patentes e às restrições atuais de oferta de matéria-prima no mercado global. A avaliação é do CEO da companhia, João Adibe, que vê a nova classe terapêutica como uma mudança estrutural no setor de saúde e consumo, mas ressalta que o avanço exige cautela regulatória e operacional.
“A gente não atropela ciclo de teste nem cria expectativa fora daquilo que está sob nosso controle”, afirmou o executivo em entrevista ao Valor. Segundo ele, o projeto está inserido em um pipeline de cerca de 150 registros mantidos pela farmacêutica. Para sustentar esse portfólio, a empresa investe de forma recorrente cerca de R$ 200 milhões por ano em registros e desenvolvimento, valor que inclui produtos que ainda não têm data definida de lançamento.
A estratégia produtiva seguirá o modelo de verticalização que marca a operação da Cimed, mas poderá começar de forma híbrida. De acordo com Adibe, a escassez global de insumos para a fabricação de GLP-1 impõe limites à entrada simultânea de novos fabricantes. “Talvez, num primeiro momento, importar para atender o mercado. É o bê-a-bá”, disse. “Hoje, os fabricantes de matéria-prima não conseguem administrar todos os produtos por causa da demanda mundial.”
O executivo afirmou que a companhia não pretende disputar o mercado exclusivamente pelo preço. “A lógica é ter um produto acessível”. Na avaliação da empresa, a principal vantagem competitiva da Cimed nessa frente não está na escala industrial inicial, mas na sua estrutura de distribuição. Adibe diz alcançar hoje cerca de 98% das farmácias do país, com uma rede própria que atende aproximadamente 100 mil pontos de venda. Com a expansão da linha de produtos de consumo (não medicamentosos), o plano é ampliar essa capilaridade para até 400 mil pontos.
“A gente sabe que o maior ativo no Brasil é distribuir”, afirmou o CEO. “Fabricar, qualquer um fabrica. Distribuir num país com essa complexidade tributária é o diferencial.”
Apesar do discurso otimista em relação ao potencial do mercado, a operação enfrenta gargalos estruturais. Além da limitação global de insumos, a Cimed aponta desafios domésticos, como o custo de alavancagem em um ambiente inflacionário e a dificuldade de contratação de mão de obra em regiões com baixa taxa de desemprego, como o entorno de sua principal unidade fabril em Pouso Alegre (MG). Segundo o executivo, isso tem exigido revisões no pacote de benefícios para atrair e reter funcionários.
O executivo abordou ainda que, embora a popularização das canetas tenha impactos indiretos sobre outros setores — como alimentação, vestuário e produtos de saúde complementar —, a companhia não incorpora receitas potenciais dessa classe terapêutica às projeções financeiras atuais. “Tudo o que não está na nossa mão, a gente não coloca no crescimento”, concluiu.
Com a expectativa de aumento da concorrência após o fim das patentes, o mercado de GLP-1 deve atrair novos entrantes nos próximos anos. No caso da Cimed, a aposta está condicionada à combinação entre acesso a insumos, capacidade logística e execução regulatória, fatores que, segundo a empresa, serão determinantes para a viabilidade do projeto a partir de 2027.
fonte: Valor Econômico