Por Luciana Del Caro — Para o Valor, de São Paulo
30/05/2023 05h02 · Atualizado há 5 horas
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Os tempos difíceis, de fuga dos investidores dos ativos de risco, podem estar ficando para trás. A expectativa de gestores de recursos entrevistados para esta edição do “Guia Valor de Fundos de Investimento” é de uma volta muito gradual ao risco. A convicção no cenário otimista não é alta, mas a metáfora da luz no fim do túnel citada pelos gestores sintetiza a percepção que prevalece no momento.
Apresentado o novo arcabouço fiscal pelo governo, e mesmo que as novas regras não tenham sido consideradas ideais, os gestores entendem que o risco de descontrole fiscal está afastado por enquanto – abrindo espaço para o início do ciclo de redução de juros.
“A hora da virada pode estar começando”, afirma Philipe Biolchini, CIO da Bradesco Asset Management (Bram). Ele embasa a sua percepção em fatores como a expectativa de queda de juros no Brasil e manutenção das taxas nos EUA, possíveis surpresas positivas com a queda de preços de alimentos devido à boa safra, normalização das cadeias produtivas e possibilidade de queda nas commodities. O risco, considera, é de que a inflação não recue conforme o esperado, o que inviabilizaria o cenário mais positivo.
“Para quem gosta de renda fixa, há oportunidades, mas com volatilidade. O prêmio de risco embutido nos ativos é muito relevante”, diz. Embora parte da queda de juros de curto prazo já esteja precificada, o gestor considera que há oportunidade nas taxas mais longas, como as NTN-Bs, que ainda estão pagando cerca de 6% de juros reais. Biolchini também chama atenção para outro indicador que pode estar sinalizando a virada: a recuperação dos índices IFR-M e IMA-B, que renderam 151% do CDI e 127% do CDI, respectivamente, neste ano (até o dia 11 de maio).
“Começamos a ver uma luz no fim do túnel”, afirma Marco Bismarchi, sócio da Tag Investimentos. As oportunidades para os investidores com mais apetite ao risco estão surgindo não apenas nos títulos públicos, mas também no crédito privado. Os spreads ainda estão elevados e o momento pode ser propício para capturar uma possível queda das taxas (valorização dos títulos), considera Bismarchi: “Há boas oportunidades com títulos high grade”. Títulos de empresas de primeira linha, que antes do evento Americanas pagavam CDI + 1%, agora pagam CDI + 2,5%.
Mas, antes que os fundos de crédito privado e renda fixa voltem a atrair investidores é possível que os mais arrojados prefiram os multimercados, sempre recomendados pelos gestores pela flexibilidade. Bruno Castro, CEO da XP Asset Management, lembra que os multimercados aproveitaram bem os ciclos de queda de juros antes da pandemia e também a elevação dos juros americanos no ano passado. Por isso – e porque essa categoria também pode capturar eventual valorização da bolsa – ele recomenda que o investidor que já aceita migrar para ativos de risco comece por essa categoria.
Para Ricardo Sommer, diretor da Sicredi Asset Management, faz sentido ir aos poucos aumentando a exposição ao risco por conta da expectativa de queda dos juros, mas desde que o investidor respeite seu perfil e suporte a volatilidade. Sommer espera que os juros caiam apenas no início do ano que vem e considera que incertezas, como a referente à meta de inflação, ainda vão trazer oscilações. “Há uma oportunidade de curto prazo para a tomada de risco”, afirma Fabricio Taschetto, CIO da Ace Capital. Após um início de ano pessimista, a casa vê um cenário mais positivo devido ao aquecimento da atividade econômica, ao recuo da inflação de alimentos e à valorização do real. A médio prazo, no entanto, o gestor está menos otimista por conta de sinalizações sobre a política econômica, como a tentativa de revisar o marco do saneamento e uma esperada ampliação do papel do BNDES.
E a bolsa, seria a hora de o investidor mais arrojado entrar? “Olhando como um todo, o patamar de preços está compatível com o atual nível dos juros”, considera Ricardo Almeida, diretor de renda variável da ASA Investments. Para ele, os juros e o desempenho da economia real ditarão a tendência. Mas, como o gestor já vê uma luz no fim do túnel, os fundos de ações long biased e long only da ASA refletem uma visão mais benéfica do que a do passado.
No long only (que fica apenas comprado em bolsa), o caixa foi recentemente reduzido de 6% para 2%. A preferência é por ações do setor de varejo e consumo e empresas que podem crescer mais rápido graças à alavancagem operacional, como as small caps. Por outro lado, foi reduzido o peso dos papéis de commodities e exportadoras. No long biased (que também pode ter posição vendida), a parcela comprada em ações subiu de 30% para os atuais 50%, posição considerada neutra. Na Schroders, há um otimismo cauteloso com a bolsa. Os fundos de ações voltados a mercados emergentes da gestora estão com posição “overweight” em Brasil. O que motivou o aumento foi a proximidade da queda dos juros e o preço dos papéis, considerado atrativo. João Noronha, cogestor de renda variável, explica que, desconsiderando as ações de commodities, o índice P/L do Ibovespa está em 9, abaixo do histórico patamar de 11,3. A casa prefere ações dos setores de shopping centers, bancos e elétrico (considerado menos arriscado) e não tem papéis de petróleo e mineração.
Com relação à bolsa americana, a cautela ainda prevalece. Muitos consideram que a queda da inflação nos EUA sinaliza o fim do ciclo de aperto monetário, mas não há convicção de que a economia vai desacelerar de forma ordenada. Andrew Reider, CIO da WHG, acredita que os juros americanos devem permanecer no atual patamar por um período mais longo, a não ser que algum imprevisto ou a crise dos bancos regionais se agrave, gerando uma recessão de maiores proporções. Ele lembra que a manutenção das taxas em 5,25% ao ano já significa uma política monetária restritiva, pois os juros neutros do país são estimados em 2,5%. A casa mantém ações de empresas de tecnologia e só pretende trocar esses papéis por outros setores se um cenário benéfico se materializar.
Já a Kairós Capital está mais pessimista que a média do mercado. O sócio Fabiano Godói enxerga grande dificuldade dos bancos centrais em trazer a inflação para o alvo sem gerar uma desaceleração forte da economia – o que não é um cenário positivo para países emergentes como o Brasil. A casa continua com posições maiores no mercado global, procurando se aproveitar da esperada desaceleração por meio de posições vendidas em bolsa. Com o Brasil, o ânimo é baixo pela resiliência da inflação, que retarda a redução dos juros.
Fonte: Valor Econômico

