“As campanhas orientam os candidatos a não dar muitos detalhes da economia, quem explica muito acaba tendo mais a perder do que ganhar. Por isso, vemos as propostas enfatizando mais o caráter dos políticos. Em um cenário econômico tão instável, é difícil dar detalhes. Não sabemos nem com qual nível de reservas vamos chegar a dezembro”, diz Gustavo Marangoni, analista político e consultor econômico.
De um lado, os dois candidatos considerados mais populistas, Sergio Massa e Javier Milei, apresentam propostas mais vagas e se apresentam como o candidato certo para solucionar os problemas, mas não falam em medidas concretas para sair da crise. Os dois pré-candidatos da coalizão do ex-presidente Mauricio Macri têm propostas mais detalhadas, mas de alto custo social, que o próprio governo Macri falhou em implementar na década passada.
Em uma análise das propostas apresentadas até aqui pelos candidatos argentinos, especialistas observam que a maioria delas pode ser inviável, pois implicaria em mais deterioração nos padrões de vida da população – que há anos sofre com a perda do poder real de compra com a inflação elevada.
A falta de confiança no peso, a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a recuperação do poder de compra são os principais focos dos presidenciáveis.
“Resolver ou não a crise depende do diagnóstico e das políticas que o novo governo vai aplicar. Se essas políticas, como sugerem algumas propostas, forem na direção de diminuir o salário real ou condicionar a participação dos assalariados na renda do país, dificilmente serão soluções para o setor social”, diz Hernán Lethcer, diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa).
Pelo peronismo, o candidato único é Massa, atual ministro da Economia, e ele tem o desafio de se desvincular da imagem negativa do presidente Alberto Fernández.
Massa representa o modelo econômico vinculado à produção e ao trabalho. Sua proposta mira a redução da inflação para melhorar o poder aquisitivo da população, mantendo os direitos trabalhistas, e a renegociação do programa de US$ 44 bilhões do FMI. Mesmo tendo se lançado candidato, ele segue à frente das negociações.
“Massa afirma que vai pagar o FMI e gerar crescimento, mas não detalha como. Agora, se ele começa a detalhar como chegar a esses resultados, a primeira coisa que lhe vão perguntar é ‘por que não faz isso enquanto é ministro?’ Não podemos tirar da balança o fato de que ele é o ministro da Economia”, diz Marangoni.
A ala opositora se divide entre a direita tradicional, representada pela coalizão de Macri, Juntos por el Cambio, e a extrema direita, representada pela coalizão La Libertad Avanza.
Milei é o candidato da extrema direita. Economista, ele propõe a dolarização da economia argentina, por meio do aumento do endividamento externo e forte desvalorização do peso, e fechar com o Banco Central, com a justificativa de que isso acabaria com a inflação no país. Além disso, sua plataforma prevê cortes nas aposentadorias, privatizações, abertura do mercado a importações e fim de obras públicas.
“As propostas de dolarização são irreais. No entanto, abrem espaço para aqueles que defendem uma forte desvalorização sem a dolarização, mas com redução de renda”, explica Letcher.
Dentro do Juntos por el Cambio disputam uma vaga nas primárias de agosto o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, e Patricia Bullrich, ex-ministra da Segurança do governo Macri.
“Vemos que as propostas [da oposição] vão no mesmo sentido, em maior ou menor velocidade. Falam em ter um programa de ajuste fiscal e deixar o controle do câmbio. Milei vai mais além e fala em dolarização, uma ideia que jogou e agradou muita gente. Mas quando conversamos com sua equipe, vemos que a dolarização é parte de um processo mais complexo, que envolve negociações para obter divisas e conversas com atores dispostos a financiar tal medida”, diz Fausto Spotorno, diretor da Escola de Negócios da Universidad Argentina de La Empresa.
Larreta é visto como o candidato mais alinhado com os grupos empresariais locais. Suas propostas incluem baixar o custo trabalhista – com cortes em benefícios ou redução de encargos sociais ou das contribuições previdenciárias – para melhorar a competitividade, eliminar progressivamente as restrições cambiais e realizar uma desvalorização – o que, segundo economistas, pode levar à perda de valor real do salário e consequente redução no poder de compra dos trabalhadores.
Patricia Bullrich é vista por economistas como a candidata mais fiel ao modelo econômico de Macri. Ela tem propostas semelhantes às de Larreta, mas defende acabar com os controles cambiais de forma imediata, impor um forte ajuste nos gastos públicos e desvalorizar o peso. Além disso, propõe baixar os custos trabalhistas e questiona o papel dos sindicatos.
Para Marangoni, mesmo apresentando propostas mais diretas, tanto Larreta quanto Bullrich enfatizam a capacidade pessoal para lidar com a crise. “Larreta diz que não fará uma reforma bruta, mas também não detalha. Bullrich fala que tem o necessário para implementar as reformas, mas não diz quais reformas serão necessárias. Fato é que resolver a crise argentina implicará em custos para diversos setores e a campanha não é o momento para se afastar qualquer setor que seja”.
Fonte: Valor Econômico


