Por Liane Thedim — Do Rio
12/05/2023 05h02 Atualizado há uma hora
O diretor comercial do Itaú BBA, Fabio Villa, vê um cenário de melhora na economia brasileira, apesar de esperar um corte gradual da taxa de juros, que, pelas previsões do banco, encerra este ano a 12% e 2024 a 10%. Segundo ele, o difícil momento do crédito, com juros altos, novo governo e, sobretudo, pós-descoberta do rombo da Americanas, levou a uma mudança no perfil das concessões do banco, que no ano passado foi muito voltado a aumento da capacidade (Capex) e, agora, tem mais demanda por capital de giro.
“As empresas estão preservando sua liquidez. Até tem Capex, mas é mais seletivo, porque as empresas estão revendo as prioridades de investimentos”, afirma.
Itaú vê maior demanda de empresas por capital de giro e projeta alta do custo de crédito
Após um primeiro trimestre complicado, ele diz que não houve alta da inadimplência no banco, embora não revele a taxa. O Itaú não separa os números do BBA em seu balanço, que mostrou no primeiro trimestre, no geral, índice de atrasos acima de 90 dias estável em 2,9%, em uma carteira de crédito de R$ 1,2 trilhão.
Villa diz que a instituição está “buscando boas empresas” para aumentar a carteira de crédito. “Se eu tivesse que resumir o primeiro trimestre numa palavra seria imprevisibilidade, o que colocou o pêndulo no pior lugar possível. Um recuo de 13,75% para 12% dos juros mexe o ponteiro das companhias? Não, mas vemos um cenário de médio e longo prazos melhorando. É um período de travessia. Vemos oportunidades de fusões e aquisições em todos os setores”, afirma. “O pior cenário não se materializará”.
Segundo o executivo, 2022 foi um ano atípico e de muita incerteza, mas com operações significativas. Cita exemplos como a atuação do banco como assessor financeiro da Carbonext em rodada de US$ 40 milhões com a Shell e da Neurotech em sua venda para a B3 (R$ 1,1 bilhão). O banco também levantou capital para empresas de tecnologia em 38 operações de dívida, totalizando R$ 5,5 bilhões no ano.
Além disso, a instituição estreou em “venture debt”, modalidade que engatinha no Brasil e é alternativa para injeção de capital sem diluir a fatia do fundador. “É um instrumento de dívida que substitui ou complementa o private equity, com custo atrelado ao ‘upside’ (potencial de alta) e ao ‘valuation’ (estimativa de valor da empresa), por exemplo”. De acordo com Villa, foram cinco transações do tipo com valores entre R$ 5 milhões e R$ 15 milhões, concentradas em tecnologia.
O setor, atualmente, é a menina dos olhos do Itaú BBA, que tem uma superintendência com mais de 150 pessoas envolvidas entre times comerciais e entorno (crédito, banco de investimentos, estratégia do cliente) e 1.500 clientes. Para entrar no grupo, a empresa pode ser de iniciante a madura, precisa ter um produto testado, com mercado potencial grande e foco em B2B.
A instituição formatou a área entre 2016 e 2019, treinando pessoal e estudando mercado. Quando foi à prática, em 2020, viveu a bonança, com o mundo se voltando ao digital na pandemia, em um cenário de juros baixíssimos. “Durante esse período, montava-se uma empresa de tecnologia de US$ 1 bilhão em um ano. Agora, o céu de brigadeiro passou e voltamos à normalidade, que é um prazo de quatro a cinco anos para a empresa dar retorno. Sabíamos que aquela situação não era perene, mas era uma boa janela para surfar as oportunidades”, recorda.
De lá para cá, o principal aprendizado do banco foi focar no B2B, que tem maior chance de êxito do que em economias mais maduras. “O B2C (voltada ao varejo) aqui tem que ser transformador, como o iFood, por exemplo, que digitalizou o ecossistema como um todo. Descobrimos que a vocação maior do Brasil é o B2B”, analisa.
Villa afirma que o Itaú BBA, um dos patrocinadores do Web Summit, megaevento de inovação que reuniu mais de 20 mil pessoas no Rio na semana passada, quer se posicionar como hub de originação de negócios entre os clientes. “A gente quer vender solução, não produto financeiro”, resume. O banco tem hoje um total de 25 mil empresas em sua carteira de clientes, sendo 20 mil de médio porte.
Fonte: Valor Econômico