Por Valor
09/07/2023 23h24 Atualizado há 12 horas
A economia da China esteve à beira de uma deflação em junho, o que intensificou a pressão sobre Pequim para lançar um pacote de estímulos mais fortes para dar sustentação à recuperação cambaleante do país no pós-pandemia.
O índice de preços ao consumidor (IPC) ficou estável na comparação anual e teve uma queda de 0,2% em relação ao mês anterior, enquanto os preços na “porta da fábrica” tiveram a maior deflação desde 2016, de 5,4% em termos anuais, afetados pelo enfraquecimento na demanda por bens de consumo e manufaturados.
Os dados são a mais nova evidência do impacto na economia chinesa da estagnação da recuperação pós-reabertura da covid e da alta global dos juros que reduziram os gastos do consumidor.
Economistas temem que o declínio generalizado dos preços afete a já frágil confiança na China, deixando a economia presa em um ciclo vicioso em que a demanda fraca e os preços mais baixos se reforçam mutuamente.
“A China certamente enfrenta uma grande pressão deflacionária”, disse Larry Hu, economista-chefe para a China do Macquarie Group, que alertou sobre uma espiral descendente se as expectativas de deflação se consolidarem.
Analistas preveem que os dados de inflação levarão o Banco do Povo da China (PBoC, o banco central chinês) a voltar a reduzir os juros, mas muitos acreditam que isso ainda precisará ser complementado por políticas governamentais de estímulo fiscal.
“A China ainda está crescendo – a questão é se atingirá sua meta”, disse Heron Lim, economista da Moody’s Analytics. “Em termos de recuperação, isso ainda está ocorrendo, mas a preocupação é que esteja em desaceleração.”
A China almeja um crescimento de 5% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2023, com a economia emergindo dos rigorosos controles impostos contra a covid, mas a recuperação vem se mostrando frágil, com os preços dos imóveis e das exportações em queda.
Após uma breve recuperação liderada pelos gastos com serviços no início deste ano, a recuperação econômica da China estagnou em várias frentes a partir de abril. A taxa de desemprego entre os jovens subiu para um recorde de mais de 20% em maio. A atividade manufatureira do país contraiu pelo terceiro mês consecutivo em junho, enquanto as exportações para os EUA e outras economias ocidentais também enfraqueceram.
Mais recentemente, a recuperação do mercado imobiliário — um pilar crucial da economia — enfraqueceu, apesar da flexibilização da política para estimular a demanda pela compra de imóveis.
Muitos economistas observam que a ausência de inflação na China — um cenário oposto ao que a maioria dos países experimentou com a reabertura de suas economias após as restrições da covid — expõe problemas estruturais na economia após três anos de pandemia, incluindo a deterioração do patrimônio das famílias, que reduziu a demanda por consumo.
A China anunciou nesta segunda-feira (10) que vai estender as políticas para apoiar incorporadoras sem dinheiro e fortalecer o setor imobiliário em dificuldades, além de permitir adiar pagamentos de empréstimos por um ano.
Instituições financeiras serão incentivadas a negociar com imobiliárias a concessão de empréstimos em aberto para garantir a entrega de imóveis em construção, segundo comunicado conjunto do PBoC e da Administração Nacional de Regulamentação Financeira (NFRA). Alguns créditos em aberto, incluindo empréstimos fiduciários com vencimento antes de 2024, receberão uma extensão de um ano para pagamento.
O consumo ainda está em alta, mas há a preocupação de que o governo precisará fazer mais para sustentar a recuperação diante da desaceleração do crescimento econômico mundial, que reduz a demanda por exportações chinesas.
“A leitura ultrabaixa da inflação dá suporte à nossa visão de que o PBoC provavelmente realizará mais duas rodadas de cortes nos juros”, segundo economistas do Nomura, que não descartam outras medidas, como um novo corte na taxa do compulsório bancário.
Mas Lim, da Moody’s, observa que poucos preveem algum pacote de estímulos gigantescos.
Fonte: Valor Econômico