Após cogitar a possibilidade de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) teria de subir novamente os juros para ver cumprida sua meta de inflação anual de 2% no futuro, o mercado respirou aliviado na semana passada diante da comunicação menos conservadora do presidente da autoridade, Jerome Powell, e de indicadores de atividade e do mercado de trabalho menos fortes que o esperado.
Principal divulgação dos últimos dias, o relatório de empregos oficial do país, chamado “payroll”, mostrou uma desaceleração forte das contratações para 175 mil em abril, número que ficou bem abaixo do esperado e da leitura de março, quando os Estados Unidos criaram 315 mil novos postos de trabalho. Além disso, a taxa de desemprego voltou a subir para 3,9% e os ganhos salariais aumentaram um pouco menos do que os investidores projetavam.
“[São] números muito positivos porque mostram desaceleração relativamente suave do mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, pressões de salários mais baixas. É uma divulgação que reforça o cenário de ‘pouso suave’ do Fed”, avalia André Duarte, sócio e economista da gestora Occam.
Além do payroll, Duarte destaca o relatório “Job Openings and Labor Turnover” (Jolts, na sigla em inglês), cuja leitura de março também apontou para uma desaceleração do mercado de trabalho americano. “O Jolts dá a noção de qual é a demanda efetiva por trabalhadores”, aponta.
Fernando Fenolio, sócio e economista-chefe da WHG, concorda que o payroll e o Jolts praticamente tiram da mesa a possibilidade de uma nova alta de juros do Fed e começam a abrir espaço para um corte de taxas pelo banco central americano. Ele acrescenta ao conjunto dados de atividade, em especial o índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) do setor de serviços medido pelo Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês), que voltou ao patamar de contração pela primeira vez desde dezembro de 2022.
“Estamos com suspeita de que começaremos a ver uma desaceleração. O momento mais aquecido da inflação e atividade talvez tenha ficado pra trás”, diz Fenolio, lembrando dos indicadores surpreendentes dos Estados Unidos ao longo do primeiro trimestre. Duarte, contudo, é mais cético quanto a um cenário de desaceleração mais claro, e nota que PMIs como o do ISM não têm captado com tanta precisão as tendências da economia real como no passado.
O mercado ficou mais otimista quanto ao futuro da política monetária do Fed após os eventos da semana passada. Conforme um levantamento do CME Group, a precificação majoritária para o primeiro corte de juros pelo banco central americano passou de dezembro para setembro, e o número total de reduções neste ano foi de apenas um para dois cortes de 0,25 ponto percentual cada, o que levaria a taxa dos Fed funds ao intervalo de 4,75% a 5%.
Tanto para Duarte quanto para Fenolio, a precificação do mercado parece adequada. “Acho que o que dá para ter mais conforto é com o fato de que a barra para subir [os juros] é muito alta. É muito difícil esse cenário se materializar, mas, pelo menos na cabeça do Fed e principalmente de Powell, essa probabilidade parece muito baixa”, diz o economista da Occam. Já o economista-chefe da WHG considera que as expectativas podem mudar com o próximo dado de inflação dos Estados Unidos, mas entende que as perspectivas atuais são “bem razoáveis”.
O UBS concorda com a precificação majoritária do mercado e espera dois cortes de juros neste ano, com início na reunião de setembro. “Esse tipo de relatório parece consistente com isso”, diz o time de economistas para as Américas do banco suíço, sobre os dados do payroll. A opinião é compartilhada pelo Goldman Sachs, que projeta o primeiro corte um pouco mais cedo, já na reunião de julho.
Mas há no mercado quem ainda antevê um Fed mais conservador até o fim do ano. Mesmo com os dados divulgados na semana passada, o Bank of America (BofA) manteve sua projeção de apenas um corte em 2024, e somente na reunião de dezembro do Fomc, o comitê do Fed. “O payroll fornece evidências de que o efeito de ‘recuperação’ nas contratações pode estar diminuindo. Em nossa opinião, esse não é um sinal totalmente negativo para a economia”, diz a equipe de economistas e estrategistas.
fonte: valor econômico


