Por Lucianne Carneiro — Do Rio
31/08/2022 05h01 Atualizado há 4 horas
Um mês depois do início da coleta dos dados do Censo Demográfico 2022, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fez ontem um primeiro balanço em que admitiu problemas “graves e pontuais” em relação ao número de recenseadores, reconheceu atrasos nos pagamentos – embora negue que o problema seja generalizado – e apontou índice de recusas acima do esperado. Além disso, revelou uma série de medidas para tentar minimizar a insatisfação dos recenseadores, que planejam uma greve geral para amanhã, 1º de setembro.
Os dados do IBGE mostram ainda que o ritmo em um mês de coleta de dados agora está mais lento que na edição anterior da pesquisa. Até a manhã de ontem, já tinham sido recenseadas quase 60 milhões de pessoas no Brasil, o que corresponde a 27,7% da atual estimativa da população do próprio IBGE, de 215 milhões de pessoas. No Censo de 2010, no primeiro mês de operação, o IBGE divulgou que já havia contado cerca de 92,7 milhões de pessoas, o que equivalia a cerca de 48% da população estimada naquele momento.
Do total de recenseadores previstos pelo IBGE para o Censo, menos de 80% estão atualmente em campo, na média brasileira, o que significa um total de 144.634 de recenseadores nas ruas do país. Alguns Estados, no entanto, têm taxas menores, como são os casos de São Paulo (60,6%), Mato Grosso (51,2%), Mato Grosso do Sul (65,4%), Santa Catarina (64,3%) e Paraná (69,3%).
“Estamos com 30 dias de coleta em campo. O primeiro step [etapa] da recusa é bem alto, depois diminui, mas acaba tornando o trabalho do recenseador mais difícil e não tão célere. Alguns problemas estão acontecendo. É uma coisa que já sabíamos. Temos bem claro o que é o Censo no país e a dificuldade de colocar esse exército de recenseadores na rua”, disse o diretor de pesquisas, Cimar Azeredo.
Pelas redes sociais, recenseadores estão convocando uma greve geral para amanhã por causa de atrasos nos pagamentos, valores de remuneração menores que os estimados inicialmente e pouco apoio para gastos com locomoção.
Os dados divulgados ontem mostram que 140 das 805 folhas de pagamento para recenseadores ainda estão em aberto – 17,4% do total. As folhas de pagamento se referem a gastos tanto com treinamento quanto com locomoção e produção, que é a remuneração dos questionários já realizados juntos à população.
Apesar disso, o coordenador de recursos humanos do IBGE, Bruno Malheiros, afirmou que não há problemas generalizados de pagamento. “Não temos problemas generalizado de pagamento, nem de auxílios nem de produção, e não contamos com essa paralisação”, disse ele, ao se referir à greve geral prevista para amanhã, acrescentando que não há “informação oficial” sobre o movimento.
Sobre o número de recenseadores, o responsável pelo projeto técnico do Censo 2022, Luciano Duarte, minimizou a influência dos atrasos de pagamento e atribuiu as dificuldades de contratação de trabalhadores temporários para as vagas à situação do mercado de trabalho de cada região.
“Contratamos menos recenseadores do que precisávamos. Acreditamos que seja uma situação do mercado de trabalho. […] A situação [do Censo está] mais adiantada em Estados com maior taxa de desocupação”, disse ele, citando que Estados do Nordeste mostram mais atratividade para os cargos de recenseadores, situação diferente de outras regiões. Ele chegou a afirmar que há municípios no país com situação de “pleno emprego”, o que traz mais dificuldade para a atração de trabalhadores.
Malheiros informou que a intenção do IBGE é elevar a proporção de recenseadores em campo em relação ao total previsto inicialmente para pelo menos 85%, na média brasileira e em todos os Estados. Esse percentual, segundo Malheiros, já seria confortável para garantir a conclusão da pesquisa e não é necessário chegar aos 100%, por causa dos recenseadores com mais produtividade, que acabam compensando os demais.
“Temos problemas graves e pontuais em algumas unidades, como São Paulo, Mato Grosso e Estados do Sul”, disse o coordenador de recursos humanos do IBGE, confirmando que o instituto vai abrir novos processos seletivos complementares para contratação de trabalhadores temporários. Atualmente há um edital aberto com 6,6 mil vagas.
Entre as iniciativas reveladas no balanço de ontem, estão a liberação do pagamento parcial dos recenseadores antes da supervisão dos questionários – etapa que pode levar até dez dias -, aumento de recursos para as taxas de locomoção e reclassificação das faixas de remuneração dos questionários realizados. Além disso, há uma revisão em curso do simulador de rendimento dos recenseadores, para refletir melhor o valor do pagamento final.
Por enquanto, o IBGE mantém o prazo de coleta de dados até o fim de outubro, como previsto inicialmente, e diz estar trabalhando para que isso seja cumprido.
Fonte: Valor Econômico
