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A venda de canetas emagrecedoras no e-commerce brasileiro movimentou R$ 2,9 bilhões no primeiro trimestre deste ano, crescimento de 469,6% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento exclusivo da Neotrust, plataforma de dados da Confi, em parceria com a E-Commerce Brasil. O volume de unidades comercializadas chegou a quase 1,9 milhão, alta anual de 327%.
A análise regional indica uma expansão que já ultrapassa o eixo tradicional do varejo digital. Embora o Sudeste permaneça como principal polo de pedidos — superando a marca de R$ 2 bilhões em faturamento, com avanço de 451% —, o Nordeste apresentou o maior ritmo de crescimento do país, com alta de 594,7% em relação ao primeiro trimestre de 2025, alcançando quase R$ 296 milhões. Na sequência, aparecem as regiões Norte, com crescimento de 580,8%, e Centro-Oeste, com 549,4%.
Por meio da Neotrust, a Confi monitora a evolução do varejo eletrônico com base em transações reais de mais de 7 mil lojas, o que oferece análises das compras e do perfil de mais de 85 milhões de consumidores digitais. O levantamento das canetas considerou apenas o comércio digital formalizado, não contemplando o mercado paralelo.
O desempenho no início deste ano é interpretado como a continuidade de um movimento que já vinha ganhando força ao longo do ano passado. Após um primeiro quadrimestre abaixo das expectativas, a venda desses medicamentos ganhou tração a partir de maio, encerrando o ano com faturamento de R$ 7,5 bilhões e mais de 5,1 milhões de unidades vendidas. Apenas em novembro, as vendas ultrapassaram a marca de R$ 1 bilhão.
Ao analisar o perfil dos compradores, os dados do primeiro trimestre mostram que as mulheres respondem pela maioria absoluta das compras (63%). O recorte etário, no entanto, indica que o pico de adoção se concentra entre 35 e 54 anos, em ambos os gêneros. Já entre os consumidores com mais de 55 anos, os homens passam a liderar a proporção de compras.
O estudo também aponta a quase ausência de consumidores abaixo dos 24 anos, o que reforça o posicionamento da categoria menos como uma tendência estética e mais como um investimento em saúde e controle metabólico de longo prazo.
Do ponto de vista econômico, mais de 91% do consumo está concentrado nas classes média e alta. Dentro desse grupo, a classe média se destaca de forma isolada, respondendo por 51% do volume. “A concentração do consumo nos níveis socioeconômicos mais altos está diretamente ligada ao acesso ao e-commerce”, afirma Pedro Chiamulera, CEO da Confi.
Atualmente, mais de 65% das vendas totais do comércio eletrônico brasileiro ocorrem na região Sudeste. “Quando segmentamos para o setor farmacêutico, essa concentração regional e de renda é ainda mais acentuada, refletindo a facilidade de compra e a rapidez na entrega em áreas com maior infraestrutura logística”, complementa.
De acordo com o levantamento, março encerrou o trimestre com um pico acentuado de pedidos, mostrando que nem mesmo o preço médio de R$ 1.537,80 tem sido uma barreira para a demanda. De toda forma, por se tratar de um produto de alto valor agregado, a entrada das canetas emagrecedoras na cesta de consumo mensal também pode forçar uma redistribuição dos gastos do consumidor, especialmente na classe média.
“O consumidor acaba priorizando a continuidade do tratamento em detrimento de outras categorias de consumo não essenciais”, afirma Chiamulera. Nesse contexto, o avanço desses medicamentos também tem impulsionado a demanda por itens complementares. A categoria de suplementos vitamínicos e multivitamínicos, por exemplo, alcançou faturamento de R$ 2,2 bilhões, com alta de 35,1% no ano. O número de pedidos acompanhou esse movimento, crescendo 43,7% e ultrapassando a marca de 21 milhões de transações nos três primeiros meses do ano.
“A entrada do consumidor por uma categoria de tratamento abre espaço para a construção de uma jornada mais ampla de saúde preventiva, com impacto direto em categorias adjacentes”, afirma Chiamulera. Essa mudança também começa a transbordar para outros setores da economia.
Levantamento recente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), realizado com 1.417 bares e restaurantes, mostra que 61% dos estabelecimentos já identificam alterações no comportamento dos clientes associadas ao uso dessas medicações. O impacto não está na frequência, que se mantém estável, mas na forma de consumir, com redução no volume dos pedidos, maior procura por porções menores, aumento do compartilhamento de pratos e crescimento da demanda por bebidas não alcoólicas.
“Quando o volume por consumo começa a cair, mas a frequência se mantém, o que se altera não é o hábito de sair, mas a lógica de consumo dentro dessa experiência. Isso tem implicações diretas sobre o tíquete médio, a composição de cardápio, o mix de produtos e, principalmente, as margens operacionais do setor”, afirma Vivianne Vilela, diretora executiva da E-commerce Brasil.
Com a expectativa de ampliação da oferta global e possível redução de preços das canetas emagrecedoras nos próximos meses, a tendência é de aumento do acesso ao tratamento e intensificação desses efeitos sobre o consumo.
Fonte: Valor Econômico