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Um cenário externo bastante adverso tem grandes chances de ocorrer em 2025, somando riscos geopolíticos, desaceleração de parceiros comerciais importantes como a China e incertezas sobre o rumo da economia dos Estados Unidos, que vê as chances de recessão em alta. O Brasil, nesse cenário, precisará fazer a lição de casa na questão fiscal se não quiser ser pego em situação ainda mais vulnerável, avaliam professores da Fundação Dom Cabral (FDC) em apresentação ao Valor.
“Existem muitos indicadores que apontam 60% de chance de ter uma recessão nos Estados Unidos. Tanto que o Federal Reserve [Fed, o banco central americano] já começou a baixar os juros mesmo sem inflação controlada e o que vemos depois disso é que talvez ela não esteja tão controlada como gostariam”, diz o professor Paulo Vicente, que cobre as áreas de estratégia e gestão pública na FDC.
“Os juros americanos são, ao mesmo tempo, altos demais para não trazer algum tipo de problema de quebradeira e baixos demais para baixar a inflação. O Fed está numa sinuca de bico, mas pode ser obrigado a optar por baixar mais os juros para segurar essa recessão”, avalia.
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Esse cenário, na visão do especialista, é complicado por dois fatores, em sua opinião: o primeiro é a chance de tombo dos mercados financeiros americanos após uma sequência de anos positivos, precipitada por uma bolha que tem origem na superestimação de receitas vindas de inteligência artificial. O segundo é a eleição americana, que pode gerar riscos inflacionistas independentemente do vencedor.
“Se Donald Trump for eleito novamente, ele sinaliza um protecionismo maior, o que significa mais inflação. Kamala Harris, por sua vez, apoia um gasto maior, a continuação do Build Back Better do presidente Joe Biden, que também é inflação. Então é como se você pudesse escolher qual tipo de inflação quer”, diz Paulo Vicente. Além disso, Trump vem com promessas de deixar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e também tem suas questões com a China, acrescenta o professor da FDC.
“A gente tem boas suspeitas sobre o que Trump vai fazer. Mas eu vejo que está todo mundo tão preocupado com ele que ninguém parou para entender direito o que a vice-presidente Harris tem como plataforma. Tanto na economia quanto no cenário externo”, acrescenta o consultor político Creomar de Souza, que é professor convidado na FDC. “A Lituânia [membro da Otan], por exemplo está implodindo pontes e colocando barreiras na fronteira com a Rússia. O que a Kamala pensa a respeito? A China pode aproveitar esse momento conturbado para invadir Taiwan. Qual a posição de Kamala?”
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A China é outro ponto de atenção desse quadro, diz Vicente. “O [presidente] Xi Jinping anunciou recentemente um pacote para estimular a economia, mas já deixou avisado que o ano que vem vai ser complicado. Existem ainda outros riscos geopolíticos – é o que não falta neste momento. Um conflito no Oriente Médio levando o petróleo a US$ 200 o barril, uma crise entre China e Filipinas, China e Taiwan levando a um bloqueio do país. Em casos como esses, as exportações do Brasil ficam muito prejudicadas.”
Diante desse contexto, é importante que o Brasil tome ações na direção de não ser visto como vulnerável, avalia Souza, que é CEO da consultoria política Dharma. A questão, segundo ele, é que o sistema político não quer resolver a questão fiscal, principal calcanhar de Aquiles do país.
“Como me disse uma vez um congressista, as regras fiscais elas já nascem mortas, porque o sistema político não se importa com o fiscal. Da construção da regra de ouro, passando pelo teto de gastos e chegando ao arcabouço fiscal, o que a gente tem em termos práticos? Narrativas muito bem estabelecidas, às vezes mais bem aceitas por parcela dos atores, como o discurso do [ex-ministro da Economia, Paulo] Guedes era pela Faria Lima. A experiência de Lula faz ele acreditar no consumo sustentando crescimento, o binômio picanha-cervejinha, então para o [ministro Fernando] Haddad, fica a tarefa de passar no Congresso e conquistar a Faria Lima através de uma agenda centrada na arrecadação”, diz Vicente. “Só que o governo não conseguiu fazer essa combinação com o Congresso Nacional, porque os parlamentares têm outras prioridades – a retroalimentação de seu poder e seus projetos de reeleição. Os prefeitos, por exemplo, vão assumir já tendo na sua conta o fato de que o Congresso está muito sensível ao alívio das suas eventuais pendências, como fizeram com a desoneração da folha previdenciária.”
Neste contexto difícil, continua, a saída para a equipe econômica tem sido a “dobradinha”$ com o Judiciário para conseguir vitórias que ajudem no controle de gastos, como na questão do voto de qualidade do Carf. Outro ponto em que o Supremo Tribunal Federal (STF) vem ajudando, na visão do consultor político, é sobre a interpretação de despesas fora da meta de primário como foi no caso dos recursos para combater os efeitos da seca no meio do ano.
A questão segundo ele, é que não se sabe até quando vai essa aliança entre Executivo e Judiciário e também reconhecer que o ciclo eleitoral de 2026 já começa a ter seus contornos iniciais feitos pelos resultados das eleições municipais.
Em meio a todas essas dificuldades, um ponto positivo que saiu das eleições municipais para o governo federal, pondera Vicente, foi o renascimento do MDB e PSD. “De certa forma, dá certa sensação de que a polarização passou, as pessoas cansaram e querem resultados. Isso pode devolver alguma margem de manobra ao governo no Congresso.”
Um último fator que pode trazer dor de cabeça ao governo federal é que, a partir de 2026, muita coisa vai começar a mudar por causa da reforma tributária, diz o professor Eduardo Menicucci. “As principais fontes de arrecadação das prefeituras e Estados não ficarão mais sob o controle direto deles. Então haverá um enorme acampamento em Brasília de lobbies para tentar não perder receita.”
Fonte: Valor Econômico
