Um vídeo publicado pelo CEO da Cimed, João Adibe Marques, reacendeu o debate sobre os limites da exposição de funcionários em conteúdos corporativos. Nas imagens, colaboradores da farmacêutica aparecem em um momento de descontração, tentando imitar a comemoração da “remada viking”, associada à seleção da Noruega na Copa do Mundo.
No entanto, a publicação gerou críticas nas redes sociais. Parte dos internautas classificou a cena como constrangedora e questionou se os funcionários participaram de forma espontânea. Além disso, alguns usuários sugeriram que o caso fosse analisado pelo Ministério Público do Trabalho.
A repercussão também abriu espaço para uma discussão mais ampla. Afinal, empresas têm usado cada vez mais as redes sociais para mostrar bastidores, aproximar marcas do público e reforçar a cultura interna. Porém, especialistas alertam que essa estratégia exige cuidado, principalmente quando envolve empregados.
Exposição pode gerar risco jurídico
Para Giulia Boer, advogada e especialista em direito empresarial, as redes sociais fazem parte da estratégia de comunicação de muitas companhias. Segundo ela, esse movimento pode ajudar empresas a mostrar valores internos e criar identificação com o público. Ainda assim, a marca precisa respeitar limites.
“Quando esse conteúdo envolve empregados, a empresa precisa equilibrar a exposição da marca com os direitos individuais dos colaboradores, especialmente quanto à imagem, privacidade e dignidade”, afirma.
A advogada explica que uma ação aparentemente positiva pode se tornar um problema jurídico quando há exposição excessiva, constrangimento ou pressão para participação. Além disso, a empresa precisa evitar situações que ultrapassem os limites do ambiente profissional.
“A legislação trabalhista protege a dignidade do trabalhador, e a Constituição Federal também garante direitos relacionados à imagem e à honra. Por isso, mesmo ações com intenção positiva podem gerar questionamentos se houver abuso ou se o funcionário se sentir obrigado a participar de algo que cause desconforto”, diz Giulia.
Por isso, segundo ela, a participação dos colaboradores precisa ser espontânea. “O ideal é que exista transparência, respeito aos limites individuais e cuidado para que a participação nesses conteúdos seja espontânea”, acrescenta.
Cultura não pode virar pressão
A especialista também destaca que a cultura empresarial tem papel importante no engajamento dos times. No entanto, ela avalia que a empresa passa do ponto quando transforma essa cultura em uma exigência de comportamento.
“A cultura empresarial é extremamente importante, mas passa do ponto quando deixa de ser um elemento de integração e começa a impor comportamentos que invadem a individualidade do trabalhador”, afirma.
Giulia reforça que a empresa pode incentivar valores, pertencimento e engajamento. Porém, precisa preservar a individualidade do funcionário.
“Uma cultura saudável é aquela em que o colaborador participa porque se identifica, não porque se sente pressionado”, completa.
Reputação também entra em jogo
Na avaliação de Júnia Braun, jornalista, especialista em relações públicas e comunicação empresarial e fundadora da Braun Comunicação Integrada, o episódio mostra uma mudança estrutural na comunicação corporativa. Segundo ela, muitas empresas tentam humanizar suas marcas, mas confundem espontaneidade com falta de planejamento.
“O mercado entendeu que o consumidor contemporâneo e os novos talentos não se conectam com logotipos rígidos, mas com pessoas e narrativas autênticas”, afirma.
Apesar disso, Júnia alerta que a busca por engajamento rápido pode atropelar a governança de comunicação. “O erro estratégico reside no fato de que muitas marcas confundiram essa informalidade digital com a ausência de filtros e governança de comunicação”, diz.
Para ela, nenhuma ação de marketing deve se sobrepor ao respeito. Além disso, conteúdos corporativos podem virar crise quando a empresa coloca o funcionário em uma posição de exposição desproporcional.
“Isso vira uma crise de imagem severa quando a busca pelo espetáculo e pelo ‘viral’ anula a dignidade e a segurança psicológica do colaborador”, afirma Júnia.
A especialista também avalia que o público percebe a diferença entre um momento espontâneo e uma situação de constrangimento. “A audiência detecta imediatamente quando o que a liderança chama de ‘descontração’ é, na verdade, constrangimento e exposição desproporcional”, acrescenta.
Viral pode gerar custo para a marca
Segundo Júnia, o risco aumenta quando a empresa transforma funcionários em parte de uma estratégia de entretenimento nas redes sociais. Nesse caso, a marca pode perder confiança, mesmo que o conteúdo gere alcance.
“Quando o funcionário é instrumentalizado como mero acessório de entretenimento do CEO, a marca destrói seu ativo mais valioso: a reputação e a confiança do público”, afirma.
A especialista também chama atenção para a diferença entre cultura forte e cultura performática. Para ela, a formação de cultura passa do limite quando deixa de refletir valores compartilhados e vira uma exigência pública de comportamento.
“Há uma linha perigosa entre engajamento legítimo e a espetacularização forçada do ambiente de trabalho”, diz.
Por fim, Júnia afirma que visualizações não compensam danos à imagem institucional. “O ganho efêmero de visualizações na internet nunca compensará o passivo de uma marca que se mostra insensível no trato com suas próprias pessoas”, conclui.
Fonte: BPMoney


